OPINIÃO
21/02/2014 17:28 -03 | Atualizado 26/01/2017 20:51 -02

Como a internet está mudando Paris para melhor

A greve dos taxistas, que paralisou algumas ruas de Paris no início da semana, é o efeito colateral de uma saudável e grande mudança cultural que está em curso na cidade. E quando falo em cultura, me refiro especificamente a dos serviços privados.

Se Paris é uma das cidades do mundo que mais atrai turistas, é por causa de sua deslumbrante arquitetura e de suas opções culturais. Mas não pela qualidade de seus serviços. Existe um enorme gap entre a boa qualidade da comida de um restaurante e o atendimento deste mesmo restaurante, por exemplo. Todos os cafés da cidade parecem operar com um déficit de empregados -- provavelmente por causa dos altíssimos custos de se contratar uma pessoa na França. O resultado é que com frequência você vê uma única pessoa cuidando de 15 mesas. Nesse contexto, pedir a conta ou uma simples garrafa d'água vira uma epopeia. Quando finalmente conseguir atrair a atenção do garçom, ele vai possivelmente tratá-lo como um estorvo em sua vida.

Da mesma forma, um padeiro pode fazer uma baguette à perfeição, mas se enganar na hora de empacotar para você dois croissants normais, quando você pediu do tipo "au beurre", e ainda errar no troco. E, claro, vai agir como se tudo fosse sua culpa.

Bom, esse tipo de relato sobre Paris você já deve ter lido mil vezes por aí -- ou mesmo vivenciado. Não se trata de mera diferença cultural em relação a brasileiros: escuto a mesma reclamação de americanos, ingleses, alemães e italianos. A novidade é que, nos últimos três ou quatro anos, a cidade parece estar tomando um novo rumo no que diz respeito à qualidade dos serviços. E a paralisação dos taxistas é um sintoma disso.

Mas antes de explicar por que, um breve relato: todas as vezes que retorno do Brasil, após 14 horas de voo desde Porto Alegre, pego um trem no aeroporto Charles de Gaulle e chego à Gare du Nord, a maior estação de trem de Paris. Invariavelmente carregando uma enorme mala -- em um esforço permanente de transferir a conta-gotas todos os meus livros e discos --, tento pegar um dos muitos táxis estacionados em frente à estação. Quando digo para onde vou, uma rua a não mais do que dois quilômetros de lá, os taxistas sempre recusam a corrida. E eu preciso pegar um ônibus carregando uma enorme mala. O meu relato é o mesmo de todos os parisienses. O desrespeito dos taxistas é tão famoso quanto o dos garçons. Tanto que uma das piadas que rolou no Twitter francês no dia da greve foi: "eu até queria ir à manifestação apoiar os taxistas, mas fica só a 1 quilômetro daqui, não vale a corrida!". Ou seja, em grande parte, os parisienses mandaram uma banana à causa dos taxistas.

Mas por que os motoristas pararam? Porque os aplicativos de smartphone oferecendo novos serviços de chofer, como o Uber, estão acabando com eles. Por um motivo simples: estão oferecendo um bom atendimento. As companhias particulares de chofer não querem saber se a sua corrida é curta ou longa, mandam o motorista onde você estiver rapidinho e você paga tudo por cartão pela internet, sem precisar trocar moedas com o motorista. Um tiro mortal nos pavorosos táxis parisienses.

O mesmo ocorre nos serviços de restauração. A questionável cultura hipster norte-americana influenciou todos os jovens empreendedores e chefs parisienses, graças à internet e ao permanente intercâmbio com Berlim e Nova York. Principalmente no 10ème e no 9ème arrondissements, todos os novos comércios oferecem o "diferencial anglo-saxão": funcionários simpáticos, boa comida e a cultura do "cliente tem razão", coisa impensável nos cafés tradicionais parisienses, em que o garçom escolhe até onde você pode ou não se sentar. Os críticos -- como este artigo no New York Times -- dizem que a "hipsterização" da cidade está matando a cultura tradicional local. Bobagem. Ou pode até ser verdade. Mas se isso significa ser tratado com dignidade quando estou disposto a gastar o meu suado dinheirinho, apoio completamente a hipsterização de Paris.