OPINIÃO
17/03/2015 15:41 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:12 -02

'Minha roupa não justifica nada'

Um simples caminhar do metrô até em casa: calça jeans, blusa regata com renda cinza, tênis. "Que delícia", ouço de um desconhecido. Sinto olhares invasivos de alguns homens em minha direção e apenas caminho, desejando ficar invisível para talvez conquistar algum tipo de respeito em pleno espaço público. Escuto "fiu fiu" de outro desconhecido. Mais que isso, ainda assim há quem justifique tamanho assédio na vestimenta que uso. "Quem usa roupa curta é porque tá pedindo". Mas minha roupa nem era curta e, mesmo se fosse, qual seria o problema?

midianinja/Flickr
Marcha das Vadias - São Paulo (SP)25/05/2013(CC-BY-SA) NINJA

Um simples caminhar do metrô até em casa: calça jeans, blusa regata com renda cinza, tênis. "Que delícia", ouço de um desconhecido. Sinto olhares invasivos de alguns homens em minha direção e apenas caminho, desejando ficar invisível para talvez conquistar algum tipo de respeito em pleno espaço público. Escuto "fiu fiu" de outro desconhecido. Mais que isso, ainda assim há quem justifique tamanho assédio na vestimenta que uso. "Quem usa roupa curta é porque tá pedindo". Mas minha roupa nem era curta e, mesmo se fosse, qual seria o problema?

Essa lógica faz parte de algo perverso nomeado cultura do estupro. Conceito que naturaliza a violência contra a mulher na sociedade, tornando o estupro algo tolerável e, de certo modo, incentivado.

A relação de poder que permeia essa cultura mantém a mulher em estado de medo permanente. Andar desacompanhada em locais vazios durante a noite torna-se incabível. Constrói-se a imagem do estuprador como um homem em um beco escuro quando, na verdade, a maior parte dos agressores é conhecida da vítima.

Culpam as mulheres pelo assédio sofrido devido à sua roupa e seu comportamento, quando o responsável pelo abuso é unicamente o seu agressor. Cria-se, então, um panorama no qual mulheres são ensinadas a se portar, no entanto, homens é que deveriam ser ensinados a não estuprar.

Intrínseca à sociedade, a cultura do estupro passa despercebida pela maioria das pessoas. A negação da cultura apenas a reforça, visto que, aqueles que agem com indiferença em relação a essa não tem intenção em amenizá-la ou, principalmente, extingui-la. Casos como o recente relato de estupro narrado por Alexandre Frota em rede nacional ilustram a banalização do tema. Após a confissão do abuso, Frota o justificou dizendo "É piada", como se um relato de um estupro fosse algo digno de riso.

Riso que não é apenas dado pelo relator, mas também por uma plateia que o aplaude. Aplausos resultantes do caso no qual uma mulher que, mesmo ao pedir "para" e até desmaiar, continua sofrendo com o ato sexual daquele homem. Essa naturalização do estupro permite que a sociedade sinta prazer com a dor da vítima, mesmo que muitos nem se deem conta de que a situação descrita é de violência contra a mulher.

A cultura do estupro também está presente quando dizem que uma mulher faz charme ao dizer não. A objetificação é tão intensa que o homem vê o "não" como irrelevante e a consensualidade pouco importa, uma vez que a mulher é vista como sua propriedade e, além disso, está lá a sua disposição. Muitas campanhas publicitárias perpetuam essa cultura, expondo situações onde as mulheres são altamente objetificadas e sexualizadas. A cultura do estupro torna o corpo da mulher algo público, no qual qualquer um pode tocar ou apalpar. A individualidade da mulher se perde e ela passa a ser vista como um mero produto sexual.

Fruto de um sistema machista e patriarcal é a cultura do estupro que naturaliza a violência sofrida pelas mulheres, que as culpabiliza e objetifica. É a cultura do estupro que não permite que mulheres caminhem com segurança no trajeto do metrô para a casa. É a cultura do estupro que permite com que uma plateia ria de um relato de agressão em plena rede televisiva. É a cultura do estupro que tolera deputados que dividem mulheres em quais devem ser estupradas ou não. É essa mesma cultura que violenta mais de 50 mil mulheres por ano em nosso país.

Por Claudia Ratti e Nathalia Parra