OPINIÃO
08/04/2016 20:06 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:53 -02

Os incidentes recentes e a história das relações entre Rússia e Turquia

Rússia e Turquia, hoje, podem ter boas relações comerciais, prejudicadas pelo incidente de novembro de 2015. A Turquia não possui a mesma capacidade de poder que a Rússia, seja poder econômico, poder militar ou poder político; a Rússia é um dos P5 do Conselho de Segurança da ONU.

Semanas após o incidente em que um caça turco abateu um jato russo, outro episódio de tensão entre os dois países. No domingo, dia 13 de dezembro, a fragata russa Smetlivy abriu fogo contra um barco turco que se aproximou menos de meia milha náutica no mar Egeu. Segundo o Ministro da Defesa russo, os disparos foram para evitar uma rota de colisão, pois o barco de bandeira turca seria um barco pesqueiro, não um navio militar.

O grave incidente do abate aéreo causou uma série de represálias econômicas e denúncias políticas por parte da Rússia contra a Turquia. Junto, trouxe uma série de análises sensacionalistas, alarmando sobre uma possível Terceira Guerra Mundial, especialmente pelo fato da Turquia ser parte da OTAN. Uma olhadela para a História, entretanto, explica essa relação volátil.

Considerando os Estados que existem atualmente e seus antecessores modernos, Rússia e Turquia estão entre os que mais tiveram conflitos bélicos entre si. Entre os séculos XVI e XIX foram dez guerras diretas, além de estarem em lados opostos na Guerra da Crimeia, iniciada em 1853 e consequência de guerras anteriores.

Já no século XX, também estiveram em lados opostos na Primeira Guerra Mundial. Como se explicam doze conflitos militares entre dois Estados modernos? A proximidade geográfica, que faz com que diversos objetivos geopolíticos de ambas as potências em comum, disputados entre si. Especialmente quatro focos de tensão.

Os Bálcãs, disputados entre os impérios russo, turco-otomano e austríaco. Palco de diversos conflitos envolvendo as três potências citadas, foi o lugar do estopim da Primeira Guerra Mundial, a Crise de Julho, após o assassinato do arquiduque Francisco Ferdinando.

Uma tensão entre Áustria-Hungria e a Sérvia, apoiada pela Rússia, motivada pela Bósnia, anexada pelos austríacos anos antes, anteriormente uma posse turca. Além de conflitos diretos, guerras regionais contaram com o apoio russo e turco, habitualmente em lados antagônicos. O desejado papel internacional do Império Russo, de defensor dos eslavos e da fé cristã ortodoxa, justificou o apoio à Sérvia e Bulgária contra os turcos-otomanos.

A península da Crimeia, disputada entre turcos e russos por séculos. Até o final do século XVIII, a Crimeia era um canato vassalo do Império Turco, ambos relacionados às invasões mongóis; "canato" era uma região governada por um Khan, o mesmo título dos imperadores mongóis.

Os povos turcos, cabe lembrar, são originários da Ásia central, "empurrados" para o Oriente Médio e o Cáucaso, assim como outros povos, pelos avanços mongóis. Disputas com os cossacos da região, amparados pelo Império Russo, e a importância da localização da Crimeia causaram as ações russas que culminaram com toda a conquista da região.

Essas ações de conquista, entretanto, estavam dentro de um objetivo maior e o terceiro ponto que deve ser lembrado. O controle dos estreitos de Bósforo e de Dardanelos foi, por dois séculos, o principal objetivo da política externa russa, especialmente no que concerne ao uso da força. Esse controle permitira o acesso naval russo às águas quentes do Mediterrâneo, ao estreito de Gibraltar e ao canal de Suez.

Fatores de ampla importância na geopolítica do século XIX. O desejo por um acesso oceânico permanente em águas quentes motivou diversas ações russas, balanceadas por reações britânicas, o principal rival mundial; o chamado Grande Jogo na Ásia central e a criação do atual Afeganistão são alguns dos exemplos desse contexto.

Finalmente, a expansão russa no Cáucaso, tomando territórios justamente dos turcos; a região, ligando o Oriente Médio às planícies russas, era essencial em todas as disputas anteriores e um dos teatros secundários da Primeira Guerra Mundial. A retórica turca, usada até hoje, para não reconhecer o Genocídio Armênio como tal, está relacionada aos eventos da guerra.

Os armênios eram aliados dos russos na guerra contra os turcos, que consideram as mortes ocorridas como consequência de um conflito militar, não de uma política de genocídio. Posteriormente, três repúblicas soviéticas seriam localizadas no Cáucaso, as atuais Armênia, Geórgia e Azerbaijão.

Foi com a Segunda Guerra Mundial que a relação entre os dois países foi normalizada. Os exemplos citados sobre a relação entre os dois países seriam, então, apenas casos perdidos na História? Não. Com o início da Guerra Fria, a relação entre URSS e Turquia teve um caráter ambíguo.

Os soviéticos abriram mão de parte de suas demandas territoriais e reconheceram a soberania turca sobre os canais. Ao mesmo tempo, a Turquia entrou para a OTAN em 1952 e, dada sua localização, tornou-se uma das principais bases dos países Ocidentais no período.

Pela proximidade de algumas das mais importantes bases soviéticas, como os portos da Crimeia (que tiveram seu valor estratégico relembrado na recente crise e anexação russa), a Turquia foi base para mísseis com ogivas nucleares; em represália, a URSS instalou mísseis em Cuba, desencadeando o momento de maior tensão da Guerra Fria, em 1962.

Mesmo após a Guerra Fria e a dissolução da URSS, Rússia e Turquia continuam em lados opostos em diversos temas que concernem as regiões citadas. A Turquia foi um dos primeiros países do mundo que reconheceu a independência do Kosovo, região que se separou da Sérvia, tradicional aliada russa, que condena a separação kosovar e usou o episódio para legitimar as ações na Crimeia.

A anexação da península no Mar Negro foi outro foco de discordância entre russos e turcos. Os turcos não aceitaram a anexação, classificando-a de ilegal; mais ainda, colocaram que a Crimeia é a "porta turca para a Ucrânia" e resgataram a identidade dos tártaros da Crimeia, chamados de compatriotas. Os tártaros são os antigos súditos turcos no Canato da Crimeia.

No Cáucaso, a Rússia permanece como a principal aliada da Armênia, rival não apenas da Turquia, mas também do Azerbaijão, que conta com o apoio turco; os dois países caucasianos disputam a região de Nagorno-Karabakh, cada um respaldado em uma das potências vizinhas.

Nos conflitos da região entre a Rússia e grupos identificados como islâmicos, como nas duas Guerras da Chechênia e no Daguestão, voluntários turcos combateram contra forças russas. Nesses conflitos e também na Guerra de Agosto entre Rússia e Geórgia, em 2008, foram ventiladas suspeitas russas de apoio logístico e de inteligência por parte da Turquia.

Rússia e Turquia, hoje, podem ter boas relações comerciais, prejudicadas pelo incidente de novembro de 2015. A Turquia não possui a mesma capacidade de poder que a Rússia, seja poder econômico, poder militar ou poder político; a Rússia é um dos P5 do Conselho de Segurança da ONU.

Os dois países, entretanto, por séculos, possuem objetivos conflitantes, sejam nas regiões que compartilham, seja diretamente entre si. O abate de um avião russo por um caça turco, embora grave, muito noticiado e estopim de uma série de represálias, não deveria ser foco de tanto sensacionalismo e alarmismo.

Assim como o incidente naval dos últimos dias. A análise da História mostra que se trata de mais um capítulo em um grande retrospecto de rivalidade e de disputa.

Publicado originalmente no Xadrez Verbal

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