OPINIÃO
31/03/2014 11:16 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:16 -02

Eu, você e Llewyn Davis

Artista fictício da cena folk norte-americana dos anos 1960, Llewyn Davis é o cantor que os irmãos Ethan e Joel Coen criaram para seu último filme. Mais do que retratar uma época, um estilo de música ou tentar exemplificar o fracasso em pessoa, porém, "Inside Llewyn Davis" (que aqui ganhou o subtítulo "Balada de Um Homem Comum") é sobre as voltas que a vida dá.

É sobre mim e sobre você, leitor.

Apesar de nos mostrar a história de um músico, o que já poderia fazer pensar em palavras como glamour, a maioria das situações projetadas na tela é bem comum. Provavelmente, o charme de Hollywood e do cinema torne um pouco mais "cool" os dramas do personagem principal, sim, mas não menos verídicos. As oportunidades, a falta delas, as portas que fecham (literalmente com a gente do lado de fora), os questionamentos sobre o que poderia ter sido... Está tudo aí no dia a dia. Seja no seu, no do amigo ou no do vizinho.

Óbvio que é um conto a respeito de um artista em conflito com o mundo e consigo mesmo. Só que a trajetória do homem, sua voz e seu violão, é tão parecida com nossos encontros e desencontros diários que encanta e nos torna mais próximos dele (e se você não tiver assistido ao filme ainda, talvez seja melhor parar de ler aqui). Há comédia, drama, acaso, emoção.

Assim como um herói errante que trocou La Mancha por Greenwich Village, em Nova York, ele poderia conhecer Bob Dylan, Peter, Paul and Mary ou Joan Baez, mas não o faz. Os moinhos de vento o empurram em outra direção: para o underground, os sofás sujos, as pequenas humilhações.

Ok, isso é parte de um amadurecimento natural - como me disse um colega de trabalho, "é quebrando a cabeça que se aprende". Mas a estes tropeços soma-se outro elemento: o anticlímax.

A cena na qual Llewyn interpreta uma canção sua para o empresário Bud Grossman é ao mesmo tempo belíssima e amarga. Ter uma recepção um tanto fria e ouvir um "não vejo muito dinheiro nisso", após viajar de Nova York a Chicago, não é o desfecho esperado para história alguma. E não se trata de pessimismo ou melancolia jorrando da tela. Pode acontecer a qualquer um.

Quantas vezes passamos pela entrevista que não dá certo, ouvimos a resposta "amizade" ao invés de "namoro" ou, ao contrário do que tudo parece indicar, o dia produtivo termina com uma grande dúvida? É a vida, pessoal. Com o passar do tempo, ela vai nos mostrando cada vez mais que seguir dobrando as esquinas é a única saída.

E as janelas que se abrem na próxima rua são insondáveis. Pois se num momento de quase desapego à música, Llewyn não consegue nem embarcar no navio da Marinha Mercante por ter perdido a licença para tal, o sonho volta ao palco com a ajuda de quem menos se espera. Surge do nada o marido de uma artista ridicularizada por ele em um show.

As imagens seguintes à sua apresentação no velho e conhecido clube são como as pedras do cotidiano que podem rolar por aí a qualquer momento. Misturam euforia, dor, o fortuito e aquela súbita sabedoria de quem percebeu que as coisas mudam de uma hora pra outra.

Encarnado pelo ator Oscar Isaac, Llewyn é um herói à margem de quase tudo. Olhando-o mais de perto, contudo, ele se parece muito mais com o nosso dia a dia do que imaginamos.