OPINIÃO
22/05/2014 14:01 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:36 -02

Copa pra cego ver

Assim como qualquer outro torcedor, os cegos também têm direito de saber que o Neymar só joga com a gola da camisa levantada; que o Felipão gesticula os 90 minutos no banco de reservas, etc.

Divulgação/Urece

Dizem por aí que para assistir a uma partida de futebol é preciso enxergar os jogadores, suas formas, cores, penteados, dribles e falhas. Convencionou-se que assistir é olhar atentamente, acompanhar os gestos do juiz, perceber a bandeira levantada que assinala o impedimento, o pânico no olhar do torcedor do time que leva a virada nos acréscimos e perde o campeonato.

Dizem, portanto, que futebol é coisa de quem enxerga. Ledo engano! Até o próprio dicionário contradiz esse pensamento, pois entende assistir como "estar presente". E quem disse que o deficiente visual que vai a campo não está presente? Está e compartilha da mesma paixão que move outros milhões que torcem no estádio, nos bares, em frente à televisão ou com o velho radinho de pilha colado ao ouvido.

Por mais retrógrado que possa parecer, ainda não temos um sistema funcional de narração audiodescritiva dos jogos nos estádios, às vésperas de uma Copa do Mundo no Brasil. Os mais leigos podem questionar: "a narração do rádio conta o jogo a quem não assiste". Novo engano. Assim como qualquer outro torcedor, os cegos também têm direito de saber que o Neymar só joga com a gola da camisa levantada; que o Ronaldinho Gaúcho alisa a bola antes de colocá-la quase com as mãos no ângulo numa cobrança de falta; que o Felipão gesticula os 90 minutos no banco de reservas. E só cabe aos deficientes visuais julgar se a informação é relevante ou não.

Futebol é uma linguagem universal e podemos torná-la mais inclusiva. Como tem feito a Urece Esporte e Cultura para Cegos. A entidade, em parceria com o Centre for Acces to Football in Europe (CAFE), está treinando voluntários para o projeto de narração audiodescritiva dos jogos da Copa do Mundo 2014. A iniciativa, pioneira no Brasil, será implementada em quatro sedes: Rio de Janeiro, São Paulo, Brasília e Belo Horizonte. Serão 16 pessoas se revezando para ser o olhar atento dos deficientes visuais que assistirão às partidas nesses estados. Não cabe neste espaço o orgulho que sinto em fazer parte dessa equipe.

Ainda é pouco se pensarmos no que podemos fazer para explorar as possibilidades de inclusão e sociabilidade que o futebol e o esporte, de maneira geral, nos oferecem. As arenas brasileiras estão modernas, de multifuncionalidade aclamada, mas não foram pensadas com projetos integrados de promoção à inclusão. O trabalho da Urece é o começo de um longo caminho. Mas, como o próprio slogan da entidade diz, "não enxergamos obstáculos".

Que a Copa seja realmente de todos!

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