OPINIÃO
23/03/2015 17:31 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:12 -02

'Você tem muito o que aprender ainda' e outras formas de silenciar a nossa voz

Sempre que nossas falas pontuam a questão da desigualdade de gênero, elas são silenciadas e/ou deslegitimadas, independentemente do lugar e dos personagens envolvidos. A questão me intrigou e eu passei a reparar melhor nos meus diálogos com os caras com os quais me relaciono, com meus colegas de faculdade e trabalho, com meus professores e, porque não, com meu pai.

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No Brasil, enquanto as mulheres somam mais de 50% da população, menos de 15% das cadeiras do Congresso Nacional são ocupadas por elas. A conquista do sufrágio universal é recente e o crescimento desta representação, embora exista, é muito tímido - se continuarmos neste ritmo, serão necessários mais de 150 anos até que o cenário chegue a uma proporção numérica.

Mas este não é o único problema que corrobora para a - falha - representação da mulher. Infelizmente, conquistar lugares oficiais da esfera pública não é a garantia de voz e tampouco respeito e legitimação. Já é sabido que a história e a política não são espaços para as mulheres - embora, obviamente, devessem ser. Nós, o segundo sexo, sempre condicionadas a sermos pacientes e passivas, temos estes espaços muitas vezes negados, assim como também são os nossos direitos de fala e, consequentemente, a nossa capacidade de formar opinião.

Mas, por que este espaço nos é negado?

Há menos de oito meses uma companheira da luta feminista me alertou para o fato de que sempre que nossas falas pontuam a questão da desigualdade de gênero, elas são silenciadas e/ou deslegitimadas, independentemente do lugar e dos personagens envolvidos. A questão me intrigou e eu passei a reparar melhor nos meus diálogos com os caras com os quais me relaciono, com meus colegas de faculdade e trabalho, com meus professores e, porque não, com meu pai.

Como mulher, me colocar no espaço público é uma grande luta. Luta interna e externa. Luto comigo, com meus medos e minhas inseguranças causados por essa sociedade patriarcal que me consolidou como ser do lar, do privado; mas luto também por espaço, por respeito e por legitimação do meu discurso. Ao homem foi dado o direito de fala e a ele foi ensinado que a ocupação do espaço público é natural e automática, a mim não.

O lugar de fala é um espaço relevante cujo nós, mulheres feministas, não somos bem-vindas. Porque é isso: falar sobre privilégios masculinos e fazer denuncias sobre as desigualdades de gênero no nosso país é causar incômodo à figura do homem. E, para evitar maiores conflitos ou manter o status quo, as nossas participações são invisibilizadas e combatidas de forma injustificável e injusta.

As formas de silenciamento são diversas. O tratamento infantilizado e paternalista, como o famoso "você ainda é muito jovem e ingênua e um dia vai entender que eu estou falando isso apenas para o seu bem" seja, talvez, o mais comum, mas não o único. Nesta lista ainda podemos acrescentar a alegação de vitimismo; a questão pessoal ou biológica quando como, por exemplo, nossas escolhas ou características biológicas são postas no debate sob alegação de "mulher rodada, gorda, feia, louca, afetada pela TPM, bonita demais para ser feminista" ou ainda quando somos desqualificadas por sermos seres incapazes de agir racionalmente; ameaças e intimidações pessoais; e, finalmente, a carteirada acadêmica, típica de alguns membros da esquerda, que insistem em dizer que nunca sabemos o bastante e que temos que ler e estudar mais sobre determinado assunto antes de apontar questões, como se as nossas experiências vividas cotidianamente não fossem legítimas e significativas, como se para poder contribuir com alguma questão, uma mulher precisasse vomitar nomes de teorias, autores e números.

Calada e deslegitimada dentro de casa

Infelizmente, além de lidarmos com homens que nos assediam na rua ou no trabalho, com companheiros que nos agridem física e emocionalmente e com amigos que reproduzem discursos opressores, muitas de nós ainda temos que conviver com a figura paterna. Aqui precisa ficar claro que amor e respeito existem, mas é impossível ignorar que nestas relações há, também, muito silenciamento. Os motivos são geracionais e, também, de gênero. Na maioria dos núcleos familiares, homens e mulheres ainda são criados de formas muito distintas.

Uma companheira, em um desabafo em um espaço auto-organizado (lugar onde só existem mulheres e que é muito importante para o nosso empoderamento) disse que é impressionante como eles, nossos pais, confundem três coisas: a opinião diferente, a condição de pai e a condição de homem. A identificação foi grande. Muitas outras mulheres aproveitaram para relatar quais são as formas que eles encontram para deslegitimar seus posicionamentos, mesmo que inconscientemente - que fique claro.

Com autorização de todas elas, reproduzo parte aqui:

"Você ainda é muito nova".

"Sempre que tem uma mulher [junto com eles, em alguma discussão] você me crucifica".

"O meu [pai] é super pró-feminismo até quando resvale nele. Um dia ele surtou quando eu disse que ele era machista, se protegendo com 'mas eu não bato em mulher, eu não estupro ninguém, eu respeito todo mundo'".

"Fator algum deveria dar mais voz para alguém. Quando eu discuto com a minha mãe, por exemplo, ela nunca fala 'me respeita porque sou sua mãe'".

Por fim, irmãs de luta e companheiras de vida, o que fica é a necessidade de estarmos juntas e conscientes das amarras que nos prendem - elas muitas vezes são distintas e é exatamente por essas diferenças que precisamos sempre nos controlar para, inclusive, não silenciar outras mulheres, com vivências diferentes da nossa, nos nossos espaços de força.

Você, homem, compreenda que a opressão e o seu machismo vão muito além das agressões físicas e do controle sobre a roupa ou a vida sexual de uma mulher. Controlar ou desqualificar nossa fala e a nosso posicionamento no espaço público é tão grave quanto, pois é através dele que nos empoderamos e nos sentimos capazes e representadas.

À luta, agora e sempre, juntas!

Por Beatriz Cano