OPINIÃO
23/10/2014 09:21 -02 | Atualizado 26/01/2017 21:36 -02

O bullying que sofri é meu combustível para combatê-lo

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De acordo com o site Brasil Escola, bullying é um termo da língua inglesa (bully = "valentão") que se refere a todas as formas de atitudes agressivas, verbais ou físicas, intencionais e repetitivas, que ocorrem sem motivação evidente e são exercidas por um ou mais indivíduos, causando dor e angústia, com o objetivo de intimidar ou agredir outra pessoa.

Ao escrever o parágrafo acima, pensei: como podem existir pessoas que praticam bullying com as outras? Como elas conseguem agredir um indivíduo e continuar com a "consciência leve"? Tudo isso é tão desumano, que não consigo imaginar como uma pessoa tem coragem de diminuir alguém, a ponto de deixar marcas que podem demorar a cicatrizar.

Minha história com o bullying começou desde a creche lá no Japão (morei 13 anos no país oriental). Minha mãe me arrumava como uma princesa e me levava para a creche. Lá, por eu ser gordinha e com os olhos bem maiores do que das outras crianças, elas me mordiam. Mordiam pra valer! Até sangrar! Além de me excluírem das brincadeiras.

Quando fiquei maiorzinha, as crianças da pré-escola continuaram me excluindo. Na hora do almoço, meus garfos e colheres sumiam. Sumiam! Os alunos pegavam minhas coisas (aquelas coisas que minha mãe sempre comprava com o maior carinho do mundo e arrumava com muito amor) para me impedirem de comer, "porque a Fernanda estava gorda demais pra poder fazer uma refeição".

Outra vez um menino me empurrou do "brinquedão" da escola e machuquei minhas costas. A justificativa dele era porque me achava feia e gorda. A justificativa era de que "a Fernanda podia quebrar o brinquedo uma hora ou outra".

E quando duas meninas jogaram dois baldes de água gelada (literalmente) em mim. Eu estava no banheiro, fazendo xixi e quieta. Não estava fazendo mal a ninguém! Elas vieram e jogaram água por cima da porta, me deixando toda ensopada. Nem lembro como contei para meus pais, era tanta vergonha...

Já aqui no Brasil, sofri o cyberbullying. No falecido Orkut, chegaram a criar uma comunidade sobre a "doença da Fernanda". Lá, pessoas tinham a ousadia de falar que eu estava usando drogas, por causa da magreza excessiva. Além disso, criaram um blog em que postavam fotos minhas com comentários do tipo "essa Fernanda tá parecendo uma caveira", "daqui a pouco morre" ou "nem roupa de criança ela pode mais usar, de tão magra e feia".

Que direito elas tinham de me menosprezar desta forma?

Por causa de tudo isso que passei, cheguei a defender pessoas que eu via que estavam sofrendo bullying. No final do Ensino Fundamental, tinha uma menina linda em minha classe que era chamada de "suja" e de "verme" por ser negra. Aquilo me incomodava tanto, que toda vez que alguém a maltratava ou falava que "tinha se contaminado por encostar nela", eu ia lá e a abraçava. Nos tornamos amigas e ela era uma pessoa maravilhosa!

Tudo o que passei colaborou para formar as feridas dentro de mim. Demorou a cicatrizar, mas graças ao amor da minha família, consegui me recuperar. Costumo dizer que as violências verbais são mais doloridas do que as físicas. Mas sou prova de que todos esses traumas passam e de que, no fim, nos ajudam a formar nosso caráter.

O combate ao bullying não é uma tarefa de um dia, nem de algumas pessoas. Mas sim de todos os dias e de todas as pessoas.

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Bullying: combata você também!

Texto publicado originalmente no blog Despedida de Ana e Mia.

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