OPINIÃO
20/02/2015 16:18 -02 | Atualizado 26/01/2017 22:02 -02

Tara Ochs: 'torço para que algum dia não pensemos em indicações ao Oscar para filmes negros e filmes brancos'

Natural do sul dos Estados Unidos e filha de um piloto da Marinha americana, Ochs não passa a impressão de ser uma mulher preocupada com o glamour de Hollywood e em conviver com celebridades. Talvez tenha sido isso o que levou a diretora do filme, Ava Duvernay, a pensar nela para o papel de Viola Liuzzo, ativista dos direitos civis e mãe de cinco filhos. Liuzo foi assassinada pelo Ku Klux Klan depois de participar de uma marcha bem-sucedida comandada por Martin Luther King Jr., em 1965, de Selma, no Estado do Alabama, a Montgomery.

Paramount

A atriz Tara Ochs é um exemplo perfeito de atriz trabalhadora, alguém que há 20 anos vem representando papéis modestos em filmes independentes, comerciais, na televisão e no teatro regional. Ser chamada para atuar ao lado de Oprah Winfrey em Selma, um dos filmes mais importantes do ano, provavelmente era a última meta que ela devia ter na cabeça, até que aconteceu.

Natural do sul dos Estados Unidos e filha de um piloto da Marinha americana, Ochs não passa a impressão de ser uma mulher preocupada com o glamour de Hollywood e em conviver com celebridades. Talvez tenha sido isso o que levou a diretora do filme, Ava Duvernay, a pensar nela para o papel de Viola Liuzzo, ativista dos direitos civis e mãe de cinco filhos. Liuzo foi assassinada pelo Ku Klux Klan depois de participar de uma marcha bem-sucedida comandada por Martin Luther King Jr., em 1965, de Selma, no Estado do Alabama, a Montgomery.

Como a sociedade de hoje enfrenta a mesma desigualdade racial e o mesmo racismo sistêmico mostrados no filme Selma, ativistas sociais estão mantendo o espírito de Viola Liuzzo e MLK vivo através de vários movimentos.

Para celebrar a marcha de 1965 de Selma a Montgomery e homenagear Martin Luther King, Duvernay, Oprah Winfrey e o elenco de Selma foram ao Alabama. Depois do evento, entrevistei Tara Ochs para ouvir dela como foi trabalhar no filme e o que ela acha do polêmico descaso com que a Academia tratou Selma. Eis o que foi dito:

Como foi a marcha?

Tara Ochs: Foi muito intensa. Estava lindo lá. Não sei qual era a temperatura, mas devia estar por volta de 20ºC, então dava para usar camiseta e não passar calor. Era um dia de sol forte e céu límpido. Iluminaram a ponte e montaram um palco onde Common e John Legend cantaram Glory. Foi muito lindo.

Vocês realmente fizeram uma marcha, ou foi apenas o show?

Todo o mundo desceu a rua devagar em passeata em direção à ponte onde o show aconteceu. Então, sim, fizemos uma marcha.

Este ano que passou deve ter sido uma loucura para você.

Sabe, foi um ano que mudou minha vida.

Então sua família deve estar sentindo orgulho de você. O que seus familiares pensam de tudo isso?

Estão podendo dividir a curtição com todo o mundo - com todos seus amigos --, mas estiveram ao meu lado o tempo todo. Esta é mais uma jornada especial para eles.

É mais um trabalho seu - só que este trabalho inclui Oprah Winfrey!

Sim, é demais. Mas minha família não se deixa impressionar demais com esse tipo de coisa. Ela me mantém com os pés no chão. Agora, este não é apenas mais um trabalho qualquer para mim. Foi uma experiência que mudou minha vida. Meus pais continuam a me tratar igual, não importa o que aconteça; tudo o que eu faço eles aceitam sem se abalar. Mas, para mim, este não foi apenas mais um trabalho qualquer, de maneira alguma.

Existem paralelos entre Viola Liuzzo e você?

Existem, sim. Na verdade é até estranho, mas há muitos paralelos entre nós. Ela foi criada no Sul; mudou-se para Detroit mais tarde na vida e se casou. Ela teve a mesma origem sulina que eu. O que você está ouvindo aqui é meu sotaque de Pensacola se manifestando - é muito forte!

Antes de ser chamada para atuar em Selma, você se considerava uma pessoa politizada?

Vou ser franca com você: eu não era. Eu voto, e em alguns momentos já participei de trabalhos voluntários. Sempre fui uma pessoa voltada à comunidade. Mas eu não conhecia nossa história. Tenho vergonha de dizer isso, sendo que vivo no meio dela. Moro em Atlanta, entre a Hosea Williams Drive e a via expressa, e eu nem sabia quem foi Hosea Williams. Eu só sabia que era o nome da rua. Era um atalho. Isso me fez tomar consciência de que posso fazer mais, com certeza.

Houve indignação pública pelo que muitos consideram ter sido um descaso ou desprezo por parte da Academia em relação a Selma.

Não posso falar pelo elenco todo, mas eu escrevi e postei no meu blog minha visão pública do assunto, que é sem dúvida uma coisa que está na cabeça de todos. Quanto ao elenco, estamos seguindo o exemplo de Ava. Em todo lugar onde ela vai, em todo lugar onde ela fala ao público, ela fala com elegância e inteligência. Acho que procuro seguir o exemplo dela: ser grata pelas indicações que Selma recebeu.

Para mim, pessoalmente, a participação neste filme me lembrou que não devo ignorar o fato de que a raça é um problema. Quero dizer, a presidente da Academia é uma mulher negra. Não creio que ela tenha se esquecido disso. Não descrevo a omissão como um desprezo ou uma afronta, acho que foi uma oportunidade perdida, porque um ato de desprezo é cometido com intenção, e acho que esta omissão não foi intencional. Espero que não tenha sido. Para mim, foi uma oportunidade perdida.

É claro que é decepcionante e frustrante, porque, quando eu estava nas filmagens com Ava, me senti trabalhando com uma diretora premiada com o Oscar. O filme é digno de Oscar em todos os níveis, sem dúvida alguma. Ava levou o filme do roteiro à telona em menos de um ano, por US$20 milhões. E não estamos falando de algum romance de Nicholas Sparks, estamos falando de Martin Luther King, sobre quem nunca antes foi feito um longa-metragem. Selma foi uma realização enorme. Ava merece uma indicação, sem sombra de dúvida.

Em meu íntimo, estou com raiva e decepcionada. Não quero que o racismo seja um problema e sei que é - e isso me dá raiva cada vez que vejo uma instância de racismo. Se eu acho que esta omissão no Oscar é um exemplo disso? Não sei dizer; há muitos detalhes que desconheço. Por exemplo, ninguém achou que este filme chegaria a sair. O filme saiu à última hora para ser incluído na disputa do Oscar, e ninguém esperava que fizesse o sucesso que fez. Há inúmeros fatores envolvidos.

Mais uma observação sobre esta coisa do Oscar: é frustrante, mas deu muita publicidade ao filme. E Martin Luther King era estrategista. Esta estratégia pode funcionar, porque o país não está satisfeito.

O que você espera que resulte deste filme histórico?

Muitas coisas. Acho que o que Ava fez com Selma foi mudar as regras do jogo para os dramas históricos e para as histórias sobre pessoas de cor. Ela elevou os padrões. Vamos querer ver mais deste filme. Espero que Selma mude o cenário dos filmes "negros". Espero que sim, porque a arte é importante e acho que Ava promoveu uma mudança enorme no modo como o cinema é visto.

Torço para que algum dia não pensemos em indicações ao Oscar para filmes negros e filmes brancos, mas para filmes, nada mais. Tantas comunidades estão fazendo um esforço para garantir que seus estudantes vão assistir a Selma, então acho que, no longo prazo, o importante é despertar o interesse da geração mais jovem. Para contextualizar a história que ela aprende e lhe dar um ponto de referência de como encarar seu presente.

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