OPINIÃO
12/05/2015 12:51 -03 | Atualizado 30/01/2017 18:07 -02

A Copa da Presidência

Ao contrário do que acontece no futebol, percebe-se na área política que esse modelo fechado tende a ser ultrapassado. O povo parece sentir, e analistas sérios prognosticam, que, em 2018, a final do confronto eleitoral não será, como nos anteriores, entre PT e PSDB.

RSdBarros/Flickr

Desde a primeira, em 1930, a Copa do Mundo de futebol se realiza a cada quatro anos. Logo depois da terceira, em 1938, dois períodos se passaram sem que, por causa da guerra, o torneio fosse disputado. A rotina foi retomada em 1950, e, desde então, de quatro em quatro anos, religiosamente, as atenções do mundo inteiro se concentram na disputa da taça.

Há bem menos tempo, desde 1998, as eleições presidenciais no Brasil também se realizam a cada quatro anos, por mero acaso ou talvez por intenção inconsciente, os mesmos em que há Copa do Mundo.

Assim, em 2018, se tudo correr como previsto, teremos uma nova Copa, desta vez na Rússia, enquanto, por aqui, o povo escolherá quem irá substituir Dilma Rousseff.

É certo que chegou-se a falar em um movimento para impedir ou boicotar a copa na Rússia como sanção pela alegada invasão da Ucrânia. No Brasil, também se fala na possibilidade de apear Dilma da Presidência, caso em que as eleições presidenciais de 2018 elegerão o substituto, não de Dilma, mas de Michel Temer - se nenhum outro evento extraordinário ocorrer que faça com que não se realizem, ou que se realizem antes ou depois de 2018.

O primeiro desses movimentos é verdadeiramente insignificante, o segundo tem alguma uma possibilidade, ainda que muito tênue, de se materializar. Mas o certo mesmo é pensar que os dois torneios vão ocorrer, como previsto, na data prevista.

Por isso, os interessados começam a se preparar para a disputa. No plano futebolístico, mais de uma centena de países, já este ano, estarão com suas seleções em campo, disputando as 31 vagas abertas à fase final do torneio. A Rússia, país sede, com vaga assegurada por regulamento, treina sua equipe e prepara estádios e instalações.

No campo político, um número bem menor, mas certamente significativo de participantes, também começa a se movimentar, em busca de um número não definido de vagas, provavelmente cinco ou seis, de candidato a presidente, no primeiro turno das eleições.

A disputa das vagas para a Copa de futebol tem regras definidas e bastante claras - cada um dos continentes tem direito a um determinado número de vagas e, para decidir quem vai ocupa-las, são realizados torneios - as chamadas eliminatórias. Já para candidato a presidente há uma única norma: é preciso ser indicado por um partido organizado. No mais, a disputa é aberta, sem regras ou critérios, um jogo ininterrupto, complexo e sutil como uma partida de xadrez, requerendo tanta força e habilidade corporal - e com violência comparável - a uma luta de MMA.

Em toda a história das copas do mundo a taça foi levantada apenas por países de dois continentes - América do Sul e Europa. E a verdade é que os conhecedores de futebol continuam achando que o vencedor da próxima copa sairá ainda da Europa ou da América do Sul.

Também na copa presidencial, apenas dois partidos (continentes), há um quarto de século, dominam o cenário; a final de todas as seis últimas copas eleitorais foi disputada por representantes do PT e do PSDB.

Ao contrário, porém, do que acontece no futebol, percebe-se na área política que esse modelo fechado tende a ser ultrapassado. O povo parece sentir, e analistas sérios prognosticam, que, em 2018, a final do confronto eleitoral não será, como nos anteriores, entre PT e PSDB.

Essa circunstância torna a disputa pelas vagas a candidato ainda mais intrincada e mais áspera.

Desenhado o cenário metafórico, olhemos agora brevemente como se comportam os atores. Começa-se, é claro, pelo ex-presidente Lula, de longe o mais experiente. Já esteve em cinco finais como participante direto, três perdidas duas vencidas, e, nas duas últimas, sem poder ser diretamente candidato, teve papel extremamente relevante, como inventor, patrono e quase piloto da candidata vencedora.

Lula se sente um pouco como a Rússia. Sua vaga como candidato do PT parece assegurada. Sua preocupação já pode ser traçar a estratégia para a disputa do torneio. É uma tarefa difícil, mesmo considerando sua experiência. Lula não pode apoiar abertamente o governo, exercido por seu partido, na pessoa da candidata que ele próprio inventou, porque sente que a popularidade do PT vem caindo a cada dia; não quer ligar sua imagem carismática a um governo que, para tentar a economia tem tomar medidas que ele próprio sempre censurou. Também não pode ser contra porque, se o for, será um pouco contra si mesmo. Por isso, esconde-se, manobra nos bastidores; aparece no palco apenas ocasionalmente, para manifestações pouco nítidas.

Posição análoga e mais confortável mantém Marina. Já participou como candidata alternativa de duas eleições. Tem motivo para acreditar que a aspiração que se percebe no povo de romper o bipartidarismo de fato dos últimos 25 anos, favorece a ela. Seu receio é que seu jeito doce e humilde a enfraqueça. Também ela aparece em cena apenas de quando em vez, mas, ao contrário de Lula, para pronunciamentos firmes e diretos.

No PSDB, com refinada sutileza, três nomes conhecidos - Serra, Alckmin e Aécio, sem o dizer de público travam luta florentina para ver quem será, desta vez, o candidato. E, ao mesmo tempo, se defendem contra a possibilidade de que apareça, dentro do próprio partido um outro nome. E, por certo, haverá outros na agremiação, talvez uns três ou quatro, que, no íntimo, se achem melhor qualificados que três nomes, todos já uma vez derrotados. E isso se a venerável figura de seu histórico chefe FHC, não decidir em um rompante tentar esquecer o peso da idade e deixar sua posição de velho e sábio guru para entrar de novo em campo.

O dilema do PMBD, por sua vez, é mais complexo. Além de disputa não propriamente sutil, entre as pessoas físicas dos potenciais candidatos, há que definir a postura a ser seguida pelo próprio partido. O PMDB quer - e precisa - ser ao mesmo tempo governo e oposição; acha-se com direito de, pela primeira vez em muito tempo, conquistar o poder ele próprio. Apoiou sempre o governo, os dois do PSDB os quatro do PT, em troca de cargos e fatias do poder. Quer agora ganhar ele próprio o governo para poder, a partir da cabine de comando, negociar cargos e fatias do poder.

Nessa tragicomédia política, três nomes do partido são os que mais aparecem no noticiário: Temer, Eduardo Cunha e Renan estão quase todo dia na mídia, com falas retóricas, de sinceridade questionável, tentando mostrar espírito público e esconder ambições pessoais. Em paralelo, manobra-se discretamente nos bastidores, para tentar associar um outro integrante do partido, Eduardo Paes, prefeito do Rio de Janeiro, a uma imagem positiva, de juventude, pureza e eficiência. A corrente que trabalha para isso tem a seu favor os holofotes que, ano que vem, se acenderão sobre a cidade, sede dos jogos olímpicos. Não se duvida, finalmente, que, também dentro do PMBD, existam ambições que vicejam ocultas, à espera de oportunidade.

É preciso ainda não esquecer o PSOL, que vem há algum tempo procurando se apresentar como uma segunda edição. revista e purificada. do PT original. Luciana Genro já foi candidata em um primeiro teste; outros, como Chico Alencar e Randolfe Rodrigues, procuram mostrar que o partido é o único coerente com a mensagem socialista e popular que levou o PT ao poder e aí o manteve, expurgada da mácula da corrupção e carreirismo que o tornou impopular.

Posicionam-se também para a próxima Copa da Presidência outros nomes e agremiações: partidos menos expressivos estudam fusões, Cid Gomes, em lance de bela teatralidade e grande audiência, proclamou recentemente ao Brasil que não faz questão de ser governo e despreza os carreiristas do Congresso. Os chamados movimentos sociais, em controladas ações, arreganham aqui e ali os dentes, talvez sonhando com alguma solução extrema e esdrúxula. Com menos força, por certo, mas presentes assim mesmo, atuam, no extremo oposto, radicais que sonham nostalgicamente com uma ditadura de direita. E não há porque duvidar que algumas correntes evangélicas mais fervorosas talvez estejam orando por alguma forma anômala de teocracia cristã.

Pode-se finalmente - e com certeza - supor que já despontem sonhos dentro de alguma mente excitada e febril de um desconhecido, ou mesmo de alguém conhecido, mas de área não ligada originalmente à política por exemplo, Joaquim Barbosa, ou, talvez, algum grande empresário de sucesso ou mesmo o líder de algum dos movimentos de protesto que têm se organizado pela internet.

O ambiente, sem dúvida é propício para que, da noite para o dia possa surgir um original e vibrante líder, com carisma suficiente para repetir fenômeno parecido ao que elegeu Jânio Quadros e Fernando Collor.

Fechando o cenário, a única pessoa legalmente impedida de disputar as eleições, a presidente Dilma Rousseff, esconde-se, temerosa de vaias e panelaços; de dentro de seu esconderijo, ocupa-se em construir uma couraça para proteger-se de possíveis futuras acusações de ter praticado ações criminosas. Tenta ainda, aparentando boa fé, exercer a penosa tarefa de governar, sem, contudo, jamais admitir que muitos dos graves problemas que o Brasil hoje enfrenta são consequência exatamente do modo como ela governou o país durante quatro anos.

Pensando sempre nas eleições, e em se mesmos, os políticos se engalfinham, manobram e conspiram. Não procuram soluções; examinam eventuais propostas para posicionar-se não pelo que acham realmente melhor, mas pelo acreditam que mais os favorecerá na disputa em que cada um está pessoalmente envolvido.

Enquanto isso, a inflação aumenta, o desemprego cresce, a recessão está à vista, verbas essenciais faltam, decai a qualidade dos serviços públicos.

E o povo, inquieto, vai às ruas reivindicando o possível e o impossível, áreas agrícolas e moradias urbanas, aumentos de salário, demarcação das terras indígenas, remédio grátis e hospitais bem equipados, boas escolas, universidade - e luz - para todos. Grita-se fora Dilma!, não à corrupção, não à terceirização, aos exploradores do povo, ao sistema capitalista.

A agitação é constante e crescente. Mas raramente se formula nas ruas e estradas, na cidade e no campo, uma demanda específica, que possa ser discutida e negociada.

Onde vai dar isso tudo? Ninguém sabe. Quem viver, verá.