OPINIÃO
22/03/2016 20:30 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:53 -02

Tratar o EI como um 'Estado com um exército próprio' apenas o fortalecerá

Depois dos acontecimentos trágicos do ano passado em Paris, que deixaram 17 mortos em janeiro e outros 130 em 13 de novembro, e agora com os ataques em Bruxelas, há uma tentação forte ou até irresistível de supor que estamos enfrentando um "exército das sombras", ou, ainda pior, um exército real.

Carl Court via Getty Images
BRUSSELS, BELGIUM - MARCH 22: Police officers patrol outside Maelbeek metro station following todays attack on March 22, 2016 in Brussels, Belgium. At least 34 people are thought to have been killed after Brussels airport and a Metro station were targeted by explosions. The attacks come just days after a key suspect in the Paris attacks, Salah Abdeslam, was captured in Brussels. (Photo by Carl Court/Getty Images)

Depois dos acontecimentos trágicos do ano passado em Paris, que deixaram 17 mortos em janeiro e outros 130 em 13 de novembro, e agora com os ataques em Bruxelas, há uma tentação forte ou até irresistível de supor que estamos enfrentando um "exército das sombras", ou, ainda pior, um exército real.

A multiplicidade de alvos, a diversidade dos métodos de execução e a recorrência dos ataques, tudo isso parece indicar que existe uma multidão crescente de participantes de origem norte-africana. Abdeslam e seus comparsas movimentam-se como peixes na água, não obstante a polícia onipresente. E os terroristas não afirmam fazer parte de um Estado que seria o Estado Islâmico?

Assim, existe a chance de estarmos em guerra, e não mais em sentido metafórico. Declarações dadas desde a noite de 13 de novembro por François Hollande e muitos outros líderes pareciam sugerir que poderíamos estar no meio de uma guerra real contra o exército deles. O massacre mais recente em Bruxelas confirmaria isso.

Antes de embarcar nessa narrativa, precisamos tirar alguns minutos para refletir, tanto para verificar o que é dito quanto para analisar suas consequências.

O terror pode se disseminar sem um exército.

Para começar, analisemos os fatos. Sabemos que pelo menos dez pessoas participaram dos ataques de Paris, tendo o apoio de uma rede franco-belga que não pôde ser medida com precisão na época, mas que parece ser constituída de cerca de 20 indivíduos, incluindo alguns familiares dos assassinos. Não chega a surpreender: as armas podem ser obtidas, a logística pode ser organizada, os esconderijos podem ser alugados e os explosivos podem ser manufaturados.

Não se trata de um exército -no máximo de um pelotão de foras-da-lei. Trata-se de um grupo de criminosos que combatem sobretudo os serviços de inteligência, as forças policiais e a repressão judicial. Acrescentemos também que sabemos que um número muito pequeno de indivíduos é capaz de causar danos desproporcionais; o melhor exemplo disso é o ataque do "lobo solitário" da extrema-direita Anders Breivik que deixou 77 mortos em 2011. Breivik usou uma van carregada de explosivos, além de seu arsenal pessoal de armas de fogo.

O terror pode ser difundido sem um exército. O terrorismo também pode ter diferentes faces: o massacre de Oslo foi um dos atos de terrorismo mais letais da Europa, ao lado das explosões em trens de Madri em 2004 e dos ataques de 13 de novembro em Paris.

Nada ajuda mais o EI do que ele ser tratado como um Estado dotado de seu próprio exército.

Agora analisemos as consequências. O EI se enxerga como um Estado plenamente independente e apresenta seus "mártires" como militantes que pertencem a um exército que combate os infiéis. Nada contribui mais para o reforço de sua auto-imagem do que ser tratado como um Estado com seus próprios Exército e militantes. Estamos dando aos terroristas uma honra que eles certamente não merecem. Falar em um Exército e uma guerra reforça a motivação dos servos do EI. Falar em um exército das sombras é ainda pior: estes assassinos não são, de maneira alguma, sucessores dos heróis da Resistência.

Embora seja verdade que o EI é representativo de um setor das populações dos países em guerra civil, especialmente Síria e Iraque, na Europa ocidental, ele não passa de um grupo terrorista que de maneira alguma constitui um movimento de massas. Dezenas de milhares de pessoas com ficha "S" na França (NT: fichadas na polícia por atentado contra a segurança do Estado) é um número muito alto demais, mas mesmo assim, em um país de 66 milhões de habitantes, dos quais cerca de 5 milhões são da religião muçulmana, não é um número representativo.

Não devemos cair na mentalidade da guerra civil.

Ao criar duas categorias de pessoas franceses (pertencentes e não pertencentes ao EI), ao perpetuar um estado de emergência com efeitos graves e ao enfrentar o terrorismo como se fosse questão de combater um exército, corremos o risco de passar de um cenário de grupos e indivíduos militantes para um drama envolvendo populações inteiras.

É por esta perspectiva de guerra civil que o EI torce, e é ela que precisamos evitar. O medo suscitado pelos ataques sangrentos em Bruxelas vai pôr à prova nossa capacidade de evitar essa espiral descendente.

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost França e traduzido do francês.

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