OPINIÃO
15/02/2016 15:35 -02 | Atualizado 26/01/2017 22:31 -02

O impeachment morreu

O ano de 2015 terminou, e levou junto com ele o impeachment. Isso não significa que a presidenta Dilma Rousseff recuperou sua popularidade, ou muito menos que o Brasil saiu da crise em um passo de mágica. Não existe mágica. E por isso o impeachment morreu: a ideia de que tirar uma pessoa democraticamente eleita de seu cargo vai tornar o país melhor, é simplesmente mágica, e mais nada.

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BRASILIA, BRAZIL - FEBRUARY 02: President of Brazil Dilma Rousseff gives a speech during President of Bolivia Evo Morales' official visiti to the Planalto Palace on February 02, 2016 in Brasilia, Brazil. (Photo by Ricardo Botelho/Brazil Photo Press/LatinContent/Getty Images)

O ano de 2015 terminou, e levou junto com ele o impeachment.

Isso não significa que a presidenta Dilma Rousseff recuperou sua popularidade, ou muito menos que o Brasil saiu da crise em um passo de mágica. Não existe mágica. E por isso o impeachment morreu: a ideia de que tirar uma pessoa democraticamente eleita de seu cargo vai tornar o país melhor, é simplesmente mágica, e mais nada.

Começamos este ano mais realistas.

Talvez porque logo de cara fomos sacudidos por outros problemas do nosso dia-a-dia. E quando falo "nosso", digo da maioria da população brasileira, e não dos homens da Fiesp. Bem, na realidade, levamos um tapa na cara quando assistimos em tempo real policiais espancando adolescentes em dezembro do ano passado, durante protestos contra a reorganização escolar em São Paulo. Podemos dizer que o impeachment "nasceu" em São Paulo e também morreu por aqui. A popularidade do governador Geraldo Alckmin despencou em poucas semanas, e ele teve de recuar.

Mas seu recuo na Educação não significou absolutamente nada quando em janeiro deste ano, resolveu fazer o mesmo com manifestantes do Movimento Passe Livre, após o aumento das passagens do transporte público. Ali, junto com o prefeito petista Fernando Haddad, mostraram para a "capital do Impeachment" que o problema é muito maior do que a imagem da presidenta Dilma Rousseff.

O impeachment morreu. Não porque o brasileiro não está mais indignado com as dificuldades enfrentadas nos dois últimos anos, mas sim porque estamos descobrindo que o problema em torno de Brasília é bem mais grave do que parece. Não se trata de mudar X por Y, mas sim o alfabeto inteiro. Não podemos negar: o presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, também teve sua parcela de culpa - tanto com o nascimento do impeachment quanto com a sua morte.

Como acreditar em um movimento que tem em sua liderança um homem acusado de diversos casos de corrupção, inclusive pela justiça estrangeira? Kim Kataguiri diria que a mobilização pelo impeachment não tem como aliado Eduardo Cunha. Mentira. Aquela foto tirada em Brasília no ano passado ficará para a história como a formalização de um movimento e posteriormente seu retrato de velório.

E até entendo o positivismo que parte dos meninos do Movimento Brasil Livre. Afinal, se a ideia do impeachment morre, eles perdem o emprego. Cá entre nós, aquilo é um emprego, eles vivem disso. Ao contrário dos militantes do Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto (MTST), que vivem da militância e também do trabalho em outro lugar, os jovens do MBL focam seu dia-a-dia por completo apenas na articulação do movimento. Como pagam as contas de casa? Bem, dai já não sei.

Não podemos repetir o mesmo erro de Kataguiri quando ele acusa o Passe Livre de "jogar bombas no metrô" sem ter o mínimo de prova, em plena coluna de estreia na Folha de S. Paulo. O jornalismo não é isso. Opinião também não - afinal, seria um tanto hipócrita basear suas opiniões em "achismos" e liderar ao mesmo tempo um movimento pelo impeachment. Nesta posição, só existe espaço para certezas.

O cerco contra Dilma foi substituído pelo cerco contra o ex-presidente Lula. O próprio MBL e outros defensores do movimento começaram a mudar o foco do seu discurso por conta disso. Afinal, eles perceberam que o impeachment morreu e, portanto, o que resta a ser feito é trabalhar para que em 2018 o nome de Lula já não seja mais viável para as eleições.

Veja bem, Lula não será preso. Se ele cometeu erros ou não, cabe a Justiça verificar. Mas na realidade ele não precisa ser preso. Quem aqui já assistiu a série do Netflix, chamada "Making a Murderer" sabe do que estou falando. Basta um pequeno fio para colocar fogo na reputação de uma pessoa, e foi isso que fizeram com o ex-presidente: uma denúncia, as investigações não-finalizadas, e uma cobertura em tempo real pelos meios de comunicação. Repita por diversas vezes a mesma história que, independente de ser real ou não, isso já estará impregnado no pensamento de quem assiste, lê ou ouve.

O americano Steven Avery foi preso, acusado de torturar e assassinar uma jovem nos Estados Unidos. Essa é a história do Making a Murderer. Provas suficientes que comprovam isso não existem. Mas isso já não era mais preciso: a imprensa e os advogados do Estado já haviam feito questão de associar a figura de Avery com a de um lunático malvado, um assassino. Pois bem. A imprensa brasileira já associou a imagem do ex-presidente Lula com a de um corrupto, traidor da classe trabalhadora. E vai ser assim até as eleições em 2018.

Assim como é o caso de Avery, não sei se Lula é inocente ou culpado. Como havia dito acima, não existe espaço para "achismos". Crenças pessoais e ideológicas não devem interferir o trabalho de formação de opinião do jornalismo.

Mas o impeachment? Ele morreu sim. E isso não é achismo. O MBL pode até acreditar em uma reviravolta surpreendente, mas lamento meninos. É hora de empacotar as coisas e procurar um novo emprego - como alguns de vocês têm feito, se filiando a partidos políticos para concorrer a cargos nas eleições deste ano.

Para aos interessados, o velório do impeachment será no dia 13 de março, na Av. Paulista. Palco de seu nascimento, com centenas de milhares de pessoas ocupando a avenida inteira no ano passado. Será desta vez palco do seu velório, com um evento no Facebook do MBL confirmando a presença de menos de 4 mil pessoas. "Mas isso não significa nada", alguns diriam. No evento da manifestação do dia 16 de agosto do ano passado, mais de 46 mil pessoas haviam confirmado presença. Pois bem. #RIPImpeachment.

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