OPINIÃO
11/12/2014 14:48 -02 | Atualizado 26/01/2017 22:02 -02

Como vou preparar meu filho branco para as interações que ele não terá com a polícia

MICHAEL B. THOMAS via Getty Images
A child holds a sign as demonstrators protest outside the Edward Jones Dome in downtown St. Louis, Missouri on November 30, 2014. Demonstrators marched through the streets of St. Louis that eventually led to clashes with police officers and fans from an American Football game between the St. Louis Rams and Oakland Raiders. Protests have continued following a grand jury decision not to charge a white police officer for the shooting death last of an unarmed black teenager. AFP PHOTO/Michael B. Thomas (Photo credit should read Michael B. Thomas/AFP/Getty Images)

"Tenho três filhos, dois deles negros. Eu temo pela vida dos meus filhos. Minha filha mais nova tem 6 anos. Quando ela vê um policial, sente medo. Ela não os vê como alguém que está lá para protegê-la e ajudá-la."

Foi o que uma mulher chamada Rodrice Vincent disse a um repórter da Democracy Now na Times Square na semana passada, quando lhe perguntou por que ela estava na rua protestando contra a decisão do grande júri de não indiciar o policial Daniel Pantaleo pela morte de Eric Garner, um pai e avô afro-americano de Staten Island.

O confronto da polícia com Garner foi gravado por câmeras de celular. Nessa gravação, pode-se vê-lo expressando - com revolta e gestos de mão, mas sem violência ou agressão - sua frustração pelo que ele chamou de assédio policial, antes de ser dominado por três ou quatro oficiais que o derrubam ao chão depois que Pantaleo lhe dá uma chave de braço. Ele morreu, e o médico-legista da Cidade de Nova York declarou que sua morte foi homicídio.

"Eu temo pela vida dos meus filhos."

Esse medo existencial, profundo e constante de ser ferido ou morrer nas mãos da polícia é compartilhado por tantas mães e pais neste país - homens e mulheres de cor que nunca tiveram uma interação positiva com uma pessoa vestida em um uniforme policial.

Depois das mortes em Ferguson e Staten Island, do fracasso do sistema judicial em responsabilizar os policiais pela morte de civis e da onda nacional de protesto quase sempre não violento que se seguiu, muitos policiais hoje falam sobre como seu trabalho é difícil, seus próprios temores cotidianos e a forte reação que enfrentam nas ruas. Eu simpatizo com eles como pessoas - mas eles podem tirar seus uniformes no fim do dia. Os filhos de Rodrice Vincent não podem despir sua pele.

O medo dela me marcou profundamente. Eu também tenho um filho. Mas é um bebê branco e muito louro. Ele acena e sorri para os policiais quando os encontramos. E eles acenam de volta. Eu não precisarei ter com Seamus "a conversa" que tantas mães afro-americanas têm com seus filhos.

Basicamente, "a conversa" é uma dura aula sobre como sobreviver às interações com a polícia. Marlowe Thomas-Tulloch, uma educadora da primeira infância, teve a conversa com seu filho negro. Ela disse: "Na primeira vez que tivemos a conversa, foi duro demais. Eu tinha de ser honesta sobre a verdade: se a polícia o parar, você precisa ser humilde. Precisa estar preparado para ser humilhado. Tire as mãos dos bolsos. Eu prefiro ir buscar você na delegacia do que no necrotério".

A brancura de Seamus significa que eu não preciso ensiná-lo a se preparar para a humilhação. Essa é a síntese do privilégio branco.

Em um evento organizado pelo Museu Histórico do Missouri e a Associação Cristã de Moças, um grupo de oito mulheres afro-americanas compartilhou suas experiências da "conversa" com seus filhos e netos. Riisa Renee Easley passou esta mensagem para seu filho: "A vida não é justa. Puxe suas calças para cima; aperte seu cinto. Você nunca falará assim com um adulto". Ela contou à plateia que seu filho é parado o tempo todo pela polícia em seu próprio bairro. "Ele aprendeu cedo 'a descrição' em que ele constantemente se encaixa. Vi meu rapaz voltar para casa com raiva, dor e revolta."

É isso que o racismo faz. Uma mãe vê o mundo machucar seu filho, mesmo que ele continue fisicamente ileso, não seja preso nem espancado - até agora. Um suspiro de alívio, até a próxima vez que ele sair do círculo de proteção de sua casa. Todos os dias ela vê o peso do racismo e do ódio nos ombros de seu amado filho. No vinco entre suas sobrancelhas. Ela o escuta em seus suspiros e sente-o em seu cansaço.

Ouvi as histórias dessas mulheres com dor no coração. Não temo pelo meu filho dessa maneira. Jamais. Na verdade, comemoro sua exploração do mundo, sua nova ousadia com as pessoas, sua disposição a empurrar os limites, seu entusiasmo por interagir com todo mundo que ele encontra.

É maravilhoso! E é tão injusto que os filhos de todas as mães não possam se expressar, explorar o mundo e ser eles mesmos.

Eu tinha medo de policiais quando era criança, porque eles prenderam meus pais em atos e manifestações contra a guerra. Eles vieram a nossa casa algumas vezes à procura de ativistas pela paz que não haviam comparecido ao tribunal. Mais de uma vez, vi meu pai ser empurrado por policiais depois de atirar sangue ou tinta nas colunas do Pentágono. Era aterrorizante. Mas ele me via observando e me soprava um beijo ou piscava um olho para que eu soubesse que estava bem. Eu sabia que meu pai não seria espancado, sabia que ele seria libertado e que estava fazendo o que achava que tinha de ser feito.

Tantos anos depois, o resíduo do medo continua aqui. Eu vi policiais usarem seu poder de modo errado. Vi-os agir de maneiras que "protegem e ajudam" ao poder, e não ao povo. Sou grata por essas experiências. Elas me colocam um pequeno passo mais perto do que Rodrice Vincent, Marlowe Thomas-Tulloch e Riisa Renee Easley temem. É um passo muito pequeno, mas faz que eu não seja surpreendida pelo medo delas, como foram muitos brancos naquela plateia do Missouri. E isso é importante.

Assata Henderson, outra participante do debate, dirigiu seus comentários às mães brancas na plateia e àquelas (como eu) que escutavam online: "Enquanto nossa conversa com nossos filhos é sobre sobrevivência, o que vocês, mães de policiais, juízes e executivos, conversam com seus filhos?"

Essa é a questão para mim. Meu filho não é um policial, juiz ou executivo - ainda não. Mas eu sou a mãe de um menino branco --um bebê gentil, efusivo, dinâmico, que nasceu com muitos privilégios.

Ele terá de ouvir uma versão muito diferente da "conversa" que essas mulheres tiveram com seus filhos. Assim, meu marido e eu vamos conversar com nosso filho branco sobre desigualdade estrutural, racismo, privação sistemática, violência patrocinada pelo Estado e sancionada pelo Estado. Falaremos com ele sobre a brancura. Usaremos muitas palavras difíceis. Mas a maior parte de nossa conversa não poderá ser com palavras. Terá de ser com nossos atos, nosso exemplo, para dar lições sobre empatia, solidariedade e o trabalho de usar nosso poder e privilégio como brancos para ajudar os outros.

Este artigo foi publicado originalmente por Waging Nonviolence, onde a coluna da autora, Little Insurrections, sai semanalmente. Seu livro It Runs in the Family: On Being Raised by Radicals and Growing into Rebellious Motherhood está disponível em O/R Books.

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.

Acompanhe mais artigos do Brasil Post na nossa página no Facebook.


Para saber mais rápido ainda, clique aqui.