OPINIÃO
27/05/2014 17:55 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:36 -02

A estreita e histórica relação entre futebol e política

Futebol e política estão intimamente ligados. Não há momento mais apropriado para resgatarmos essa relação histórica: ano de Copa do Mundo e eleições.

ESTADÃO CONTEÚDO

"Noventa milhões em ação, pra frente Brasil, do meu coração. Todos juntos vamos, pra frente Brasil! Salve a Seleção."

A música cantada na ponta da língua por dez entre dez brasileiros de qualquer idade é mais que o hit que embalou a Seleção Brasileira de Pelé, Tostão e Rivellino na conquista do tricampeonato do mundo, em 1970. É o símbolo que futebol e política estão intimamente ligados. Não há momento mais apropriado para resgatarmos essa relação histórica: ano de Copa do Mundo e eleições.

O período da história brasileira em que esta relação foi mais evidente é a Ditadura Militar (1964-1985), cujo golpe que a instaurou completou 50 anos no fim de março. Neste período - especialmente entre 1966 e 1971, no governo do general Médici -, a agência especial de relações públicas ligada ao Regime promoveu a associação entre a imagem da Seleção Brasileira e o governo militar.

Peças publicitárias, sobretudo os chamados filmetes que eram veiculados nos canais de televisão, eram protagonizadas por jogadores da Seleção Brasileira. O próprio Pelé chegou a ser garoto propaganda do governo Médici e teve seu nome vinculado a um projeto educacional, o Plano Pelé para a Educação, no qual parte da arrecadação da loteria era destinada à construção de escolas.

Soldados a postos

Inglaterra, 1966 - O Brasil vinha de dois títulos mundiais consecutivos (1958 e 1962) e carregava o peso de conquistar o tricampeonato. Uma preparação conturbada, entretanto, jogou por terra o favoritismo brasileiro e resultou na segunda pior campanha da Seleção em Copas do Mundo, atrás apenas da 14ª colocação em 1934.

Era o massacre do futebol-arte sul-americano frente à força dos europeus. A partir daí, uma série de questionamentos sobre as práticas do futebol brasileiro começaram a ser levantados pela imprensa, especialmente sobre a preparação física dos jogadores.

"Naquela época, foi amplamente difundida a ideia de que perdemos a Copa porque os jogadores brasileiros não eram atletas e, por isso, não tinham preparo para enfrentar seleções europeias. Ainda não existia a mentalidade que a preparação física era algo preponderante para a vitória. Assim, a ideia de que os jogadores teriam que se comportar como soldados passou a fazer parte do imaginário da população, da imprensa e do governo", explica Euclides de Freitas Couto, especialista em história e sociologia dos esportes e professor da Universidade Federal de São João Del Rey.

A associação da imagem dos jogadores com soldados foi a oportunidade perfeita para que os militares dessem início a uma nova metodologia de preparação física para a Seleção e a aparelhou com os melhores profissionais para guiar esta mudança. Euclides de Freitas Couto revela que "diversos estudos sobre o assunto foram realizados à época e a comissão foi militarizada, o que deu legitimidade para que o discurso autoritário e consonante com o Regime fosse paulatinamente sendo incorporado ao cotidiano da Seleção".

Tostão, campeão do mundo em 1970, disse em sua coluna na Folha de S.Paulo de 26 de março:

"Ao mesmo tempo em que tenho orgulho de ter sido campeão por um dos maiores times da história, sinto-me, às vezes, incomodado, quando escuto que a seleção de 1970 foi o ópio do povo e que foi usada pela ditadura. Todos os governos, de todo o mundo, ditaduras e democracias, como a atual do Brasil, fazem o mesmo, ainda mais em uma Copa no próprio país."

Clubes militarizados

A onda de mudanças na preparação física dos jogadores chegou, consequentemente, ao dia a dia dos clubes do futebol brasileiro. Os técnicos que adotavam métodos militares nos treinamentos passaram a ser reverenciados. Como Yustrich, ex-goleiro e técnico, famoso nas décadas de 1950 e 1960 por seu temperamento turrão. Yustrich chegou a treinar o Cruzeiro diversas vezes, uma delas em 1972, época em que o ídolo Tostão se negou a trabalhar com ele e foi jogar no Vasco da Gama.

Não foi só a preparação física que mudou com a relação entre o futebol nacional e a Ditadura. A estrutura do campeonato brasileiro de 1970 e de 1971 - primeiro nos moldes atuais, vencido pelo Atlético Mineiro - foi impactada pelo interesse político. O governo tinha como prioridade desenvolver a noção de um território extenso, porém, unificado, integração que seria feita por meio do esporte.

"O partido do Regime era a Arena e, à medida que o governo posicionava políticos em pontos estratégicos do país, a ideia era que tivesse um clube de futebol representando o Estado onde a Arena tinha o comando. Assim, a estrutura do campeonato dialogou diretamente com os interesses da Ditadura", avalia Euclides de Freitas Couto.

Futebol Político

A utilização do esporte como estratégia política não foi uma particularidade brasileira. Na Itália regida por Mussolini e na Alemanha Hitleriana, por exemplo, toda a glória esportiva das nações era convertida em capital simbólico para o Estado. No Brasil, já era possível observar o futebol como massa de manobra política a partir da Era Vargas (1930-1945), apesar de a relação ter se estreitado somente a partir de 1966.

Este tipo de estratégia, no entanto, "não está presente somente em regimes ditatoriais: no período democrático brasileiro, que se estendeu de 1945 até o início da Ditadura, em 1964, os governos também utilizaram a imagem da Seleção Brasileira para interferir na política e na gestão do esporte", explica Euclides de Freitas Couto.

Cinquenta anos se passaram desde o golpe militar. A democracia foi restaurada, mas a relação entre futebol e política continua viva. Tanto que muitos especialistas acreditam que a possível reeleição da presidenta Dilma Roussef esteja intimamente ligada a um bom desempenho do Brasil na Copa do Mundo de 2014. "Não há dúvidas que as vitórias da Seleção Brasileira deixam o povo, de maneira geral, ao menos distraído. Com as pessoas felizes, acabamos discutindo mais futebol que política. Uma vitória na Copa facilitaria a reeleição", avalia Couto.

O especialista em história e sociologia do esporte pondera, contudo, que a relação não é tão direta como na Ditadura, pois hoje temos mais acesso à informação e vivemos num regime democrático. Que as lembranças de um período sombrio na sociedade e no futebol brasileiro não nos deixem esquecer que ainda há muito que caminhar.

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