OPINIÃO
21/11/2014 11:34 -02 | Atualizado 26/01/2017 21:52 -02

Quando um burro fala, os outros abaixam a orelha

Quando eu era mais novo, uma professora minha costumava dizer a seguinte frase "Quando um burro fala, os outros abaixam a orelha". Isso significava que quando ela ou um colega falavam, era preciso prestar atenção, sem ficar interrompendo. De outro modo, todos os burros relinchariam juntos e ninguém aprenderia nada. Continuaríamos burros.

Quando eu era mais novo, uma professora minha costumava dizer a seguinte frase "Quando um burro fala, os outros abaixam a orelha". Isso significava que quando ela ou um colega falavam, era preciso prestar atenção, sem ficar interrompendo. De outro modo, todos os burros relinchariam juntos e ninguém aprenderia nada. Continuaríamos burros.

Hoje estava navegando pelas redes sociais quando me deparei com duas postagens que me fizeram lembrar dessa antiga professora. Uma era sobre a manifestação de apoio do "mulatólogo" Julio Cesar ao autor Miguel Falabella, autor da série "Sexo e as Negas", que é apontada como racista e machista por diversas ativistas e blogueiras negras. A outra postagem foi de uma ativista chamada Daniela Andrade, que defende os direitos de travestis e transexuais, na qual contava que algumas pessoas estavam dizendo que ela era feminista radical, porque ela estava atacando o machismo em suas falas. Nos dois casos, há exatamente a mesma situação: o não-oprimido deslegitimando a fala do oprimido sobre opressão. E com "não-oprimido" eu quero dizer "opressor" ou "opressor em potencial". No caso de "O Sexo e as Negas", há um mulatólogo, cuja profissão tem total relação com um sistema de objetificação da mulher negra, dizendo que uma mulher negra (a blogueira Charô Nunes) não é apta a acusar ninguém de racismo ou machismo. No caso da Daniela, um homem dizendo para uma mulher que ela está exagerando quando fala de machismo.

Por muito tempo na minha vida eu batia o pé quando entrava em qualquer discussão, mesmo sabendo que a outra pessoa tinha mais vivência do que eu (ou quando eu não tinha vivência nenhuma em determinados assuntos), mas hoje, como ativista LGBT*, percebo que muito do que eu achava que entendia estava muito além do que qualquer texto da Wikipédia poderia ensinar. Achava que por ser gay, tinha autoridade pra falar sobre qualquer assunto relacionado à sigla LGBT*, mas a vida me fez quebrar a cara várias vezes. Sabe como? Quando eu comecei a escutar as outras vozes. Eu jamais tive a capacidade de compreender, mesmo que superficialmente, a situação das lésbicas sem ouvir da boca das lésbicas. Nunca compreendi a situação de travestis e transexuais antes de ouvir da boca de travestis e transexuais.E assim numa fila interminável que não só dizia respeito ao pessoal que compunha as letras da sigla, mas em vários outros aspectos da vida.

Aprendo muito lendo blogs como o Gorda e Sapatão, da ativista Jéssica Hipólito. Aprendo muito lendo o Portal Geledés ou o site Blogueiras Negras. E eu não preciso ser gorda, ser sapatão ou ser negra para aprender. Só preciso abaixar a minha orelha e deixar que os outros burros falem.

Acho que o que eu vi hoje me fez refletir bastante sobre essa guerra que as redes sociais ajudam a propagar, onde lutamos ferozmente para saber quem está mais certo. E falta humildade para escutar quando o outro fala.

Não estou dizendo que o feminismo ou o movimento negro estarão sempre certos em tudo aquilo que apontarem, ou que devem estar no pedestal dos intocáveis, porque mesmo dentro desses movimentos há muitas discussões e debates apoiados em várias linhas de pensamento divergentes. O que estou dizendo é que eu, como homem, jamais saberei exatamente como o machismo atinge a mulher. Eu, como branco, jamais saberei exatamente como o racismo atinge a negra e o homem negro. Então por que insistir só para satisfazer o desejo (ou a ilusão) de estar certo? Cabe à mim ter humildade e abaixar minhas orelhas e escutá-los, refletir sobre os aspectos que podem estar fazendo com que eles se sintam oprimidos e tentar mudar aquilo que eu puder mudar.

Por enquanto o que eu vejo na internet não é isso. O que eu vejo é minha velha sala da quinta série, cheia de gente que achava que sabia de tudo falando ao mesmo tempo, sem ninguém aprender nada.

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