OPINIÃO
08/04/2016 19:36 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:31 -02

O pensamento vil e os acontecimentos na França

Jupiterimages via Getty Images
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Caros leitores, enquanto essas linhas são escritas, na noite de sexta-feira, dia 13 de novembro, chegam uma enxurrada de informações sobre o que aconteceu na França.

Mais de uma centena de mortos em uma série de ataques coordenados, incluindo ataques suicidas à bomba perto do estádio onde jogavam as seleções de futebol de França e de Alemanha, com a presença do presidente francês, François Hollande.

Cerca de cem reféns em uma casa de shows, fronteiras fechadas, estado de emergência declarado pelo presidente após ser evacuado para um lugar protegido. O início de mais uma caçada ao autores em solo francês, que viu também uma caçada após os atentados de Charlie Hebdo. No momento que esse texto for lido, provavelmente outras informações terão surgido, talvez para o pior. O que fica explícito no dia de hoje é a canalhice, o vil modo de pensar do terror pelo terror.

Costuma-se dizer que o terrorista de um é o herói do outro. Os movimentos militantes armados, historicamente, possuem uma causa, normalmente um motivo nacionalista, por autonomia ou contra o que entende-se como um invasor estrangeiro. Diversos exemplos caem nessa definição, como o IRA irlandês, o ETA basco, a OLP palestina; movimentos extremos e armados que, enquanto são condenados internacionalmente como terroristas, também são defendidos ao menos por parcelas locais de suas populações. Por esses motivos e essa base de identidade, esses movimentos não cometeriam atos intencionais contra seu próprio povo. Não é mais o que acontece.

Os prováveis autores dos atentados são ou o autointitulado Estado Islâmico ou a al-Qaeda, dado o tamanho, o planejamento e o escopo dos ataques. Não foram atos isolados, foram atividades de grupos que desejam apenas o Terror pelo Terror. Os atentados contra a redação do Charlie Hebdo, por exemplo, foram assumidos pela al-Qaeda iemenita. Na França a situação é ainda mais complicada, já que muitos nacionais franceses de origem árabe se juntam aos grupos terroristas e retornam ao seu país de origem, possibilitando a criação de células terroristas no país. E, mais do que terem como causa algo extremamente nebuloso, sem claros propósitos políticos, esses grupos criam uma situação extremamente nociva ao seu próprio povo, à sua própria religião.

A França é um dos principais destinos de imigrantes e de refugiados na Europa. O fato de ter uma grande comunidade que descende do seu antigo império colonial, um Estado e uma sociedade tolerantes em uma perspectiva religiosa, uma série de motivos explicam esse fato. Após os atentados, pela primeira vez, a França ordenou um fechamento completo de suas fronteiras, inclusive para auxiliar a investigação. Nos últimos meses, a crise de refugiados causou fechamento de fronteiras pelos Bálcãs e tensões políticas por todo o continente, especialmente na Alemanha. O Reino Unido coloca o controle fronteiriço como uma de suas prioridades em renegociar sua posição na União Europeia, promessa de campanha de David Cameron. A paranoia e a intolerância se alimenta ainda mais hoje.

Com o esfacelamento da Síria e o surgimento do autointitulado Estado Islâmico, mais de setecentos mil refugiados do Oriente Médio e do norte da África chegaram à Europa apenas em 2015. Segundo a Comissão Europeia, a estimativa é de que, até 2017, sejam três milhões de seres humanos buscando refúgio. E a situação que esses refugiados encontrarão será ainda mais tensa, ainda pior. Por causa do próprio Terror do qual essas pessoas fogem. Esse "caos orquestrado", a situação do medo, da paranoia que existe em Paris será espalhado pela Europa. Os franceses tragicamente mortos causarão um trauma em sua sociedade, uma ferida social que demorará em cicatrizar. E uma sociedade traumatizada torna-se um lugar à menos para refúgio, tanto dos franceses quanto de pessoas de qualquer origem. Ninguém se sente à salvo em uma sociedade tomada pela paranoia.

É por isso que Barack Obama coloca que o ocorrido é um atentado contra a humanidade. O preço não será pago apenas pelos mortos. A vida na Europa demorará para ser normalizada, a vida dos refugiados sequer sabe-se se, um dia, será "normal". O Terror que atacou em Paris, hoje, não defende uma bandeira, uma causa, não deseja alguma coisa. Para esses grupos, quanto pior, melhor. É no vácuo de poder que esses grupos se estabeleceram, seja no Afeganistão da década de 1990, seja no Iraque da década de 2010 ou na Líbia de 2015. Essa é uma das lições que precisam ser aprendidas, a de que, na atual política internacional, vivemos uma situação virtualmente inédita. A outra lição é de que não se pode combater o sintoma sem atacar a causa.

Se existem vácuos de poder nessas regiões é por posturas e análises equivocadas do passado e do presente. Intervenções unilaterais como a invasão do Iraque pelos EUA em 2003. A falta de uma solução perene na Palestina e em Jerusalém, causando uma escalada de tensões religiosas. O conflito sectário na Síria, com virtualmente todas as potências regionais e globais tentando impor sua agenda particular, incluindo suspeitas de cooperação entre o EI e um país membro da OTAN, a Turquia, contra um inimigo em comum, os curdos. A crescente disputa geopolítica entre as duas potências regionais, Irã e Arábia Saudita, com um perigoso componente da religião, um tema muito debatido aqui no Xadrez Verbal, assim como a complacência ocidental com o país árabe.

A monarquia absolutista saudita, ao buscar ser protagonista regional e do Islã, fomenta as disputas sectárias entre sunitas e xiitas por toda a região. As minorias xiitas são apoiadas pelo Irã, rival religioso e geopolítico. Desse projeto de poder saudita que temos a guerra civil no Iêmen, parte do conflito na Síria, o EI, a escalada de tensões no Líbano. Em janeiro apontou-se, aqui neste texto, a contradição do próprio presidente francês, que quer combater o terror mas vendia armas aos sauditas. E, novamente, Hollande promete retaliações duras aos que atacaram sua população. E que, principalmente, matam milhares no Oriente Médio, deslocam centenas de milhares em fuga para longe de onde eram suas casas. O Terror pode acreditar que está infligindo mortes ao Ocidente, mas sua covardia é tamanha que a maioria de suas vítimas, sem casa e com cada vez menos lugares para onde ir, são os indefesos de seu próprio povo.

Publicado originalmente no Xadrez Verbal

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