Opinião

Quatro anos de Londres... e um doutorado

Quando cheguei eu só tinha uma certeza: eu não iria fazer um doutorado, eu iria viver um. Parece clichê, né? Talvez seja. Mas tudo começou já no finzinho do meu mestrado. Eu era tarada pelo que eu pesquisava e conseguia me ver no meio universitário por um longo tempo na minha vida, mesmo que ainda me sentisse meio deslocada por uma serie de motivos. Só quem faz ou fez um doutorado sabe a coisa sinistra que é, especialmente se você parte pro exílio voluntário, o que só potencializa os sentimentos, os medos, mas também as conquistas.

Em meados de 2011 conquistei uma bolsa de doutorado e em setembro do mesmo ano me mudei pra Londres. Eu já conhecia a cidade, onde passei um mês quatro anos antes, mas apenas como turista. Dessa vez, era diferente, eu viria pra ficar.

Quando cheguei eu só tinha uma certeza: eu não iria fazer um doutorado, eu iria viver um. Parece clichê, né? Talvez seja. Mas tudo começou já no finzinho do meu mestrado. Eu era tarada pelo que eu pesquisava e conseguia me ver no meio universitário por um longo tempo na minha vida, mesmo que ainda me sentisse meio deslocada por uma serie de motivos. Só quem faz ou fez um doutorado sabe a coisa sinistra que é, especialmente se você parte pro exílio voluntário, o que só potencializa os sentimentos, os medos, mas também as conquistas. Então o que já estava plantado na minha cabeça só aflorou e ganhou outras dimensões e daí veio a ideia, no comecinho de 2012, de viver intensamente tudo que Londres - e o meu curso - me proporcionasse..

A parte mais difícil foi tirar o outro pé do Brasil e fincar os dois de vez por aqui e, nessa área, as amizades contam demais. As circunstâncias de trabalho criaram o que, no começo, parecia um enorme obstáculo: a convivência quase que exclusiva com europeus e ingleses. Por conta da minha área de trabalho, acabei me cercando de gente de tudo que é canto da Europa e da Inglaterra e foi bem difícil criar vínculos. Já especulei sobre isso inclusive com minha melhor amiga por aqui, uma canadense, e junto com amigos ingleses concluímos que, bom, é algo cultural. Os ingleses, de modo geral, são fechados e minha universidade não tem um ambiente de sociabilidade dos melhores. Tive que aprender a separar (bem) amigos de colegas e deu certo!

Aproveitei galerias, contatos, cursos, revistas a preços módicos - Acne Paper e Industry são minhas favoritas - e comecei a me embrenhar em outras áreas e dar vazão a um monte (um monte mesmo) de vontades que eu tinha deixado bem escondidas durante anos. Aprendi a ler sobre moda e conversar sobre moda, redescobri artes visuais e conheci o mercado de luxo, o qual me deixa muito inquieta e curiosa, confesso. Descobri na marra que falta de sol deixa a gente doente mesmo e tive que descobrir jeitos de fazer o corpo funcionar de forma saudável: desde bem cedo voltei ao pilates e natação. Mesmo com piscina aquecida, vocês devem suspeitar que durante o inverno a coisa complica, foi então que resolvi bisbilhotar tudo que é aula - body pump, body attack, zumba, you name it! (rsrs). Na academia sofri bullying das colegas na aula de zumba, porque sou brasileira e não sei rebolar direito! A meta da galera: fazer a latina aprender a rebolar, e olha que as minhas colegas não são tão rebolativas assim. Mas o que fica é o jeito leve de lidar com estereótipos e de aprender com eles a rir de si mesmo e com os outros.

Aceitei a solidão quando ela veio (e vem), inventei jeitos de enganar a saudade da família, do cachorro que ficou com minha mãe, da vó quase centenária que já anda bem cansadinha, dos cafés ao lado da minha madrinha que era quase minha vizinha, enfim, dessa coisa toda que a gente chama de lar. Aprendi a chamar de 'lar' as varias (muitas) casas em que morei nessa cidade frenética e milenar - e fica uma dica, se vale de algo: invista numa casa boa e isso não significa cara ou extravagante, ao contrario. Invista num lugar que te faça sorrir quando sair do trabalho ou tiver que enfrentar o vento e a chuva, os quais, alias, você vai aprender a amar e usar como inspiração pro trabalho. Isso é bem verdade, dias cinzas e chuvosos são ótimos atrativos pra quem trabalha em home office ou precisa ficar horas a fio sentado em frente a uma tela.

Talvez fique aqui um texto meio bobão, meio clichê, meio 'sei lá', mas fica um carinho enorme e uma vontade imensa de dividir com o mundo o quão gostoso e rico pode ser aprender tudo de novo, começar do zero e refazer amigos, lugares pra chamar de 'seu' e vizinhos pra emprestar medidor pra bolos e tortas. Como ficou meu doutorado? Ah, está indo bem, já chegando na reta final. O que farei daqui pra frente? Vamos ver o que os bons ventos trazem, mas se você está aqui, terminando esse parágrafo comigo, significa que algo bom eles já trouxeram.