OPINIÃO
04/01/2015 13:03 -02 | Atualizado 26/01/2017 21:43 -02

Quanto custou sua Chanel?

reprodução

Há alguns (vários) anos, eu ainda estava na graduação e morando no Rio, reencontrei uma prima num desses eventos familiares e ela estava com uma bolsa da Kipling que eu, na época fã inveterada, não reconheci ser de nenhuma coleção. Quando a perguntei ela riu e disse '25, ué?'. Um minuto de silêncio até minha ficha cair. Pra conseguir uma bolsa da Kipling, na época, eu economizava, e esperava as promoções sazonais pra conseguir comprar. Minha prima, naquele contexto, não precisava ir ate a 25 (de Março) pra comprar uma bolsa da Kipling. Financeiramente ela tinha mais do que condições.

Hoje muita coisa mudou nas minhas escolhas de compra e no meu estilo, mas no mercado a procura pelas peças 'knock off' ou 'counterfeit', ou, em bom português 'cópias' parece não só ter aumentado, mas se tornado um setor altamente especializado e global. Desde que comprei minha primeira bolsa de luxo (uma decisão que renderia um bom texto, eu acho), há três anos, eu passei a acompanhar o mercado mais de perto e prestar mais atenção no comportamento consumidor. Em outro texto postado por aqui, também joguei na mesa minha inquietação sobre esse consumidor contemporâneo, um consumidor bombardeado com a venda de desejos e a frustração por não poder comprá-los. Mas ostentar ainda é possível, não graças apenas a prestações a perder de vista, mas graças a todo um segmento econômico pautado no consumo das chamadas 'cópias'. Várias empresas e mídias norte-americanas tem desenvolvido não só campanhas contra a pirataria na moda, mas também estratégias de combate efetivo a ela. O interesse da indústria, claro, é proteger sua margem de lucro, mas também é tentar criar um simulacro em torno daquelas 'peças-desejo' que são sua força motriz.

Eu tento ver as coisas de outra forma. Do outro lado da balança, ou melhor, do mundo, quem produz essas cópias é uma mão de obra explorada ao extremo, escrava ou sub-escrava, mas que por estar lá do outro lado do planeta (ou não) a gente, na vitrine, não enxerga. Quando falo de cópias não me refiro apenas a produção de versões ultra-parecidas de bolsas da Louis Vuitton, da Céline, Chanel ou Hermès, falo também da Zara, H&M, e outras fast fashion com processo de produção similar em termos de mão de obra e cuja produção se tornou, mais e mais, um escoamento rápido de 'versões acessíveis' daquilo que as marcas de luxo colocam na passarela.

Um texto interessante da Lauren Sherman para o Fashionista, há alguns meses, expôs alguns números dessa indústria das cópias, mas também o lado mais complicado desse universo doido: os desejos. Segundo Lauren, pessoas da indústria - como editores de moda, por exemplo - também tem aderido mais e mais as cópias e os motivos parecem se repetir: os custos exorbitantes das peças originais e o conhecimento dos insiders de que o valor final é, de fato, descomedido diante dos custos de produção. Hum... Assim fica difícil entender, certo? Seja como for, a venda do desejo continua povoando o imaginário do consumidor, seja pelo nome da marca, pelo conceito, pela ilusão de que ter algo daquela marca significa ser bem sucedido... Veja lá, estou colocando vários pepinos na mesa aqui e seria bacana se a gente se lesse com leveza, porque senão fica difícil conversar.

Se existem formas de se desviar desses 'desejos'? Bom, eu sou adepta da ideia de que se não tenho como acessar aquele produto X, não vou atrás de cópias, mas de nomes que me proporcionem algo 'original' ou reinventado. Lauren menciona a marca Mansur Gavriel, um bom exemplo de sofisticação e originalidade, mas se a gente parar pra pensar, de fato, o que não é cópia do que? Chega a ser difícil separar as coisas. Talvez brechós e lojas vintage consigam fazer a gente se refugiar com mais clareza, mas, mesmo assim, hoje os mercados se misturam e há quem diga que no universo da moda 'tudo se copia' e ponto. Outro dia, lendo uma entrevista super interessante da renomada crítica de moda Suzy Menkes no The Guardian, a jornalista perguntou como ela se sentia sabendo que tantas mulheres (generalização dispensável) economizavam a duras penas pra conseguir uma bolsa de luxo. Não me surpreendi com a resposta de Suzy: 'Você é muito inocente! [As bolsas] São provavelmente falsas!'.* Suzy vai além divagando sobre como determinados itens de luxo são verdadeiros símbolos de status, de poder e de como 'muita gente quer algo que prove quem ou o que eles são'.* Ufa... Pesado, né? Mas verdadeiro.

Eu não sou da área e meu conhecimento de mercado é como consumidora e leitora assídua, eu vou atrás não só das historias das marcas, das peças, mas da subjetividade que me faz ter o afamado 'desejo' - alias, muito se fala em 'peças desejo' em revistas e blogs. Eu acredito que a gente não precisa ser entusiasta ou interessado no segmento pra repensar nossas vontades de compra, mas, pra mim, é fundamental que qualquer um relativamente próximo da moda, seja como for, reflita sobre suas escolhas e sobre seus desejos. Quais as soluções pra esse emaranhado? Eu honestamente não sei, mas adoraria conversar sobre.

Leia aqui a entrevista completa de Menkes.

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