OPINIÃO
23/07/2014 18:00 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:43 -02

O dia em que a América cantou de Galo

Gabriel Castro

Há um ano, o Atlético Mineiro vencia o Olimpia no Mineirão e conquistava de forma épica seu primeiro título na Copa Libertadores | Foto: Gabriel Castro

Mesmo cercado por mais de 42 mil torcedores naquele 27 de novembro de 2005 cinzento para o torcedor atleticano, Bruno Tostes estava sozinho na arquibancada do Mineirão. Foi assim que viu o Atlético Mineiro empatar com o Vasco da Gama e ser rebaixado para a Série B do Campeonato Brasileiro. Apesar de tudo, Bruno sabia que podia acreditar. Por mais improvável que possa parecer, ali começava para ele a história de um dos títulos mais importantes do Clube Atlético Mineiro: a Taça Libertadores da América de 2013, conquista que completa um ano em 24 de julho de 2014.

A queda do Galo para a segunda divisão fez do Mineirão um santuário de promessas para Bruno Tostes. A primeira, e talvez mais difícil, a de não se emocionar. "Apesar da tristeza, eu tentei ser otimista. Prometi que não iria chorar, porque acreditava que, de alguma maneira, o rebaixamento poderia contribuir para a reestruturação do Atlético e, assim, o clube voltaria ainda mais forte para a Série A", relembra Bruno. A partir daí, o consultor financeiro de 35 anos acionou toda sua habilidade com números para contar os dias da volta do Galo à elite do futebol nacional.

Os planos de segurar as lágrimas foram frustrados quando uma senhora, segurando o filho de seis anos pelas mãos, se aproximou e exclamou: "Bruno, eu não sei mais o que eu falo para o meu filho!" Visivelmente emocionado e com a fala calma de sempre, ele conta que o menino o puxou pela barra da bermuda e perguntou: "o Galo não ganha de ninguém, não?". Talvez, essa fosse a interrogação que todo alvinegro carregava consigo naquele momento.

A pergunta ingênua da criança coincidiu com um dos momentos mais excepcionais da partida contra o Vasco. A torcida do Atlético Mineiro, já reconhecendo que o rebaixamento era mais que iminente, incendiou as arquibancadas do Mineirão e cantou a plenos pulmões o hino do clube. A atitude não surpreendeu Bruno, mas o encorajou a encontrar explicações para convencer o menino de que, um dia, a história seria diferente.

"Eu sentei ao lado da mãe e da criança e disse para eles ouvirem o canto da torcida. Lembro-me de ter dito que não era possível Papai do Céu ter feito uma massa como essa para que a gente sofresse a vida inteira." Firme como nunca, Bruno afirmou:

"O nosso dia vai chegar! E vai ser de um jeito só nosso, como ninguém nunca ganhou", cravou.
Parecia que ele cantarolava por dentro um trecho do hino do Galo, para lembrar que o ideal, dali pra frente, seria "vencer, vencer, vencer"!

Yes, They CAM

O menino consolado por Bruno Tostes pode até não se lembrar das palavras que ouviu nas arquibancadas do Mineirão. Entretanto, o atleticano, calejado pelas reviravoltas do futebol, ainda revive o som das próprias declarações. "Em cada um dos momentos difíceis da Libertadores, eu lembrei do que disse à criança naquele dia", recorda Bruno.

Como atleticano fiel que é, ele fez coro com outros 56.557 torcedores que empurraram o Galo na partida decisiva contra o Olimpia do Paraguai, no Mineirão. Até a grande final da competição, o Atlético mandou seus jogos no Estádio Independência. Em função do regulamento da Libertadores, a final teria que ser disputada em um estádio com capacidade superior a 40 mil lugares. Foi então que Bruno e o time do coração voltaram ao Mineirão, casa que os recebeu por tantos anos.

Na primeira partida da decisão da Libertadores 2013, o Atlético retornou do Paraguai com uma derrota por 2 a 0 contra o Olimpia. No Mineirão, a tarefa não era simples. Depois de um primeiro tempo sem gols, ressurgiu a mesma vocação de Bruno Tostes para elevar a confiança de colegas de arquibancada --praticada por ele com afinco no tempo em que representava o Galo em um programa de televisão. "No intervalo, vi um senhor muito desanimado, chorando. Ele estava com duas crianças e percebi que os meninos olhavam para ele sem entender. Eu não resisti e disse para ele levantar a cabeça. Sabia que ia dar Galo", conta.

O segundo tempo trouxe logo o gol de Jô para fazer a massa voltar a confiar. O grito de "Eu Acredito!" era cada vez mais forte na arquibancada do Mineirão. O lema Yes, we can usado por Barack Obama nas eleições presidenciais de 2008 se materializava em Yes, we CAM. Já nos últimos minutos da etapa final, o zagueiro Leonardo Silva aproveitou o cruzamento de Bernard e empurrou a bola para o fundo do gol. Era o que o Galo precisava para levar a decisão à prorrogação. "Eu vi a bola entrar lentamente na rede bem na minha frente. O senhor que estava triste no intervalo pulou em mim e comemoramos, como duas crianças, na arquibancada", lembra Bruno, como se a cena se repetisse na sala de casa.

O placar se manteve em 2 a 0 e a disputa foi para os pênaltis. Na última cobrança, a bola de Gimenez explodiu não só a trave do gol de Victor, mas o coração de Bruno Tostes, que tinha a certeza de cumprir a promessa que fez ao garoto em 2005.

"Eu vi acontecer no Mineirão o que eu disse àquele menino. Uma conquista com a cara do Galo, de um jeito que o torcedor alvinegro nunca vai esquecer!"

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Nota da blogueira:

Como já dizia Roberto Drummond, "o atleticano torce contra o vento". Mas, não há nada melhor que ver o vento soprar a seu favor. Um ano do dia mais intenso e extasiante da minha vida futebolística. Obrigado, meu Galo! Jogue sempre por nós!

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