OPINIÃO
07/12/2015 21:12 -02 | Atualizado 26/01/2017 22:34 -02

Jessica Jones, Supergirl e a eterna rixa entre mulheres

O enfoque que Jessica Jones dá à sua protagonista é completamente diferente do de Supergirl: enquanto a primeira se foca no processo difícil e desgastante que sua personagem principal passa para se recuperar do trauma de um relacionamento extremamente abusivo, a outra nos mostra de um jeito leve e despretensioso como lidar com problemas do dia a dia.

Acostumado com fatores como o endeusamento dos heróis masculinos (por mais falhos que sejam), representações femininas mal feitas e objetificação das poucas heroínas de destaque, nos últimos meses o público nerd tem sido obrigado a digerir dois roteiros que vão de encontro ao status quo do machismo na cultura pop.

Se a Mulher-Gato ainda é mal representada pela DC nos cinemas, e o MCU ainda trata a Viúva Negra como mero plot device a serviço de Bruce Banner, as séries Supergirl e Jessica Jones surgiram para trazer fôlego a um gênero saturado que respira com ajuda de aparelhos.

Supergirl estreou em outubro nos EUA pela CBS e, até pouco tempo atrás, era certeza de que seria renovada. Contando a história da prima mais nova do Super-homem, o programa recebeu críticas positivas e tem um índice de audiência bom o suficiente para mantê-la no ar por, pelo menos, mais um ano.

Paralelo a isso, no último dia 20 de novembro, a Netflix lançou seu mais novo projeto, fruto da parceria com a Marvel: Jessica Jones. Essa série mostra a história de Jessica, uma mulher com superpoderes que passou meses de sua vida sob as garras de Kilgrave (que tem como poder controlar mentes).

A série, de forma muito clara, mostra a dinâmica de relacionamentos abusivos e vem arrancando elogios de boa parte da imprensa.

O que essas séries têm em comum? Nada muito além do fato de serem baseadas em quadrinhos e terem como personagem principal mulheres - mas isso não impediu que muita gente comparasse uma com a outra. Lá fora, a semana começou com diversas manchetes como "Supergirl será cancelada" ou então "Jessica Jones vs Supergirl".

Isso não é lá grande novidade na imprensa (ou na vida) - que, desde o começo dos tempos nos enche de matérias como "Britney contra Christina", "Lindsay vs Hillary" ou qualquer coisa do tipo.

Agora, aparentemente, a moda é jogar uma protagonista de série contra a outra - afinal, apesar de as duas séries terem abordagens diferentes e serem disponibilizadas em plataformas que em nada inviabilizam a existência uma da outra, o público ficaria "cansado" de ver dois programas "com a mesma temática".

Bom, não me lembro qual foi a última vez que li algo sobre "Flash X Arqueiro Verde?", apesar de The Flash e Arrow estarem aí (inclusive passando na mesma emissora) e falarem sobre super-heróis - e há de se discutir se as séries dos dois personagens não são muito mais similares entre si que Supergirl e Jessica Jones.

A Marvel e a DC também têm diversas outras franquias tanto na TV quanto no cinema - por que não há "lugar para apenas um" quando se trata de filmes ou programas de TV estrelados por homens (brancos)?

Só porque dois shows mostram duas mulheres que -- por acaso -- têm superpoderes, esses programas não podem coexistir?

O enfoque que Jessica Jones dá à sua protagonista é completamente diferente do de Supergirl: enquanto a primeira se foca no processo difícil e desgastante que sua personagem principal passa para se recuperar do trauma de um relacionamento extremamente abusivo, a Kara de Supergirl nos mostra de um jeito leve e despretensioso como lidar com problemas do dia a dia.

Os públicos das duas séries também são bem diferentes - Jessica Jones é indicada para maiores de 16 anos e contém cenas de diversos tipos de violência, e Supergirl é bem mais "family friendly", tendo como alvo um público mais jovem.

Da mesma forma que alguém pode assistir a Jessica Jones e se sentir completamente contemplada pela série, outras tantas pessoas podem se identificar com Supergirl.

Não existe apenas uma história que englobe todas as mulheres do universo e que seja definitiva (essa também é uma crítica que a Marvel ouve bastante quando se trata do plotline da Viúva Negra).

O que a gente precisa, na verdade, é que se criem cada vez mais projetos que contêm a vida de diversos tipos de mulheres (não pense que o fato de as duas serem mulheres brancas não é um problema).

Se nós olhássemos para essas séries pelo que elas são -- dois projetos que contam histórias femininas de pontos de vistas e de partidas diferentes, ambas ótimas em suas próprias propostas -- e não pela forma como estamos acostumados a digerir informações, entenderíamos que há um lugar, sim, tanto para uma quanto para outra, que, na verdade, não existe Jessica Jones ou Supergirl.

Em um universo pautado e guiado pela representação da força masculina, há espaço de sobra para as duas, suas inimigas e colegas de luta.

Galeria de Fotos Super-Heróis ou roqueiros? Veja Fotos

SIGA NOSSAS REDES SOCIAIS: