OPINIÃO
15/06/2018 15:42 -03 | Atualizado 15/06/2018 15:42 -03

Anthony Bourdain, o amigo que nunca conheci

Ele estava no desbravar do desconhecido, no olhar apurado e na sensibilidade para absorver a essência dos lugares e convertê-los em textos, fotos e vídeos.

O chef Anthony Bourdain é apresentado como "explorador da vida" por articulista.
Getty Images for The New Yorker
O chef Anthony Bourdain é apresentado como "explorador da vida" por articulista.

Quando penso em viajar um dos primeiros nomes que me vem à cabeça: Anthony Bourdain. Quantas vezes viajei com o Anthony sem sair do lugar, outras viajei imaginando qual seria o olhar dele sobre aquela situação.

Anthony tinha um jeito único de viajar, nada tradicional. Ele não se enquadrava nos escritórios fechados ou nas reuniões sem norte. Ele estava nos botecos da esquina, nas conversas fiadas, no desbravar do desconhecido, no olhar apurado e na sensibilidade para absorver a essência dos lugares e convertê-los em textos, fotos e vídeos. Ele traduzia sabores e aromas em imagens.

Anthony era muito mais do que o "bad boy" da culinária, era um explorador da vida, encarava cada experiência de coração aberto. Essa humildade inspirou milhares de viajantes. A conversa sempre iniciava de forma despretensiosa: "o que você come?". Uma simples pergunta que abre portas para um universo inteiro, de histórias da estrada às histórias da vida.

As respostas abriam oportunidades para outras conversas, outras viagens. Lembro-me de um episódio do Sem reservas, que assisti sobre uma ida dele à África. Anthony, ao se deparar com a miséria, não conseguiu falar sobre a culinária local, porque o que havia ali era fome extrema.

Na tentativa de ajudar a comunidade local, comprou toda a comida de uma senhora que vendia refeições. O que era uma boa intenção se tornou um caos. As pessoas começaram a brigar por comida. Às vezes sabemos muito sobre comida, mas não sabemos sobre a fome.

Muitas pessoas questionam por que ele se suicidou. Viajar, muitas vezes, é também um ato solitário que nos leva ao desconhecido, para um lugar em que o mundo de dentro é muito maior do que o de fora.

Não há certo ou errado, não há verdade absoluta. Por vezes é difícil achar palavras para aquilo que temos diante dos nossos olhos, nos faltam palavras para traduzir a experiência do arrebatamento.

Essas cidades desconhecidas e esquecidas existem dentro e fora de nós. Por mais que queiramos explorar, muitas vezes não conseguimos investigar nós mesmos. Às vezes desejamos voltar para essas cidades; outras, queremos apagá-las da memória.

Obrigada, Thony, por me apresentar o mundo com um novo olhar.

"Quero viver muitos anos.

Sim, eu quero.

Mas não a qualquer preço.

Quero viver enquanto estiver acesa, em mim,

a capacidade de me comover diante da beleza".

Rubem Alves, As cores do crepúsculo

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