OPINIÃO
15/02/2016 13:02 -02 | Atualizado 26/01/2017 22:25 -02

A última coisa que precisamos é voltar a atacar o HIV com preconceito e terrorismo

Desde 2012 no Brasil é possível ter acesso a um tratamento de profilaxia pós-exposição ao HIV em situações de sexo sem preservativo, ou com acidentes em relação a este. O tratamento já existia desde a década de 90 e foi estendido para vítimas de violência sexual em 2011 e para qualquer acidente sexual no ano seguinte.

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Desde 2012 no Brasil é possível ter acesso a um tratamento de profilaxia pós-exposição ao HIV em situações de sexo sem preservativo, ou com acidentes em relação a este. O tratamento já existia desde a década de 90 e foi estendido para vítimas de violência sexual em 2011 e para qualquer acidente sexual no ano seguinte. Foi apenas em 2015, no entanto, que o Ministério da Saúde lançou um documento que padroniza a prática médica em relação à PEP: o Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas (PCDT).

O PCDT serve como um referencial para que esse atendimento seja o melhor possível considerando a realidade brasileira e, desde seu lançamento, vários Centros de Saúde já fazem a dispensa de antirretroviral como forma de profilaxia pós-exposição. Recentemente, ainda, o Ministério preparou uma plataforma online (também disponível como aplicativo) para que as pessoas acessem mais informações sobre a profilaxia e possam procurar uma unidade de atendimento próximo a elas.

Parece um grande avanço, não é?

Mas, ainda assim, durante o primeiro carnaval em que a PEP vem sendo amplamente difundida ainda vimos pelas ruas e pelas redes sociais um homem vestido em lycra roxa com uma gigantesca camisinha emoldurando seu rosto.

(Sem falar que seu nome "Homem-Camisinha" gera resultados de pesquisa que podem constranger os desavisados...)

Embora os vídeos sejam bem intencionados, atuais e até os considere eficazes, é um absurdo que o Ministério não faça um esforço maior para que as pessoas conheçam a PEP.

Poderia fazer um artigo inteiro, ainda, sobre o infeliz slogan "a vida continua depois do carnaval".

Minha vida também continuou depois do diagnóstico de HIV, passo muito bem, obrigado.

A última coisa que precisamos é voltar a atacar o HIV com preconceito e terrorismo.

Vivemos um novo tempo, já falei sobre isso aqui.

Não podemos mais permitir que a camisinha seja nossa única aposta para um sexo seguro (ainda que seja, tecnicamente a melhor aposta).

Vivemos em um país em que 95% da população entende a camisinha como forma mais eficiente de prevenção e, ainda assim, mais de 60% não a utilizam de forma consistente.

Precisamos fazer mais. Precisamos ir além da camisinha.

Recentemente começamos a falar no Projeto Boa Sorte sobre Prevenção Combinada (e quem sabe logo, logo isso não se torna um artigo por aqui).

O conceito é justamente o que promete: combinar vários fatores de prevenção para que possamos ter o sexo mais seguro possível (e não ficarmos dependentes apenas de um invólucro de látex que ninguém nos ensinou realmente a usar).

A PEP é um desses fatores de prevenção.

"Ah! Mas é melhor prevenir do que remediar..."

Não é simples assim.

A PEP também é prevenção... por meio de medicamentos.

Se alguém tiver uma situação de risco pode procurar uma unidade de atendimento em até 72 horas para discutir sobre a necessidade da profilaxia.

O médico deve avaliar o tipo de exposição com detalhes (duração da exposição, intensidade da atividade sexual, se houve sangramento, se havia lubrificação natural ou artificial, qual foi a modalidade de sexo, se houve ejaculação... pode perder a vergonha e contar tudo pro médico que ele tem o dever de ser ético e manter seu sigilo!).

Além disso, deve conversar também sobre a sorologia dos envolvidos - se fazem testagem, quando foi a última, se tem alguma outra DST, se já tomou PEP ou, quando disponível, se toma PrEP...

Caso algum dos dois seja HIV positivo, tem ainda de perguntar sobre a adesão ao tratamento, se faz corretamente, se está indetectável e há quanto tempo.

Só com todas essas informações em mãos o médico estará apto a conversar sobre PEP com o paciente. E eu disse: conversar.

O médico pode aconselhar como for, mas a decisão final ainda é do paciente.

Caso decida embarcar na ideia, deve tomar os antirretrovirais (geralmente Lamivudina e Tenofovir, Atazanavir e Ritonavir - em três comprimidos) durante 28 dias.

Os efeitos colaterais costumam ser apenas um amarelado nos olhos que vai embora com a ingestão de muita água, mas algumas pessoas já me relataram enjôos.

Durante 3 meses você faz o acompanhamento com o médico, mesmo depois do fim do tratamento, para continuar fazendo testagem.

Em caso de acidente o médico deve conversar com você sobre a camisinha, ensinar a colocar direitinho.

Talvez o caso seja que você estava animada numa balada e tinha bebido demais, então ele pode conversar com você sobre a camisinha feminina (que você coloca na hora que tá fazendo a maquiagem e vai despreocupada pra festa).

E caso não usar camisinha seja uma preferência sua o médico precisa sim te apresentar outros elementos de prevenção como o lubrificante e, em breve, a PrEP, além de insistir que você se teste com frequência.

A PEP é ainda pouco conhecida, mas tem se popularizado cada vez mais.

Aos pouquinhos, vai se tornando uma alternativa válida de prevenção e os mitos em volta dela vão desmoronando, um a um.

Vamos juntos?

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