OPINIÃO
14/11/2014 11:56 -02 | Atualizado 26/01/2017 22:12 -02

Moda que desmancha?

Se por um lado a 'fast fashion' "democratiza" tendências, o que eu leio como "democratizar desejos", o preço barato que se paga de um lado custa muito caro do outro. Como equilibrar essas coisas todas numa balança mais justa?

Reprodução

Os últimos dias tem sido bem sartoriais, eu diria. Não só pela semana de moda de São Paulo - que já parece ter sido há meses, não? - mas, especialmente, por algumas falas que eu achei inspiradoras e desafiadoras pra área. Que área? A da moda.

A moda é um espaço, um segmento cheio de contradições e belezas que, como quase tudo na vida, desperta sensações também contraditórias. Um lado desse segmento que me deixa bem contente é quando o mercado assimila iniciativas sustentáveis. Durante a última São Paulo Fashion Week, Stella McCartney esteve em São Paulo pro lançamento da sua segunda coleção para a C&A Brasil. Eu já escrevi alguns textos sobre o trabalho de Stella, sobre como ela amarra de forma impecável a filosofia sob a qual cresceu ao seu jeito de criar suas peças, seu trabalho. Além de não usar nada de origem animal (leia-se couro e peles, por exemplo), Stella trabalha em parceria com empresas no desenvolvimento de novas tecnologias de reciclagem, que façam da matéria prima das suas obras cada vez mais sofisticada e sustentável. Isso é, por si só, fascinante! Porém, Stella atua no mercado 'de luxo', ou seja, ter acesso a suas peças não é tão viável assim pra grande maioria das pessoas.

Por outro lado, vemos ela assinar pela segunda vez uma coleção com a C&A, uma grande 'fast fashion', um conceito de produção que vai de encontro a tudo que sua marca pessoal carrega. Depois de ver algumas entrevistas da designer sobre sua coleção, de ler muito (MUITO) sobre a repercussão e de ver que a C&A só nesse final de semestre já lançou 3 parcerias com outros designers fiquei meio de queixo caído... Uma amiga, fotógrafa da área, me contou outro dia que o mercado está cada vez mais voraz, o que, no caso do Brasil, a gente pode explicar pelo fator econômico (sendo muito genérica, ok?) já que hoje se consegue consumir bem mais do que alguns anos atrás. A H&M, uma gigante sueca também 'fast fashion', faz coisas semelhantes, mas normalmente mantém uma parceria por ano, a ultima foi com Alexander Wang.

Porque falei disso tudo aí? Muito se fala sobre a sensação de 'descarte' que as peças de 'fast fashion' transmitem, muitas vezes literalmente. E isso você pode ver até em comentários deixados em blogs de moda e paginas na internet. Há sete anos, quando visitei a Primark (uma marca inglesa famosa pelos preços assustadoramente baixos) pela primeira vez eu comprei uma camiseta que, eu juro, até hoje está usável. Hoje já não dá pra dizer o mesmo. Um amigo alemão falou a mesma coisa sobre a H&M, as únicas camisas de lá que ele tem foram compradas há cinco anos. Ou seja, num espaço de tempo relativamente curto alguma coisa aconteceu. Quando vejo a Stella, ou a francesa Isabel Marant, que justificou assinar uma coleção pra H&M dizendo (entre outras coisas) que havia se cansado da 'pirataria' das suas peças e que achou ótima a ideia de produzir em larga escala (coisa que o mercado de luxo não faz) desenhando pra marcas de 'fast fashion' eu vejo uma enorme contradição. E fico meio confusa, especialmente com esse consumidor.

O mercado de luxo foi concebido como espaço reservado, tipo VIP mesmo, sabe? O que as 'fast fashion' fazem é trazer pro público de forma bem democrática (sejamos leves no conceito, ok?) o que ele normalmente não teria acesso - a sensação de alcançar a 'ideia' impressa na bolsa de luxo, mas por preços módicos. Sabemos muito bem que o produto final não é bem esse. Mas pra isso as 'fast fashion' demandam mão-de-obra subescrava (ou escrava) nos 'sweatshops' de Bangladesh, Vietnã ou na Etiópia. A roupa que desmancha com o passar do tempo, pra mim, é o retrato do valor que se dá às mãos que a produziram lá do outro lado do mundo. Digam o que quiserem, mas não justifiquem a escravização dessa mão-de-obra com a ideia de que sem isso essas pessoas não tem emprego. Uma jaqueta de trinta euros da H&M equivale ao salario mensal de um trabalhador de 'sweatshop' - esse termo, aliás, muito bem colocado.

Mas, então, o que a gente conclui disso tudo? Se por um lado a 'fast fashion' "democratiza" tendências, o que eu leio como "democratizar desejos", o preço barato que se paga de um lado custa muito caro do outro. Como equilibrar essas coisas todas numa balança mais justa? Talvez o texto tenha ficado superficial pra complexidade do assunto, mas vale jogar na mesa e ver no que dá.

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