OPINIÃO
05/09/2014 19:24 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:02 -02

O racismo não está nos torcedores, está nas pessoas

Mais uma vez, estamos todos mobilizados em torno de um caso público de racismo. É desumano reduzir as consequências do ato à discussão se o clube será ou não excluído da competição.

Montagem/Estadão Conteúdo

"O racismo elege bodes expiatórios para, de certa forma, aplacar a ira da multidão. No caso do futebol, principalmente nas derrotas, tendemos a culpar alguém. Quando o culpado é um jogador negro as alegorias utilizadas são metáforas discriminatórias que ferem não só o atleta, mas, principalmente, o ser humano". A afirmação é do professor Carlos Alberto Figueiredo, com quem conversei há poucos meses, quando Paulo César Tinga, do Cruzeiro, foi hostilizado por racistas em jogo contra o Real Garcilasso, no Peru, pela Libertadores. Não pensei que fosse ter que recorrer a ele em tão pouco tempo.

Mais uma vez, estamos todos mobilizados em torno de um caso público de racismo. Da Rede Globo à mesa do bar. Mário Lúcio Duarte Costa e os indivíduos que o hostilizaram no jogo contra o Grêmio, em Porto Alegre, ocupam o centro de campo. Não o trato aqui como Aranha, goleiro do Santos, porque racismo é uma questão humana, não de futebol, apesar das metáforas futebolísticas deste texto. Por isso, adianto, sou da ala dos que consideram a exclusão do Grêmio da Copa do Brasil descabida, infundada e, pior, ineficaz. Sorte nossa que a esfera da bola é completamente plural e a ação suscita outra discussão importante: o quão representativas dos clubes as torcidas são?

Bastou o jornal Lance! publicar, recentemente, o ranking das torcidas brasileiras para os clubes se gabarem do contingente que mobilizam Brasil afora, mesmo com a consciência de que a pesquisa não diferencia torcedor de simpatizante. Essa, entretanto, é uma questão para outra hora. Os programas de sócio, pensados para fidelizar -e capitalizar- a paixão do torcedor, se multiplicam pelo país depois da passagem do furação FIFA, que colocou nossos estádios abaixo e ergueu arenas multiuso no lugar. Essas são ações que trazem o torcedor para perto do clube e, naturalmente, dão a ele o status quo de representante do escudo que defende.

Mas, há um paradoxo. Tão logo algum torcedor comete algum ato considerado ilícito no estádio, o clube inicia os trabalhos para desvincular a sua imagem da do infrator. O medo da perda de mandos de campo, dos jogos sem torcida e até da exclusão levam o clube a negligenciar completamente seu apoiador, mesmo que ele pague uma mensalidade que ajude a sustentar o clube em atividade. É uma traição digna das piores canções sertanejas. A questão central, entretanto, não diz respeito à solidão do torcedor abandonado. É saber até que ponto estamos no plano do relacionamento entre torcedor e clube, antes que ele se torne o embate entre infrator e delator.

Volto ao tema inicial deste texto para explicar o que quero dizer. O episódio de racismo vivenciado por Mário Lúcio em Porto Alegre não é um caso para ser julgado pelo Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD). É um crime que merece ser analisado pela justiça comum (se é que isso é algo para se gabar). Quando aquela jovem estampada em todos os canais de televisão berrava a infelicidade que me recuso a repetir aqui não era uma torcedora ofendendo um goleiro. Era uma criatura tentando humilhar um ser humano. Onde o ato foi cometido pouco importa. É desumano reduzir as consequências do ato à discussão se o clube será ou não excluído da competição.

Institucionalizar a punição é negligenciar o rigor particular que ela merece. Não há efetividade alguma na exclusão do Grêmio da competição. A aplicação da justiça aos criminosos, sim, essa é cabível e necessária. José Miguel Wisnik, no famoso Veneno Remédio, diz que "viver o futebol dispensa pensá-lo e, em grande parte, é essa dispensa que se preocupa nele". Talvez seja por conveniência que sempre tendemos a pensar o futebol como algo com leis próprias, fora do mundo real.

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