OPINIÃO
29/04/2015 16:18 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:02 -02

Por que 'Orange is the New Black' é uma série feminista?

As mulheres são assumidamente o foco do programa e elas são representadas das mais diversas maneiras. Temos mulheres negras, trans, gordas, velhas, latinas, lésbicas, mulheres que são doidas para casar, outras que são apaixonadas pelas melhores amigas, mulheres que já têm netos e outras que nem sonham em ter filhos. A pluralidade de OITNB é seu maior triunfo.

Está chegando! A terceira temporada de Orange is the New Black será lançada mundialmente em 12 de junho e a gente preparou uma lista de 10 motivos para essa ser uma das melhores e mais empoderadoras séries da atualidade <3

1. Representatividade

As mulheres são assumidamente o foco do programa e elas são representadas das mais diversas maneiras. Temos mulheres negras, trans, gordas, velhas, latinas, lésbicas, mulheres que são doidas para casar, outras que são apaixonadas pelas melhores amigas, mulheres que já têm netos e outras que nem sonham em ter filhos. A pluralidade de OITNB é seu maior triunfo.

*Com um elenco majoritariamente feminino, OITNB vai na contra mão de boa parte da indústria e, nesta terceira temporada, já anunciou que reduziu o número do seu (já modesto) elenco masculino - Pornstache e o ex-noivo de Piper não voltarão neste novo ano (YAAAAAY).

2. Personagens bem construídas

Uma série que faz com que o teste Bechdel pareça uma piada não pode ser subestimada. Uma das coisas mais atraentes em OITNB, e principal motivo para as pessoas continuarem assistindo ao programa, é a construção das personagens.

Rápida em absorver as "tendências" do público, Hollywood já criou o imaginário do que é uma personagem feminina forte: uma mulher independente, moralmente imaculada e inabalável. "Orange is the New Black", por outro lado, nos dá um leque muito maior de garotas que nos mostram que uma personagem forte não é sempre uma personagem imbatível. Muito pelo contrário, todas as mulheres da série têm suas fraquezas e seus defeitos. É Piper quem sintetiza melhor a grandeza e simplicidade dessas personagens. No final da primeira temporada, enquanto conversa com seu então noivo, ela diz: "Elas são apenas mulheres que estão tentando fazer o seu melhor".

Na TV americana, personagens masculinos têm o privilégio de poderem ser ambíguos e, mesmo assim, terem o apoio do público (Walter White, de "Breaking Bad", é o maior exemplo disso). Mas as mulheres normalmente são julgadas por uma via mais moralista e dicotômica: ou somos más ou somos boas. Ambas as índoles são retratadas como características inerentes da mulher sem necessariamente ter uma explicação. "Orange is the New Black" inverte essa lógica e nos dá personagens multidimensionais de quem gostamos, compreendemos e defendemos.

3. Relacionamentos

4. Perspectiva feminina

A série segue a trajetória de Piper Chapman, mulher que é presa por tráfico internacional de drogas. A história é contada sob a perspectiva dela e, por esta simples escolha narrativa, já se diferencia de diversos programas que conhecemos.

O fato de a protagonista ser uma mulher branca e de classe alta, no entanto, é um dos pontos mais criticados pela mídia alternativa americana. Em entrevista ao NPR, Jenji Kohan, criadora da série, falou:

"De diversas formas, Piper era meu cavalo de Troia. Você não consegue chegar até um canal e vender uma série que conta histórias fascinantes de negras, ou latinas, ou idosas e criminosas. Mas, se você levar uma garota branca, uma espécie de peixe fora d'agua (na prisão), e seguir a trajetória dela, você pode expandir esse mundo e contar todas as outras histórias também. Mas é um projeto difícil de se vender se você simplesmente quiser contar essas histórias. A garota que parece uma pessoa comum, a 'loira legal', é um ponto de partida muito fácil de ser trabalhado, e que consegue conversar com grande parte da audiência que esses canais procuram. É útil".

5. Empatia

Parece bobo, mas o simples fato da série tentar estabelecer uma espécie de simpatia entre as personagens e o público já faz grande diferença. Por conhecermos o passado das presidiárias, nossa relação com elas se estreita e conseguimos criar uma empatia por essas mulheres. Não que OITNB não coloque à prova nossa lealdade (foi difícil, por exemplo, continuar defendendo a Suzanne e a Taystee na segunda temporada), mas podemos entender as ações que elas tomam - suas atitudes não são simplesmente jogadas em nossas caras, existe toda uma lógica por detrás delas. OITNB mostra as histórias dessas mulheres sem ter um tom acusador ou vexatório. As vidas delas são contadas em narrativas verticais, acompanhadas de flashbacks, que não as subestimam os as tornam unilaterais.

*A única personagem, na minha opinião, que foi criada deliberadamente como alguém mau foi a finada Vee, que aparece no começo do segundo ano e logo estabelece seu lugar na série. Entretanto, até mesmo essa dinâmica da personagem foi construída de forma interessante: as atitudes delas não são caricaturais ou seu passado desconhecido - muito pelo contrário, Vee está presente na maioria dos flashbacks. Essa alcunha de manipuladora e a falta de empatia por parte do público acontecem por Vee ser retratada como uma pessoa má (ou seja: dentro das escolhas que pode seguir, segue caminhos ~~tortuosos~~).

6. Lugares comuns

OITNB é uma série inovadora em VÁRIOS aspectos e subverte diversas lógicas do sistema americano. Porém, ela não foge de alguns lugares comuns. No seu cerne, a série se galga em vários estereótipos, a começar pelo ambiente carcerário. Daya, grávida de um policial e presa junto a sua mãe e parte de sua família, é a caricatura do que o imaginário americano espera de uma mulher latina.

Um estudo feito em 2014 pela Universidade de Columbia mostrou que 24,2% dos já escassos papéis destinados à pessoas latinas estão ligados ao mundo do crime.

Aliás, esse estudo, basicamente, chegou à conclusão de que latinos eram mais representados nas telas nos anos 50 do que nos dias de hoje. Em 2014 eles se tornaram cerca de 17% da população americana e não tiveram nenhum ator ou atriz protagonista nos 10 maiores filmes do ano, ao passo que, na década de 1950, eram 2,8% da população do país e 1,5% dos papéis principais eram deles.

Taystee também é fortemente construída num estereótipos americano sobre mulheres negras, as chamadas sassy black women, que são basicamente mulheres negras retratadas como "barraqueiras", sarcásticas e briguentas.

No entanto, a forma como as narrativas dessas personagens são escritas é que faz toda a diferença: continuando nos dois exemplos que dei acima, apesar de se enquadrarem em alguns estereótipos, Daya e Taystee subvertem as ideias românticas e sexuais hollywoodianas sobre mulheres gordas, por exemplo. Daya desafia essa lógica ao formar casal com o agente Bennett (que em qualquer outro programa se apaixonaria por uma personagem magra); e Taystee, ao recusar o amor (imagina só, uma gorda r e c u s a r um relacionamento) de Poussey.

A presença desses lugares comuns também pode ser justificada pelo leque maior de representação de várias minorias que encontramos em Orange, que faz com que a realidade de uma detenta específica não se torne, automaticamente, a representação de toda a classe a qual ela pertence.

7. Feita por mulheres

A série se baseia no livro de mesmo nome da americana Piper Kerman. A responsável por adaptar a obra para as telas também é uma mulher (a já citada Jenji Kohan). Jodie Foster dirigiu um episódio da primeira temporada. O elenco principal da série conta com 14 mulheres. Grande parte da produção e edição do projeto também é feito por mulheres. Estou aqui jogando apenas alguns fatos para a gente entender como tudo isso funciona. Agora faz sentido, né? Gente, vamos apoiar as minas <3

8. Já causou a fúria dos críticos americanos

Em junho de 2014, logo após o lançamento da segunda temporada, o jornal americano "The Atlantic" publicou uma longa crítica falando sobre as razões que OITNB tinha para retratar homens nas suas histórias. Apesar de não ser infundada - afinal, a maioria da população carcerária norte-americana é composta por homens -, o artigo esquece o ambiente que a série se passa: uma penitenciária feminina. Tendo este o seu cenário principal, é difícil pedir que OITNB retrate o problema carcerário masculino americano pelo simples fato de isso não ser proposto pelo show.

O artigo continua falando das formas estereotipadas que homens são representados na série, por serem usados como fantoches na evolução das histórias femininas. E não é possível não enxergarmos uma certa ironia nisso tudo: não é isso o que vem acontecendo durante anos na história da televisão? Personagens femininas que são escritas apenas para desenvolver o drama masculino é uma artimanha tão comum que tem até nome no universo hollywoodiano: Disposable Women. Parece que, quando somos nós, a crítica tradicional não vê nenhum problema nessa representação. Como dizem, o mundo dá voltas, não é mesmo?

9. 101

Um dos maiores trunfos de OITNB é a capacidade que a série tem de introduzir temáticas feministas sem dizer com todas as letras S O M O S F E M I N I S T A S (o que seria ótimo, mas que poderia causar estranhamento em parte da audiência), é uma ótima introdução ao movimento.

Ao invés de dissecar as histórias e dar ao público uma aula fechada do que é feminismo e porque ele é importante, a série faz com que o expectador torça por aquelas mulheres e chegue a conclusão de que tal coisa é certa ou errada por "x" motivos. Como já abordei nos pontos acima, a nossa empatia com as personagens faz com que possamos entender os dilemas pelos quais elas passam e garante que quem assista reflita sobre esses mesmos problemas (que, muitas vezes, são entrelaçados a questões do movimento feminista).

OITNB se difere de outras séries protagonizadas por mulheres, como "Sex and the City", por não mostrar o ambiente ideal, a beleza ideal, os problemas ideais que uma mulher deve ter (sexo e homens). "Orange is the new Black" é, de muitas formas, uma série crua, feia, difícil de se digerir, que faz com que enxerguemos a vida de classes marginalizadas com uma visão totalmente desprovida de qualquer glamour.

10. O efeito OITNB

Dentro e fora das telas, OITNB tem aberto algumas portas de Hollywood para que minorias da sociedade americana possam passar. Após terem percebido a grande popularidade que a série obteve, redes de TVs americanas começaram a se esforçar para retratar também a vida dessas minorias. Em 2013/2014, a ABC colocou em sua grade séries como "How to Get Away with Murder", "Black-ish", "Cristela" e "Fresh off the Boat" - em adição à já consagrada "Scandal" -, e se tornou uma das pioneiras nos chamados "diversity shows".

Outras canais, como Fox e CW, também investiram neste nicho com "Empire" e "Jane the Virgin", respectivamente, com bastante sucesso (a Gina Rodriguez, protagonista maravilhosa de JTV ganhou o Golden Globe de melhor atriz de comédia em 2015 e fez um discurso incrível).

P.S: Foi difícil fazer essa lista porque a série trata de muitos temas maravilhosos e que precisam ser debatidos, então, por favor, assista <3

Publicado originalmente no Festival Marginal.

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