OPINIÃO
12/04/2018 13:51 -03 | Atualizado 12/04/2018 13:51 -03

O impacto de Joaquim Barbosa nas eleições 2018

"O apelo de justiceiro – com respeitabilidade – passou a ser música nos ouvidos daqueles que desejam alguém que 'resolva tudo sozinho'."

Fellipe Sampaio/ SCO / STF
Ministro aposentado do STF, Joaquim Barbosa se filiou ao PSB em 7 de abril.

O julgamento do mensalão no STF foi o primeiro momento em que um ministro da mais alta corte judicial do Brasil foi alçado ao estrelato. Com postura beligerante, envolto em inúmeras polêmicas, mas confiante na sua atuação, Joaquim Barbosa foi destaque nacional. Indicado pelo ex-presidente Lula para ser o primeiro ministro negro do STF em maio de 2003, assumiu a relatoria da Ação Penal 470 e comandou a ofensiva que condenou 24 réus, entre eles grandes nomes da cúpula petista, como José Dirceu, Delúbio Soares e José Genoíno.

No tempo em que ocupou uma cadeira no STF, Joaquim Barbosa colecionou desafetos. Marco Aurélio Mello foi o primeiro oponente com quem bateu boca no plenário. No julgamento do Mensalão, colecionou duelos com Dias Toffoli,Ricardo Lewandowski e com mais quem ousasse questionar seus métodos, incluindo jornalistas. Os entreveros, no entanto, foram mais severos e constantes com Gilmar Mendes.

A imagem controversa, aliada ao ferrenho cerco do mensalão, contribuíram para imputar a Barbosa a imagem do justiceiro do STF. Protagonizou memes. Quando assumiu a presidência do STF, em 2012, foi chamado, pela longa toga negra oficial da casa, de Batman brasileiro.

Em 29 de maio de 2014, de maneira surpreendente, anunciou sua aposentadoria do STF. Aos 59 anos, poderia estender seu mandato até os regulamentares 70 anos. O momento do anúncio de sua aposentadoria gerou burburinho no mundo politico. Estaria Joaquim Barbosa mirando um cargo nas eleições que se aproximavam?

A popularidade do ministro já estava sendo testada nas pesquisas de intenção de votos para a Presidência da República. Em 2013, no auge das manifestações de junho, seu nome chegou a atingir 15% das intenções de voto em levantamento feito pelo Datafolha, o que o colocou definitivamente como nome a ser acompanhado durante as campanhas que viriam.

Em 2014 foi cortejado por inúmeros partidos para que ou fosse candidato ou se aliasse à alguma candidatura como cabo eleitoral. Naquele ponto, ele era o 2º nome mais influente na corrida, atrás somente de Lula – que conseguiu reeleger Dilma Rousseff. Pelo pouco tempo que restava até o pleito e cansado pelos problemas de saúde que se acumulavam, Barbosa decidiu por permanecer fora do debate. Na época, o partido que esteve mais próximo de conseguir atrair o então ministro foi, justamente, o PSB, ao qual se filiou no último dia 7 de abril.

O nome de Joaquim Barbosa foi construído em cima de uma premissa que está espalhada nas eleições de 2018 – o que faz com que ele ganhe muito destaque para as eleições que virão. Seu apelo de justiceiro – com respeitabilidade pelo vasto currículo no Direito – passou a ser música nos ouvidos daqueles que desejam alguém que "resolva tudo sozinho", alguém que assuma o papel de salvador da pátria. É o mesmo pensamento que permeia a decisão de voto em nomes como de Bolsonaro e de Lula, por exemplo.

Em primeiro momento, sua entrada no pleito é notícia terrível para o pré-candidato do PSL, pelo roubo direto de votos em sua base de eleitores. Há, no entanto, uma barreira de entendimento que Barbosa terá de superar. Seu nome como presidenciável foi construído por sua atividade no mensalão. Portanto, a conclusão a que se normalmente chega é a de que ele é um opositor do PT e da esquerda. Esta visão cai por terra quando ele se filia ao socialista PSB, fiel apoiador do Partidos dos Trabalhadores – exceção somente em SP.

Esta pretensa inconsistência será a tônica da discussão se ele for efetivamente candidato. Apesar de ter sido nomeado ao STF por Lula, Barbosa destacou-se por julgar os caciques do partido naquele que era, até então, o maior esquema de corrupção da história do país – superado pela Lava Jato. Seria ele, assim, um direitista conservador lutando contra o projeto de poder da esquerda? Este errôneo constructo – como todos são – será colocado à prova.

A chegada de Joaquim Barbosa ao plano politico é uma boa notícia em diversos sentidos. Traz uma pluralidade ainda maior aos nomes hoje aventados. Sua trajetória de vida é louvável. Mas, principalmente, poderá servir para mostrar que o duelo direita x esquerda é datado e não tem mais cabimento numa sociedade moderna. Durante o julgamento que impulsionou seu nome, mostrou que é possível estar alinhado ideologicamente a uma determinada frente e ainda assim condenar seus diversos líderes. Uma lição de isenção na execução de uma atividade profissional. Esta resposta ao tolo construto de "prendeu petista, logo direitista" é a chave, inclusive, para atrair moderados descontentes que veem no radicalismo a única solução possível.

Melhor Barbosa estar preparado. O bombardeio de perguntas a serem feitas daqui pra frente terá 2 objetivos: o de enaltecer a "inconsistência" de sua filiação ao PSB – facilmente respondida, mas que exigirá um nível de sinapse conclusiva potencialmente maior que aquela que os radicalistas são capazes de executar; e, principalmente, num problema similar ao de Ciro Gomes, causar irritação excessiva e destempero. Se se controlar, poderá atrair um corpo de eleitores maior e colocar-se como candidato de muita força, alterando o curso de eleições tão pulverizadas.

Artigo originalmente publicado no Papo de Galo

*Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.