OPINIÃO
08/10/2014 10:37 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:04 -02

Não embarque na confusão ideológica do segundo turno

Senado Federal/Flickr
Eleições 2014 - Voto em trânsito no IESB, Asa Sul, Brasília. Foto: Marri Nogueira/Agência Senado

De todas as mentiras que devem povoar estes vinte e poucos dias de segundo turno, provavelmente a mais eficiente para confundir os eleitores incautos é a que preconiza uma dicotomia esquerda x direita nessa disputa. Não é uma tática nova, vem sendo usada desde que começaram as disputas PT x PSDB no Brasil, mas parece ser eficiente para convencer muita gente de que existe esquerda ou direita na briga. Lamento desapontar os fãs de Luciana Genro e Pastor Everaldo, mas simplesmente não há, nem de um lado, nem de outro.

A tática consiste em dizer que qualquer um que surja como adversário do Partido dos Trabalhadores se torna "de direita". Aconteceu com Marina Silva: depois de uma vida dedicada às causas de esquerda, bastou sair do partido para virar "de direita". Se Luciana Genro vier algum dia a enfrentar o PT em uma disputa eleitoral, vai ter gente denunciando por aí a "ascensão da direitista Luciana Genro". Uma piada.

Na prática, nem o PT é de esquerda, nem o PSDB é de direita. Desarmar a bomba dessa falácia é simples: basta não embarcar no que eles ou seus militantes dizem nas redes sociais, mas ir ao que realmente fazem os partidos. Uma análise rápida evidencia que não se distanciam muito, em essência, de uma espécie de consenso da social-democracia europeia no que diz respeito a gestão pública e política econômica - na parte de "costumes", bem, daí é outro papo e fica para depois.

Na gestão pública, ao contrário do que diz o PT, o que o PSDB fez no governo a partir de 1994 também não se distanciou muito do que as social-democracias europeias vinham fazendo desde a década passada. Um exemplo: privatização das telecomunicações. A diretriz europeia para abrir concorrência no setor é da década de 80. A França, sob o socialista Mitterrand, começa em 1988 a preparar a France Telecom para ser privatizada - o que ocorreu anos depois. A ideia: o Estado é importante sim, mas não para administrar telefone. Pode-se citar outros exemplos que alinham a social-democracia europeia com o que o PSDB tentou, mal e porcamente, fazer no Brasil, como a universalização do ensino público e a criação de programas de distribuição de renda via impostos.

Na política econômica, a implantação do "tripé macroeconômico" pelo PSDB - mantido pelo PT (por algum tempo) - é o equivalente à política de austeridade adotada pelos países europeus atualmente, inclsive pelo socialista François Hollande na França. Essas políticas se revelam extremamente duras para a população em tempos de crise econômica internacional - foi o caso do Brasil em 1998, é o caso da França atualmente. Mesmo assim, os socialistas franceses não estão dispostos a abrir mão dessa porrada que é a política de austeridade. Devem ter um motivo.

Em vários outros pontos podemos encontrar situações que darão um nó no cérebro de quem tentar chamar o PT de esquerda e o PSDB de direita: o PSDB "de direita" desapropriou mais terra para a reforma agrária do que o PT "de esquerda". No governo do PT "de esquerda", os bancos lucraram mais do que no do PSDB "de direita". (Os dados estão nos links).

Em resumo, tanto gestão pública quanto política econômica não dividem mais a centro-esquerda e a centro-direita na Europa e nem no Brasil. No essencial, PT e PSDB fazem e farão o mesmo, com algumas nuances - o PSDB privatiza com convicção, o PT chama de concessão. Ambos manterão as políticas sociais enquanto houver dinheiro - quando não houver, cortarão. O que não significa que não haja diferenças pontuais, como na política exterior.

O que poderia separar PT e PSDB em "esquerda" e "direita" é o que se convencionou chamar de "costumes" (sim, é uma péssima palavra): casamento homossexual, aborto, legislação das drogas, etc. Na Europa, você tem claramente um lado contra tudo isso (direita) e outro lado a favor (esquerda). Mas no Brasil, pelo menos no segundo turno, não há. PT e PSDB não discutem e, quando governam, evitam todas essas pautas.

Não há dúvida de que o eleitorado de direita brasileiro - e ele é enorme - vai apoiar em peso a candidatura do PSDB, porque é a única opção forte de oposição. E o de esquerda, possivelmente, apoie Dilma, motivado apenas pelo espectro do antigo discurso do PT. Ambos vão se decepcionar.

Não se engane - a disputa no segundo turno não é entre direita e esquerda. Temos dois partidos com origem no pensamento de esquerda, que aderiram a uma espécie de consenso internacional de gestão e política econômica (e isso é bom). E que simplesmente se negam a discutir todos os outros temas (e isso é ruim).

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