OPINIÃO
27/12/2014 17:24 -02 | Atualizado 26/01/2017 21:36 -02

Os 5 filmes mais interessantes que vi em 2014

Lista é quase um sinônimo de idiossincrasia e esta aqui não escapa muito disso. Escolhi as cinco produções que mais me chamaram a atenção no ano.

Lista é quase um sinônimo de idiossincrasia e esta aqui não escapa muito disso. Para começar, escolhi as cinco produções que mais me chamaram a atenção no ano, tentando escapar um pouco do epíteto "melhores". Além disso, preferi seguir as datas de lançamento dos filmes nos cinemas brasileiros, o que talvez tenha tornado os critérios mais excêntricos ainda.

De qualquer forma, seja pelas nuances dos roteiros, seja pelos temas levantados nas cenas, estes foram meus longas-metragens preferidos em 2014. Só deixei de fora mesmo o "Inside Llewyn Davis", pois já havia demonstrado admiração por ele num texto no próprio Brasil Post. Agora, leitor, encerro o blá-blá-blá preliminar. Eis a lista:

"Amantes Eternos", de Jim Jarmusch

O filme que nos apresenta o casal Adam e Eve, juntos há centenas de anos, não é só uma fantasia sobre vampiros maduros no século 21. Mesmo que seus melhores amigos já tenham morrido, suas cidades definhem (principalmente Detroit, nos EUA, onde ele mora; ela vive em Tânger, no Marrocos) e os dias mais pareçam um 7 a 1 interminável, a principal questão aqui é sobreviver. Pode ser um paradoxo para os personagens interpretados por Tom Hiddleston e Tilda Swinton, cujas desventuras da eternidade alimentam seu desajuste, mas a luta deles em seguir e encontrar algum sentido na existência ainda é a bússola. Cada bolsa de sangue conseguida e cada minuto vencido na noite faz refletir a respeito da vida e - estranhamente? - nos encanta. Afinal, também o horror caminha lado a lado com nossa persistência diária.

"Ela", de Spike Jonze

Num futuro próximo, ninguém escreve as próprias cartas, o homem está ainda mais solitário nas grandes cidades e a vida real se confunde de vez com o virtual. Entre a comédia e o drama, o conto criado pelo diretor de "Quero Ser John Malcovich" exacerba a era dos smartphones e dos pixels e nos dá um relato pungente a respeito de tecnologia e relações sociais. Se o fato de Theodore (vivido por Joaquin Phoenix) não conseguir se entender com uma mulher interpretada por Olivia Wilde e acabar se apaixonando por um sistema operacional, com a voz de Scarlett Johansson, provoca risos, também deixa uma velha dúvida no ar. Estariam as máquinas caminhando para dominar o mundo ou mesmo substituir o contato humano? Longe de qualquer delírio apocalíptico, a história se utiliza do maior dos sentimentos para debater um dos pontos centrais de nosso tempo.

"A Farra do Circo", de Roberto Berliner e Pedro Bronz

A história do Circo Voador contada por seus protagonistas. Conhecemos aqui a farra e o lugar vitais para o cenário cultural e artístico nascido na época em que o país sonhava com uma nova era, ainda em pleno regime militar, e impulsionado depois pelos ventos da democracia. Surgem na tela, assim, shows do incipiente Barão Vermelho e do grupo Asdrubal Trouxe o Trombone, dos jovens Luiz Fernando Guimarães e Regina Casé, além de imagens do espaço sendo utilizado para cursos infantis ou como sede de um sarau de poetas brasileiros. Mas o documentário não mescla cenas de arquivo a depoimentos atuais de quem viveu o período; o material gravado pelo próprio Berliner na década de 1980 é que nos relata de maneira bruta e direta aquela fase. Uma joia tanto para quem quer apenas relembrar quanto para os que só imaginavam (e gostariam de saber) como era tal ambiente.

"Boyhood: Da Infância à Juventude", de Richard Linklater

Sim, é a montanha-russa que chamamos de vida aos olhos de um garoto. Gravado durante 12 anos, e acompanhando de propósito o envelhecimento dos atores e a evolução cultural e tecnológica do período, o filme mostra de que forma Mason (Ellar Coltrane) e sua irmã Samantha (Lorelei Linklater) descobrem o significado de crescer. Do imaginar como a natureza age a tentar compreender o que seria exatamente o amor, passando ainda pela reflexão de que os Beatles eram uma máquina com quatro engrenagens vitais para seu funcionamento, toda uma visão de mundo é transformada num cinema peculiar, de uma só vez sensível e pesado. As quase três horas de duração da obra focam o transcorrer do tempo, mas também nos jogam diante de questões universais. De que maneira um pai fala de sexo com os filhos ou por que pessoas muito próximas a nós podem se distanciar tanto de uma hora para a outra emergem aqui recheadas de delicadeza - e sem nada soar chato.

"Relatos Selvagens", de Damián Szifrón

Muitas vezes considerada desprezível, a vingança é o fio condutor desta pequena pérola do cinema argentino, seguindo assim uma tradição do faroeste, da blaxploitation, de filmes de Quentin Tarantino. Nesta compilação de seis episódios, porém, ela é algo maior do que o ato da desforra: diante da telona, damos de cara com o homem dobrando a esquina da selvageria e do extremo, sem nem ao menos olhar para trás. Do hilário ao desesperador, e cheio de cenas bizarras, o longa é um lembrete da faísca destruidora que a qualquer momento pode surgir dentro de cada um de nós. Escrito pelo próprio diretor, o roteiro muito bem construído só aumenta a sensação de terror. Além de convincentes, personagens desequilibrados, como o ex-estudante de música clássica Gabriel Pasternak, e situações loucas e totalmente plausíveis, vide a história do pai que tenta salvar o filho da cadeia fazendo proposta milionária a um caseiro, vertem violência física e psicológica num formidável exercício de autoironia humana.