OPINIÃO
05/12/2018 14:28 -02 | Atualizado 06/12/2018 18:49 -02

SIM SP: Música, negócios e mais de 300 shows

Semana Internacional de Música de São Paulo ocorre entre 5 e 9 de dezembro e quer mostrar a força da indústria musical.

Idealizadora da SIM São Paulo, Fabiana Batistela aposta no potencial de negócios da cena musical.
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Idealizadora da SIM São Paulo, Fabiana Batistela aposta no potencial de negócios da cena musical.

São Paulo vai se tornar o ponto de encontro de quem trabalha com música dentro e fora do país. Entre os dias 5 e 9 de dezembro, ocorre na capital paulista a 6ª edição da SIM SP (Semana Internacional de Música de São Paulo), que reúne programação intensa. Os participantes com o pro-badge (credenciados) terão acesso a mais de 90 atividades entre painéis, palestras, debates, reuniões de negócios e a oportunidade de fazer networking com profissionais e bandas do Brasil inteiro e representantes de cerca de 25 países.

A diretora e idealizadora do evento, Fabiana Batistela, esclarece o conceito do evento. "Não é um festival de música, é uma conferência." Mesmo assim, haverá mais de 300 shows, além dos showcases diurnos para os quais qualquer banda poderia se inscrever e disputar uma das 27 vagas. Artistas como Liniker e os Caramelows, Linn da Quebrada, Mahmudi, Pélico e Fióti já tocaram nos palcos do que se tornou uma grande vitrine comercial. Quem se apresentar ali terá grandes chances de circular nos maiores festivais do Brasil.

Pra tocar nos palcos do SIM SP, a seleção é bem rigorosa e feita por um time de especialistas. "Ouvimos tudo e os mais votados vão pra uma reunião onde a gente discute quem entra na programação e há vários critérios. A gente veta muita gente. Pode acreditar. Nossa prioridade são artistas novos, alguns até desconhecidos do público", afirma Batistela.

Quem tem interesse em assistir aos shows mas não se cadastrou no evento profissional também pode participar pois os showcases diurnos são gratuitos. Para as festas noturnas é cobrado o valor do ingresso, porém se programe e chegue cedo porque as noites são concorridas. Batistela fala rindo que já foi barrada por causa da lotação do luga. "A gente sempre zoa com isso porque foi muito legal ter acontecido. Não conseguir entrar numa casa dentro de uma ação da SIM SP é o resultado que a gente queria."

A SIM SP possui um Conselho Consultivo que realiza a curadoria e também é responsável por montar a programação profissional, além de definir temas e palestrantes que sejam relevantes na indústria musical. O evento acabou se firmando como um espaço onde se discute muito além das questões da área.

Há 20 anos no mercado musical, Fabiana Batistela tem levantado discussões importantes dentro do evento, como a inserção de mais mulheres no mercado musical. Atualmente, 90% da equipe fixa da produção da SIM SP é feminina - configuração que, ela afirma, ocorreu de forma natural. Dentro da programação musical há uma regra de que pelo menos 50% das bandas tenha uma integrante mulher. "Havia muita banda masculina, mas poucas instrumentistas. A gente quis incentivar a participação de mais meninas. Isso não é só um movimento nosso. No mundo inteiro é assim."

A idealizadora do evento conta que as mulheres sempre ficaram em posições mais técnicas como produção e comunicação, o que resultou em uma visão equivocada de que somente homens seriam capazes de entender de música e serem críticos ou produtores musicais. Por isso a insistência em ter uma maior participação feminina no evento e nas atividades da SIM Transforma, projeto de formação feito mensalmente durante todo o ano nas periferias de São Paulo. "O setor técnico ainda é muito masculino então a gente colocou a regra que tem que ter técnica mulher, roadie mulher, tem que ser metade ali também."

Não há receio em trazer discussões polêmicas desde que sejam relevantes. A edição passada teve a participação de Gaudêncio Fidelis, curador da exposição censurada QueerMuseu, para falar sobre censura. "Foi um momento super emocionante. Tinha certeza que seria um discurso importantíssimo dentro da SIM SP. Todo mundo chorou, a mesa, a plateia... Porque a gente meio que já estava prevendo que alguma coisa muito ruim vinha pela frente."

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Fabiana Batistela, diretora e idealizadora da SIM SP.

Em 6 anos a frente da Sim SP, Fabiana ainda é incansável em falar sobre a necessidade que o País tem em investir em cultura com a mesma importância na qual investe em outros setores da indústria. "Cultura é o que consegue registrar na história o que a gente é, o que a gente foi e consegue fazer com que as pessoas pensem e reflitam sobre novas possibilidades. Sem educação e cultura você não consegue incentivar esse tipo de reflexão nas pessoas e as coisas não vão pra frente. Todo tipo de evolução de uma nação aconteceu através de movimentos sociais e culturais."

Nesse ano haverá a leitura de uma carta aberta do Ministério da Cultura, mostrando que apesar de ser um evento consolidado, é importante levantar discussões políticas e sociais e deixar claro que há uma hesitação quanto ao futuro do setor*.

A sensação de que não haverá apoio governamental ou nem mesmo a possibilidade de diálogo causa receio e a sensação de que será preciso reinventar os modelos de gestão cultural caso não haja um Ministério da Cultura atuante. "A minha visão é meio pessimista. Vamos ter que explicar tudo de novo pra eles. Ou a gente vai ter um Ministério que não vai entender cultura da forma que ela tem que ser entendida: como mercado que traz muito benefício e retorno pro pais. Hoje a gente tem um número, meio por cima, de que a cada real investido pelo governo voltam R$ 3 pro país mas imagino que hoje esse número é até maior."

A falta de dados concretos sobre o mercado musical também é algo relevante. Esse ano a SIM SP vai divulgar os primeiros números do DATA SIM, instituto de pesquisa que tem o objetivo de mostrar numericamente a importância do setor, ou seja, quanto de dinheiro é movimentado na área musical e seu impacto sócio-econômico. Com esses dados em mãos será possível comprovar a força da indústria criativa e o quanto o Estado perde ao não investir em música.

Com voz calma, a diretora da principal music convention da América Latina prevê dias difíceis: "Se esse ministério não entender cultura dessa forma [geradora de renda e com retorno financeiro para o estado] eles vão usar a verba em ações erradas, ações que sejam para promover o próprio governo. Show de graça na praça de algum artista popular, plano de cultura similar ao da época da ditadura. Eu tô com medo mas hoje a gente já tá querendo qualquer tipo de Ministério só pra não ter nenhum."

*Na última quarta-feira (28), a equipe de transição de Bolsonaro anunciou que o Ministério da Cultura (MinC), como existe hoje, será extinto. A pasta deve ser absorvida pelo Ministério da Cidadania e Ação Social, que engloba Cultura, Esporte e Desenvolvimento Social.

*Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.