OPINIÃO
06/10/2014 20:49 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:04 -02

Um cara legal

reprodução

Minhas ideias de conversa aqui no Brasil Post giram em torno de duas esferas - bem grosso modo - plasticidades e femininos. E ultimamente essa segunda tem me feito mais pensativa (ou encucada?) e esse texto tem a ver com isso.

Há alguns dias passei por uma situação que poderia muito bem sequer ter sido notada, mas acho que depois do meu ultimo texto por aqui e de tudo que se tem debatido e experimentado nessa área não tive como abstrair. E dividir. Eu estava proseando com um amigo, desses amigo de amigo, sobre suas ultimas postagens em redes sociais - no caso Instagram. Nas fotos, ele está rodeado de meninas, achei curioso e resolvi comentar num tom de brincadeira, mas o que eu ouvi de volta me surpreendeu: 'Nossa, é isso que está parecendo? Legal, assim que tem que ser...'. Até aí tudo bem, não fosse o fato dele me ter confessado, minutos antes, com o coração partido, que estava cheio de 'relationship issues' pra resolver - acho que se referiu a sua ex.

Foi aí que me peguei pensando 'poxa, mas ele é um cara tão legal, parceiro, divertido, coletivo'. E quantos desses caras legais a gente conhece, tem por perto ou até mesmo namora? Eu fiquei chateada com o que ouvi, um pouco com raiva de ver alguém por quem eu tenho um carinho grande não conseguir se desvencilhar de umas besteiras que, no fundo, de besteiras não tem nada.

Me peguei encucada mesmo, e rastreando vários caras bacanas que dizem-fazem coisas que, em outras pessoas a gente não aceitaria, mas que com um 'cara tão legal' a gente acaba relevando. Mas, então, me expliquem uma coisa, se é tão difícil aceitar contradições e preconceitos de toda sorte, porque nessas 'sutilezas de gênero' a gente releva com tanta facilidade? São essas sutilezas que, com o tempo, marcam nosso jeito de ver o mundo de forma quase irreversível. No caso do meu amigo, acho que seria bem difícil sequer bater um papo sobre o assunto, já que ele me mostrou, uma outra vez, ter uma visão bem esquisita (eu diria obscura) sobre gênero. Não bastasse isso, meu amigo intenciona fazer trabalho humanitário e pleiteia um estágio num lugar como ONU, OMC, etc. Bom, contradição por contradição somos todos cheios delas, certo? Claro! Somos pessoas e acho que, a essa altura, cabe a gente entender que muitas vezes levamos nossas contradições ao pé da letra: amamos uma pessoa, mas brincamos de gato e rato, temos nosso próprio jeito de pensar o mundo, mas seguimos o fluxo pra não perder nossa plateia, etc.

Eu não quero que esse texto fique com tom de testemunho-amargurado-de-uma-menina-desiludida-com-os-amigos, mas entendo as interpretações com rótulos. Eu só me coloco mulher, aqui, por ser uma (!) e por ver, desse lado da moeda (que não deveria ter só dois lados), que são essas pequenezas do dia-a-dia que montam estruturas, vamos lá, de poder que acabam se tornando, por consequência, nossa forma mais constante de conseguir estar no mundo, nosso filtro. Meu amigo passa por isso, ele consegue ver problemas humanitários e ter vontade de mudá-los, mas não consegue enxergar que vestir a carapuça desse ethos masculino não vai ajudar em nada com seus problemas de relacionamento, ao contrário. Mas o pior, pra mim, é ele não ver que questões de gênero também são humanitárias - #heforshe, UN Women, women economic empowerment, LGBT, etc., estão aí pra mostrar isso. E mais, o 'trabalho humanitário', a solidariedade, o carinho - consigo mesmo e com os outros - não pode acontecer só no horário do expediente, tem que começar na nossa intimidade, com quem a gente tem bem perto, no nosso entorno.

Mas como a gente fica, então, se ele é 'um cara tão bacana'?

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