OPINIÃO
12/03/2016 18:39 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:40 -02

Por que não vou pra rua no dia 13

Paulo Pinto/ Fotos Públicas

Dia 12 de janeiro de 2016, esquina entre a Avenida Paulista e a Consolação.

Era o segundo protesto convocado pelo Passe Livre contra o aumento das passagens em São Paulo.

Seis da tarde. Cheguei na concentração. Tive que dar a volta pelo metrô Paulista, porque a Tropa de Choque havia fechado o acesso pela estação Consolação.

Apesar de fotografar manifestações desde 2013, nunca havia visto um aparato militar tão grande como naquele dia. Nunca havia visto, também, tanto ódio no olhar de um policial militar como naquele dia.

Estávamos cercados de todos os lados por homens fardados. Cerca de 3 mil pessoas em um espaço consideravelmente pequeno, entre a Praça do Ciclista e o corredor de ônibus da Consolação. Começou o jogral.

O pessoal do Passe Livre denunciou o que estava acontecendo ali. A Polícia Militar, por ordens diretas da Secretaria de Segurança Pública, não permitiria que a manifestação seguisse seu trajeto original, descendo a Rebouças. Era o poder público querendo ditar o que a população civil pode fazer ou não.

Os manifestantes vaiaram. Não queriam percorrer o trajeto determinado pelo secretário Alexandre de Moraes, e sim aquele decidido pelo próprio movimento. Estava decidido: os manifestantes iriam descer a Rebouças, custasse o que custasse.

Sete horas. Coloquei o capacete, liguei a câmera. Quando você fotografa manifestações em São Paulo, parece que existe um aviso invisível de quando a coisa pode começar a ficar feia.

Os manifestantes colocaram a faixa, se posicionaram. Menos de um metro de distância, lá estava um dos vários cordões da PM, impedindo que o ato seguisse o trajeto determinado no jogral. E ficou assim, por mais de meia hora.

Pensei: melhor sair daquele meio, e ficar em uma posição estratégica. Corri para uma pequena praça que existe em uma das esquinas da Paulista com a Consolação. Subi no murinho, posicionei a câmera, comecei a filmar. Fiquei ali uns dez minutos, esperando qualquer ação. Nada.

Acendi meu cigarro. Olhei meu celular. Escutei a primeira bomba. Os primeiros gritos.

É engraçado. Mesmo depois de três anos fotografando manifestações, eu ainda não descobri qual deve ser a reação correta pra quando esse tipo de coisa acontece.

Parece que existe um momento de dez segundos em que você tenta assimilar todo aquele cenário. Você pensa: eu posso correr para o meio do furacão e fazer a foto do dia, ou simplesmente correr.

Geralmente eu costumo optar pela primeira opção. Minha consciência sempre gritou um pouquinho mais alto sobre isso.

Pensava: "sou fotógrafo, sou jornalista. Tenho uma câmera na mão. A polícia não vai fazer nada".

Mas naquele dia foi diferente... Resolvi correr.

Na verdade essa decisão foi involuntária: cerca de 200 pessoas corriam em minha direção, tentando achar algum lugar para se proteger das bombas que começavam a cair do céu.

Eu poderia ficar ali e ser esmagado, ou correr contra o rebanho e ser esmagado, ou simplesmente correr pra longe junto com toda aquela gente. E corri.

Mas olha só. Do outro lado havia mais um cordão da Polícia Militar. Eu não lembro exatamente o que pensei na hora, mas deve ter sido algo como: FODEU.

Fiz a mesma coisa que quase todo mundo ali fez: busquei proteção dentro de um prédio. Os manifestantes, desesperados, conseguiram entrar no estacionamento subterrâneo do que aparentava ser um hotel. Fui junto.

E lá dentro fiquei por cinco minutos. Só conseguia pensar em uma coisa: o que raios fazer caso a Polícia Militar perceba que ali dentro havia centenas de manifestantes? Se esconder atrás do carro? Subir pelo elevador? Não, estava quebrado. Sentar e chorar? Não, na verdade presenciei alguns fazendo isso. Porra.

Foi então que aquela maldita vontade de clicar e registrar o momento falou mais alto. Pensei: "quer saber? Vou sair e registrar tudo isso. Foda-se".

E lá foi o Francisco, como se fosse o fotógrafo mais corajoso do mundo. Pena que a coragem não durou nem dois minutos.

Logo que saí de volta para a avenida, o cenário conseguiu ser ainda pior. Parecia uma partida de tênis: de um lado, a Tropa de Choque jogava bomba, e do outro a Tropa de Choque lançava gás lacrimogêneo. No meio, os manifestantes representavam o que seria uma rede. E a "bola" sempre atingia a rede.

Acabei ficando preso no saguão do prédio, na área externa. Me posicionei estrategicamente atrás de um dos pilares do prédio. Câmera ligada de novo.

Até que aconteceu uma cena digna de filme. Eu, pensando que poderia enfim fazer o meu trabalho, fui surpreso quando um rapaz do meu lado resolveu pegar uma pedra, e jogar em direção ao cordão policial. Pensei: CARA, VOCÊ É BURRO? Mas na verdade gritei NÃO, e alguns palavrões. Pronto. A polícia sabia que ali estavam alguns manifestantes encurralados. Bora jogar bomba neles.

E uma explodiu bem perto de mim. Não me feriu. Mas não daria mais pra ficar no saguão. Fui pra entrada da garagem, parecendo um ninja. Na realidade ali era o lugar que parecia mais seguro: o cordão da Consolação era fora da vista e bem distante, e o da Paulista ficava tão próximo da gente que jogar uma bomba ali seria burrice.

Superestimei a inteligência da polícia. Pagaria o preço.

Sete e meia da noite. Uma bomba de efeito moral explode poucos metros de distância de mim. Dessa vez acertou.

É difícil escrever sobre isso. Só consigo lembrar da dor e da agonia em saber que fui atingido enquanto fazia meu trabalho.

Como estava vestindo uma calça apertada, não conseguia ver o nível do estrago. Corri mancando para o saguão de novo, agora com os manifestantes sentados com os braços pra cima. Gritei: "me acertaram! Me acertaram".

A brutalidade em imagens

NÃO HOUVE EXCESSOS?Registro das cenas de violência gratuita por parte da Polícia Militar de São Paulo contra manifestantes pacíficos no segundo protesto contra o aumento da tarifa no transporte público.O fotojornalista Francisco Toledo, da agência Democratize, ficou ferido com estilhaços de bomba em sua perna. Mais de 20 feridos e vários presos de forma arbitrária. Como meio de comunicação, o Democratize repudia completamente a atitude anti-democrática, autoritária e violenta cometida pelo estado de São Paulo, e exige a saída imediata do secretário de Segurança Pública, Alexandre de Moraes, pelos excessos feitos na cobertura policial de ontem. Vídeo: Democratize

Publicado por Democratize em Quarta, 13 de janeiro de 2016


Uma moça conseguiu levantar a minha calça. E lá estava um buraco de quase 5 centímetros na batata da minha perna direita. Só conseguia pensar na minha filha, na minha namorada, e na minha mãe. Peguei o celular, avisei o que havia acontecido. Mas não podia ficar ali.

A moça e o rapaz me carregaram, atravessando a Avenida Paulista enquanto as bombas passavam por cima de nós. Eu acho que nunca vou esquecer desse momento na minha vida.

Horas depois, fui pro hospital. Foram seis pontos na perna. O estilhaço, porém, ficou lá dentro. O médico me confortou, dizendo que em 90% dos casos não existe complicação.

Um mês depois, tirei os pontos. Dois meses depois, a cicatriz ficou.

Agora, vocês me perguntam por qual motivo eu não vou à manifestação do dia 13 de março.

Bem, o motivo vai além de considerações políticas ou ideológicas.

Acabou se tornando algo pessoal pra mim: trata-se de uma manifestação que tem sido utilizada por diversas vezes desde o ano passado como uma espécie de "feira" para que a Secretaria de Segurança Pública de São Paulo pudesse colocar em "exposição" todo o seu aparato de repressão militar.

Aparato que me deixou uma cicatriz e que feriu mais de dez profissionais da imprensa nos últimos meses.

Mas quem liga? O importante é você tirar a sua selfie com o policial, do lado de um caminhão que mais parece um tanque - e que foi pago por você mesmo.

O importante é você bajular o secretário Alexandre de Moraes, maior responsável pela máquina de repressão política de São Paulo. Mesmo secretário que tem utilizado a manifestação do dia 13 como ferramenta partidária. Mesmo secretário que tenta se promover a qualquer custo.

Mas, respeito caso você ainda queira ir pra rua no dia 13.

Apenas tome cuidado. Me contaram que ainda existem marcas de sangue na Avenida Paulista. Sangue causado por eles. Sangue ignorado por vocês.

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