OPINIÃO
01/12/2015 08:56 -02 | Atualizado 26/01/2017 22:34 -02

#EuFaloSobre

#EuFaloSobre porque quero vestir-me de um momento inteiramente novo. Não quero carregar em mim o estigma da Aids. Não quero carregar em mim a responsabilidade pelos jovens que morrem de Aids devido a um diagnóstico tardio ou por não conseguirem seguir seu tratamento uma vez que são expulsos de casa.

1º de Dezembro é Dia Mundial de Combate à Aids.

Um dia marcado pelo símbolo do laço vermelho.

No entanto, hoje não é esse símbolo que eu visto.

Não carrego o laço vermelho porque torço para que o legado da minha geração seja outro - e o fim da Aids seja uma consequência.

Hoje em dia, com medicamentos avançados e tratamento confortável, a Aids (e não estou falando do HIV, mas sim da síndrome) deveria ser apenas uma sombra do passado.

Por que, então, a Síndrome da Imunodeficiência Adquirida ainda é uma realidade tão preocupante?

Estigma.

Preconceito.

Discriminação.

Nunca antes fomos tão livres.

Nunca antes tão vigiados.

Em cidades pequenas, pessoas não fazem o teste com medo de serem motivo de fofocas.

Em cidades grandes, pessoas não fazem o teste porque não têm tempo - mal sabem que em 30 minutos você entra e sai com seu diagnóstico.

Meninas não fazem o teste com medo de serem tachadas promíscuas.

Mulheres não fazem o teste porque não estão mais na idade dessas coisas.

Meninos não fazem porque não são gays.

Homens não fazem porque não são gays.

E os gays não fazem porque não querem carregar consigo mais um estigma em meio a uma sociedade tão opressora.

Medo.

Todos evitam o teste rápido para HIV (gratuito e sigiloso) por medo do que vem depois do diagnóstico.

Mal sabem eles que é o diagnóstico que possibilita o tratamento, a vida. O medo do teste, o medo da Aids só faz levar tantos a um diagnóstico tardio. Talvez tardio demais.

Então eu venho falar sobre isso.

Eu falo sobre o que há depois do diagnóstico.

Eu falo sobre as dificuldades.

Eu falo sobre os remédios.

Eu falo sobre os exames.

Eu falo sobre as consultas.

Eu falo sobre meu médico.

Eu falo sobre o SUS.

Eu falo sobre preconceito.

Eu falo sobre relacionamentos sorodiferentes.

Eu falo sobre sexo.

Eu falo sobre amor.

Eu falo sobre afetividade.

Eu falo sobre Direitos Humanos.

Eu falo sobre respeito.

Eu falo sobre HIV.

Eu falo sobre.

E é por isso que visto um novo símbolo.

#EuFaloSobre

Porque quero vestir-me de um momento inteiramente novo.

Não quero carregar em mim o estigma da Aids.

Não quero carregar em mim a responsabilidade pelos jovens que morrem de Aids devido a um diagnóstico tardio ou por não conseguirem seguir seu tratamento uma vez que são expulsos de casa.

Esse laço de repente torna-se muito pesado porque não quero ser conivente com essas opressões.

O mesmo laço que instilava solidariedade e fazia pessoas ao redor de todo o globo lutarem por saúde e dignidade hoje esconde um silêncio muito cruel.

Porque enquanto alguns o estampam no peito para identificar sua luta muy nobre, outros o vestem oportunamente em dezembro, como quem escolhe no armário uma peça de roupa chamada solidariedade, para vestir e mostrar por aí.

É desse segundo laço que estou falando. Desse "assistencialismo", dessa "solidariedade".

Nunca, jamais, do ativismo real! Do ativismo empático daqueles que se silenciam apenas quando perdem algum companheiro de luta, um amigo, um igual. E silenciam, apenas para tomar ar e voltar a gritar a plenos pulmões.

A vocês, um muito obrigado. Pelo trabalho de base, pela empatia, pelo suor e pelos anos de dedicação - mesmo quando parece uma causa perdida.

Esse laço na mão de vocês é mais que fita, cetim, é a coisa mais bela que há.

Mas aos "assistencialistas" e aos "solidários" (assim com aspas, pois é importante distingui-los dos reais): vestir uma peça não pode ser o suficiente.

Não pode nunca isentar a sociedade de sua responsabilidade enquanto coletivo. Não é uma troca justa - o silêncio pelo laço.

Pois é da sociedade o machismo que faz mulheres se submeterem a relacionamentos abusivos com namorados e maridos que não as deixam usar camisinha.

É da sociedade o machismo de achar que mulher que carrega camisinha é fácil.

É da sociedade a homofobia que aponta para o gay e diz "eu avisei", "você estava procurando".

É da sociedade a transfobia que empurra a transexual para a rua, para a prostituição e para fora do SUS ao recusar a sequer chamá-la pelo nome com o qual se identifica.

É da sociedade a sorofobia (um neologismo para falar do preconceito àqueles com sorologia positiva para o HIV) que recusa a quem vive com HIV uma vida afetiva, amorosa e sexual prazerosa, com confiança e respeito.

É da sociedade o racismo que nega a mulheres negras anestesia (e quem dirá o que mais) na hora do parto impedindo-as de terem seus filhos com saúde, fazendo o tratamento de HIV corretamente para que possam nascer sem o vírus.

É da sociedade esse peso.

É da sociedade esse laço. Esse nó.

E eu fico com um nó na garganta.

Mas, me dei o direito de uma nova perspectiva.

Não quero lutar contra a Aids.

Quero lutar por uma nova perspectiva para todos que sofrem com discriminação.

Quero lutar por um mundo com #ZeroDiscriminação.

#EuFaloSobre HIV porque sei que todas essas opressões e vulnerabilidades se revelam aqui.

#EuFaloSobre garantir acesso à saúde e ao cuidado para todos os que possam ser acometidos com esse vírus porque sei que isso significa todos nós.

#EuFaloSobre acolhimento para que ninguém precise mais passar pela depressão e solidão de um diagnóstico de HIV entalado na garganta.

#EuFaloSobre todos os dias.

#EuFaloSobre no Projeto Boa Sorte.

#EuFaloSobre em casa, na rua, no trabalho.

#EuFaloSobre

Sempre.

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