OPINIÃO
10/02/2014 15:05 -02 | Atualizado 26/01/2017 20:51 -02

O 'milagre brasileiro' enfrenta problemas

Sobre as causas da agitação social. O desaquecimento da economia brasileira não se deve unicamente a fatores externos, como a redução da demanda da China e Europa.

Fatores internos também desempenham um papel. Após uma reação inicial positiva às políticas governamentais anticíclicas, com a ampliação do crédito e do consumo, viu-se uma dependência excessiva da capacidade dessas políticas de promover crescimento, somada a uma falta de investimentos pontuais em infraestrutura.

Houve também propaganda excessiva em torno da emergência das chamadas "novas classes médias", além de um excesso de incentivos fiscais públicos para promover o consumo. A inflação anual pequena, mas persistente de 6%, e as restrições consequentes ao crédito, com a elevação das taxas de juros, geraram uma mudança no clima econômico geral, que passou do otimismo irrestrito para a preocupação com o baixo crescimento e o aumento do custo de vida.

Ligada à forte reação pública contra a corrupção ampla, e desencadeada por ela, essa mudança nas expectativas da população explica a rapidez com que a onda de protestos se espalhou viralmente pela internet e levou a maciços protestos nas ruas.

A Copa do Mundo como símbolo de desperdício. A onda de protestos foi desencadeada pelo desperdício de verbas públicas nos preparativos para a Copa do Mundo de 2014. Mas os protestos expressam um sentimento de insatisfação mais profundo. As pessoas estão fartas da corrupção e impunidade. Querem serviços públicos melhores, especialmente na saúde, na educação e nos transportes públicos. Além disso, querem participar e estão pedindo reformas institucionais. A imensa maioria dos manifestantes foi pacífica. Contudo, uma minoria de grupos radicais, pequena mas destacada e agressiva, como os chamados Black Blocs, com seus símbolos anarquistas e comportamentos destrutivos, vem recorrendo ao uso sistemático da violência como maneira de desacreditar todas e quaisquer instituições públicas.

A classe média em ascensão quer prestação de contas. Existe certa dissonância cognitiva entre a realidade rósea proclamada pelo governo e o cotidiano vivenciado pelos grupos cuja renda aumentou. Consequentemente, as pessoas estão pedindo mais participação e uma melhor qualidade de vida. É verdade que isso dá lugar a uma crise de legitimidade das instituições políticas, mas a democracia não está em questão nem em risco. Muito pelo contrário. As pessoas pedem mais liberdade e igualdade, que são valores democráticos essenciais.

O Brasil de fato possui instituições democráticas e eleições justas, mas não podemos dizer que as instituições públicas realmente prestem conta de suas ações. Além da corrupção onipresente, o sistema proporcional de eleição dos deputados e senadores é inadequado para a realidade do Brasil urbano contemporâneo e, na verdade, amplia a distância entre eleitores e seus representantes eleitos.

Entre o demos e a res publica. Nosso desafio é lançar uma ponte entre o demos e a res publica, entre o povo e o interesse público. Ou as instituições democráticas propiciam uma participação mais substantiva no processo deliberativo, possibilitando aos representantes políticos recuperarem legitimidade, ao ouvir e interagir com cidadãos e eleitores, ou a crise vai persistir e as instituições vão perder legitimidade e eficiência. Vem daí o desafio apresentado a todos nós, líderes políticos, artistas, inovadores, cientistas e cidadãos comuns que se preocupam com a liberdade, de tecer novamente os fios institucionais que poderão religar o sistema político com as demandas de uma sociedade informada e participativa.

(Artigo publicado originalmente em inglês para o lançamento do The WorldPost)