OPINIÃO
16/07/2014 11:30 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:36 -02

Israel e Hamas: as vítimas, os algozes e os líderes

Entenda de uma vez por todas o que está acontecendo neste momento naquele canto do Oriente Médio que já teve o nome de Palestina e hoje abarca Israel, Cisjordânia e a Faixa de Gaza.

MOHAMMED ABED via Getty Images
Palestinians sleep at the yard of a UN school in the northern Gaza Strip town of Beit Lahiya early on July 16, 2014, after evacuating their houses near the border with Israel. The Israeli army has warned some 100,000 Palestinians in the eastern Gaza Strip to evacuate their homes, military sources said. Since July 8, militants have fired nearly 1,000 rockets and mortars into the Jewish state, and Israel has carried out around 1,500 strikes against targets inside Gaza. AFP PHOTO/MOHAMMED ABED (Photo credit should read MOHAMMED ABED/AFP/Getty Images)

Tenho lido muitas opiniões - algumas publicadas na imprensa israelense, brasileira e internacional, outras em intermináveis e cansativas discussões pelo Facebook - sobre o que está acontecendo neste momento naquele canto do Oriente Médio que já teve o nome de Palestina e hoje abarca Israel, Cisjordânia e a Faixa de Gaza, especialmente. Tenho notado, pelas discussões e pelas perguntas que me fazem, uma confusão enorme sobre aquela região e os episódios recorrentes de violência entre palestinos e israelenses, para ficar apenas ali...

Trata-se de um conflito muito mais antigo do que a criação do Estado de Israel, em 1948, como alguns tentam fazer acreditar, o tempo todo... Além disso, é um imbróglio que tem a característica peculiar de, como alguns outros na história mundial, se repetir em ciclos.

O ciclo atual é de um confronto entre Israel e o grupo palestino Hamas, que tomou a Faixa de Gaza em 2007 à força, em um episódio que, segundo a Cruz Vermelha, deixou 118 mortos e mais de 550 feridos. O Hamas venceu as eleições parlamentares palestinas em 2006, um ano antes, e não teve sucesso para formar um governo de coalizão e, especialmente, para conquistar o apoio (financeiro, sobretudo) da comunidade internacional. O resultado foi uma escalada da violência com o grupo rival, o Fatah, com o qual, recentemente, firmou uma reconciliação.

Para que se tenha uma ideia de quão repetitivos são esses episódios, eles aconteceram nos mesmos moldes, com algumas pequenas diferenças, pelo menos duas outras vezes: em novembro de 2012 (operação Pilar de Defesa) e no final de 2008 (operação Chumbo Derretido). Em comum, eles têm o fato de que Israel, de um lado, e o Hamas, de outro, trocam mísseis e acusações, em um ciclo que parece interminável.

Algumas das diferenças: em 2008-9 (o conflito se estendeu ano novo adentro) houve uma incursão terrestre do Exército de Israel em Gaza, opção que não está descartada neste ciclo mas ainda não ocorreu. Como consequência, o número de mortos foi muito maior, dos dois lados (entre 1,1 mil e 1,6 mil, de acordo com a fonte). Em 2012, quando 2,3 mil mísseis foram disparados contra Israel, o Egito era governado por Mohamed Morsi, líder da Irmandade Muçulmana, grupo islâmico em que o Hamas, criado em 1987, tem suas origens.

O cenário, enquanto você lê este texto, é o seguinte. Em Israel governa uma coalizão de direita, sob a liderança do premiê Binyamin Netanyahu, e com extremistas como Naftali Bennet, que é contrário à criação de um Estado palestino, e como Avigdor Lieberman, que esses dias defendeu uma ação "até o fim" contra o Hamas, incluindo a retomada da Faixa de Gaza, da qual Israel retirou 8,5 mil colonos e a presença militar em 2005. Danny Danon, vice-ministro da Defesa, também linha-dura e controverso, foi afastado por Netanyahu depois de criticar a forma com a qual o governo estava conduzindo a operação.

Na Faixa de Gaza, Ismail Haniyeh é o líder político do Hamas. Curiosamente, três irmãs dele vivem no sul de Israel, como cidadãs do país. Mohammed Deif é o chefe do braço armado do grupo. O líder do braço político, Khaled Mashal, vive atualmente no Catar, e mesmo antes da onda de violência, estava em Damasco (de onde saiu em meio à guerra civil na Síria, que já matou mais de 170 mil pessoas em quatro anos). Um dos principais líderes do grupo no território, Mahmoud al-Zahar, teve sua casa destruída nos bombardeios de Israel, mas não estava no local no momento.

No Egito, depois da deposição de Mursi, no ano passado, e de novas eleições, governa Abdel Fattah el-Sisi, militar alinhado a Hosni Mubarak, ditador que presidiu o país por mais de 30 anos e deixou o poder em 2011, em meio à Primavera Árabe. Sisi tenta recuperar a capacidade de mediação que o Egito tinha com Mursi. Ditador anti-religioso e nacionalista, ele se posiciona contra o Hamas e, mesmo sem despertar confiança entre os palestinos, propôs um cessar-fogo entre o grupo e Israel.

Chegamos, então, ao ponto central deste texto. Com a proposta egípcia, o episódio atual do conflito correu o risco de fugir das previsões. Netanyahu, mesmo pressionado internamente para manter a ofensiva, aceitou a trégua e a colocou em vigor, suspendendo os ataques contra a Faixa de Gaza. O Hamas, entretanto, chamou o cessar-fogo de "piada", por meio de um porta-voz, discutiu a proposta de forma interminável e não deu nenhuma resposta uníssona, retomando os disparos contra Israel, que respondeu dizendo que, diante dos ataques, não resta outra opção senão ampliar a operação contra o grupo.

Aqui, duas observações finais. Primeiro, que em meio disso tudo, sofrem os palestinos. Os israelenses também sofrem, mas bem menos, protegidos por um avançado e preciso sistema antimísseis e com a vantagem de ter para onde correr nos cerca de 15 segundos quando soa a sirene avisando a iminência de um míssil. Os palestinos, esses sim, sofrem de verdade, com mortos, feridos, casas e hospitais destruídos e, sobretudo, um futuro destroçado. E quem são os algozes dos palestinos? O senso comum diria que é Israel, que é quem ataca. Mas o verdadeiro algoz é o Hamas, que, mesmo enfraquecido e isolado, mantém os ataques sabendo da retaliação e ainda usa a população civil na Faixa de Gaza como escudos, ao disparar de dentro de mesquitas e de perto de escolas e ao dizer à população que permaneça mesmo tendo sido avisada sobre ataques iminentes de Israel. É o Hamas que impede a entrada ou confisca ajuda humanitária no território. É do Hamas que os palestinos precisam cobrar sua libertação.

Segundo, que Israel perdeu a chance de quebrar a rotina exaustiva desse conflito. Ao aceitar a trégua, mudou o jogo: mostrou que apesar de deixar de disparar contra Gaza, segue sendo atacada por extremistas do Hamas. Houve condenações dos bombardeios de Israel mesmo entre governos aliados, como Londres, Paris e Washington. A morte de palestinos civis é condenável em qualquer aspecto e em qualquer cenário, mesmo quando usados como escudos humanos. Depois, ao ser bombardeado novamente em meio à trégua, Israel cedeu às pressões enquanto deveria ter demonstrado contenção e, quiçá, ter fomentado um diálogo entre os palestinos. Perdeu a chance de mudar as coisas e de evitar mais mortes. O número já supera 190.

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