OPINIÃO
19/05/2015 17:58 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:12 -02

Mad Max: filme de ação é coisa de mulher, sim!

Mad Max é um filme de ação com uma protagonista mulher, sem par romântico, que é forte, badass, complexa e corajosa. Furiosa foi criada e é fruto de uma sociedade feminina, e todas as suas características foram ensinadas a ela por outras mulheres.

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Mad Max: Fury Road chegou aos cinemas do mundo todo no último dia 15 e, apenas no final de semana de estreia, já conseguiu 98% de aprovação no Rotten Tomatoes, mais de 50 milhões de dólares em bilheteria americana, possíveis indicações ao Oscar e a fúria de alguns ativistas de "direito dos homens" dos Estados Unidos.

Fury Road é o quarto da série Mad Max (isso, a dos anos 1980) e conta a história de uma sociedade pós-apocalíptica sem água que resumiu seus cidadãos a objetos de troca cujo valor depende somente de sua utilidade. Em poucas palavras, a premissa da história é a de Max (Tom Hardy) se juntando à Furiosa, interpretada por Charlize Theron, no meio de uma guerra para salvar um determinado grupo de pessoas. A adaptação tem muitos tiros, carros se despedaçando, efeitos sonoros e cenas extensas de luta.

Seria um típico filme de ação, se Furiosa não fosse uma mulher e se o grupo que estivesse tentando salvar não fosse composto apenas por personagens de sexo feminino. Explicando melhor, e talvez aqui você entenda o porquê de tanta polêmica, a personagem de Theron vive numa sociedade completamente tomada por homens que da forma mais literal possível objetifica e escraviza todas as mulheres (repare aqui já no plot feminista subversivo!!!!11!1!).

Furiosa é uma mulher parcialmente transformada em robô, careca e com um braço biônico, que está tentando libertar algumas mulheres que foram escolhidas para serem esposas de Immortan Joe, o vilão. O filme tem diversas personagens femininas, das mais variadas idades (é sério, a Keeper of the Seeds, por exemplo, é interpretada pela Melissa Jaffer, uma atriz australiana com quase 80 anos) - todas com falas e nenhuma delas conversando sobre possíveis parceiros românticos.

Isso mesmo. Basicamente, a principal crítica, que deu até em campanha por boicote ao filme,  é que ele é "feminista demais" e dá muito espaço para mulheres, ao passo que homens são apenas coadjuvantes (o que é verdade, o próprio Max é quase monossilábico ao longo de toda a trama). 

O filme não é o primeiro a sofrer com esse tipo de crítica - em 2013 já tivemos Frozen, e, mais recentemente, Como treinar o Seu Dragão II. Mas essas outras obras sempre acabaram rotuladas como "filmes para garotas". Mad Max, por outro lado, com suas correrias e explosões, é em todo o seu conceito "para homens" (ou pelo menos o que a indústria acha que é ser feito para eles).

Seu pioneirismo se dá justamente pelo gênero em que ele está classificado. Um filme de ação com uma protagonista mulher, sem par romântico, que é forte, badass, complexa e corajosa. E uma personagem que não está sozinha. Furiosa foi criada e é fruto de uma sociedade feminina, e todas as suas características foram ensinadas a ela por outras mulheres. Furiosa não sai por aí matando por causa de algum homem, nem nenhuma de suas motivações se dá por conta deles (não perdeu marido nem filho nem pai e agora quer vingança, por exemplo). Ela não segue estereótipos de gênero e nem é o que a sociedade (nossa e dela) espera que uma mulher seja. Furiosa não se subjuga a figuras masculinas. Todas as suas razões de ser e estar envolvem mulheres. Ela existe apenas por e para outras mulheres.

Apesar de George Miller encabeçar o projeto, o trabalho (bem sucedido) de representação feminina se deve muito a quem o ajudou nos bastidores. Eve Ensler, autora de Os Monólogos da Vagina,  colaborou com o diretor e produtor no roteiro, e se encontrou com as atrizes durante as gravações. "Foi uma experiência maravilhosa para mim", disse Ensler, que já trabalhou com vítimas de violência e tráfico sexual no Haiti, Bósnia, Japão e outros países. "Foi uma honra conversar com essas atrizes maravilhosas e falar de problemas como como se sente uma mulher que está carregando o bebê de um homem que a estuprou (no caso, a personagem de Rosie Huntington-Whiteley) ou o que significa ser sequestrada e mantida em cativeiro por alguem que está te usando e te estuprando constantemente. Apesar de se tratar de uma era pós-apocalíptica, me parece que este mundo já existe. Há muitas pessoas vivendo essas histórias".

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"Sinto que as mulheres tem sido tão mal representadas nos filmes de ação. Por que nós temos sempre que ver nesse gênero a mulher aparecendo ao fundo da cena usando lingerie? Por que não há uma menina que está de pé no mesmo campo de jogo com os caras?", disse Theron em entrevista ao Hollywood Reporter. Felizmente, Furiosa, Toast, Splendid e todas as outras mulheres (maravilhosas) de Mad Max: Fury Road, nos mostram que é possível, sim, um filme de ação americano se focar e depender pesadamente de suas personagens femininas que não são resumidas a narrativas centradas em homens (Joss Whedon, estou olhando para você) e estourar nas bilheterias.

OBS: E nem vale dizer que foi um fracasso porque não é o número 1 em bilheteria nos Estados Unidos, porque Fury Road foi desbancado por outro filme com um monte de mulher: a sequência de A Escolha Perfeita! E ah, no Brasil, ele já estreou ultrapassando Os Vingadores. OU SEJA, ESTAMOS DOMINANDO O MUNDO MESMO, FIQUEM ESPERTOS!

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