OPINIÃO
25/06/2014 09:53 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:52 -02

Os deuses devem estar loucos

YASUYOSHI CHIBA via Getty Images
Italy's goalkeeper and captain Gianluigi Buffon (R) is comforted by Uruguay's defender Martin Caceres at the end of a Group D football match between Italy and Uruguay at the Dunas Arena in Natal during the 2014 FIFA World Cup on June 24, 2014. Uruguay won 1-0. AFP PHOTO/ YASUYOSHI CHIBA (Photo credit should read YASUYOSHI CHIBA/AFP/Getty Images)

A batalha travada em Natal nesta terça (24) foi mais um indício de que os deuses do futebol devem estar muito loucos nesta Copa do Mundo. E não só. A bola vem premiando a perseverança. Se o empate conquistado graças à grande atuação de Buffon chancelava a classificação italiana às oitavas de final até os 35 minutos do segundo tempo, foi um gol da insistência (de um zagueiro!) que mudou tudo.

Alguns podem até dizer que o feito do uruguaio Godín resvalou no sobrenatural, que isto seria obra de algum fantasma, mas só a sua presença de espírito explica. Ele estava na área, esperando a oportunidade. Jogou-se na bola, de costas, e mal viu a trajetória dela, passando distante dos braços então intransponíveis do goleiro italiano de cinco Copas do Mundo. Aliás, já é hora de esquecer toda esta história de assombração. O herói de 1950, Alcides Ghiggia, está vivo e a seleção celeste idem.

Itália x Uruguai - melhores lances


Ou seria melhor dizer que ela teima em sobreviver? Posto que a Itália tinha a vantagem de dois resultados favoráveis, e Verratti, de 21 anos, e Pirlo, de 35, comandavam as ações no meio de campo e assentavam a poeira uruguaia, sim. E que Cavani e Suárez não conseguiam vencer a defesa azzurri e nem Buffon, também sim. Era clara a dificuldade. No mata-mata antecipado, pelas duas vitórias da Costa Rica do técnico Jorge Luis Pinto, o Uruguai morria lentamente.

Só que a história é assim desde 2010: Gana, Copa América 2011, classificação para a Copa de 2014 na repescagem, Inglaterra. A geração que recolocou o país no mapa do futebol superou as dificuldades aos poucos, em cada ocasião. E sempre com muito drama.

Voltemos, contudo, ao jogo da Arena das Dunas. Gritem, esperneiem, mas àquela altura Cesare Prandelli fez o mais recomendável ao substituir Balotelli. Já pendurado na partida com o cartão amarelo, e com seu estilo conhecido por adversários e pelo juiz, o atacante corria o risco de ser expulso e elevar à enésima potência o sofrimento italiano. Em vez dele, foi Marchisio quem seguiu para o chuveiro mais cedo.

O atleta da Juventus parecia ser ali o personagem principal de um ato dramatúrgico. Em Manaus, abriu o placar na vitória contra a Inglaterra com um golaço de fora da área. Na partida diante do Uruguai, deixou o time com dez jogadores, tornando as coisas ainda mais difíceis. O replay esclarece: o público tanto vê o corta-luz genial de Pirlo e o belo chute de Marchisio quanto a chegada do camisa 8, de sola, na canela do volante Arévalo Ríos. É a realidade, dirão alguns. Total exagero, falarão outros.

Amigos, a vida está aí, com imagens recuperadas e tudo (e há quem diga que futebol é apenas tática ou negócio).

A partir dali, aos 13 minutos do segundo tempo, o Uruguai de Tabárez se jogaria definitivamente ao ataque. Porém, sem as mudanças feitas pelo técnico, tanto antes quanto durante o campeonato, pouco seria possível à Celeste. Jogadores titulares em 2010 como os veteranos Lugano, Pérez e Forlán, craque do Mundial na África do Sul, deram lugar aos jovens Giménez e Lodeiro. E, da mesma forma, Cáceres se tornou uma peça importante na equipe.

Assim é que a Itália, ao querer jogar apenas com o regulamento embaixo do braço, sofreu o castigo uruguaio. Excluam-se as cenas de pastelão entre Suárez e Chiellini, em lance no qual os dois mereciam a expulsão, e a batalha de Natal foi eletrizante, cheia de reviravoltas, com zagueiro e até goleiro jogando no ataque.

Aos italianos sobrou a segunda eliminação seguida na primeira fase da Copa, obviamente um alerta vermelho para os comandantes do calcio. Ao Uruguai, foi mais uma sofrida classificação para sua história. A Copa brasileira, por fim, parece nos dizer e reafirmar somente uma coisa: não há qualquer garantia de sucesso prévio dentro das quatro linhas. Nenhuma mesmo. E os deuses do futebol se divertem.

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