OPINIÃO
24/07/2014 17:59 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:36 -02

Que Deus abençoe sua viagem

Quem são os "marreteiros" do Metrô de SP? Eles infringem leis dentro dos vagões e correm riscos para garantir o sustento da família. Alguns chegam a faturar cerca de R$ 200 por dia.

Luís Blanco / Diário de S. Paulo

Guilherme Leão tem 22 anos. É alto, forte, tem o maxilar largo, o cabelo arrepiado, o sorriso cativante e deixa a barba por fazer. Atributos que o tornaram o sonho de consumo das secretárias, garçonetes, executivas, atendentes de telemarketing e todo o resto da mulherada que passa diariamente pela estação da Sé. E que o permitiram ganhar um sugestivo concurso disputado com outros bombadões que realizam a segurança interna do Metrô. É, agora, o gatão do horário de pico.

Apesar de o vigilante atrair cantadas e causar desmaios por aí, tem muita gente que não quer nem ouvir falar dele e de seus amigos sarados. Clayton faz parte desse grupo. Encontro-o na estação Corinthians-Itaquera, no extremo leste da capital paulista. Ele sai de um dos trens expressos que vão de Guaianazes até a Luz, no centro, trajeto que dura cerca de meia hora. Olhando para os lados e ligeiramente desconfiado, o rapaz se junta a outros dois amigos, cada um vindo de um vagão diferente.

Distantes dos padrões de beleza que quase endeusam Guilherme, os três têm mais ou menos o mesmo perfil. São negros, calçam tênis Mizuno (muito) colorido, vestem camiseta e têm o cabelo raspado dos lados com uma pequena concentração crespa no alto da cabeça, que não deixa de receber algumas gotas de gel.

Todos são marreteiros, nome dado aos vendedores ambulantes que ganham a vida com o comércio de chocolates, balas, chicletes, adesivos e toda sorte de miudezas que possam esconder dos guardas dentro de mochilas ou sacolas plásticas. E que, obviamente, sejam interessantes para a vasta "clientela" que se aglomera nos vagões pela manhã.

Mal começamos a conversar e Clayton já manifesta seu maior incômodo. "Os caras são folgados, agressivos. Eles vêm, tomam mercadoria, jogam a gente pra fora da estação, fazem pagar outra passagem e de vez em quando querem agredir. Aí a gente não deixa pôr a mão, sai na porrada, já assina agressão, eles levam a gente pro DP. O negócio é louco. E agora que tem esses bombadões, gigantes, tá ficando pior", reclama.

Depois de cair de um andaime e precisar fazer operações no joelho e no quadril, Clayton está há dois anos sem poder exercer a profissão de pintor. Para ajudar no sustento dos dois filhos e no aluguel de R$500, o jeito é "marretar". Mesmo mancando.

Financeiramente, a proposta não é das piores. Os mais dedicados costumam faturar cerca de R$ 200 por dia, trabalhando do início da manhã até o meio da tarde. Um pouco mais do que eu ou você sentados em frente ao computador. Sem chefe, sem bater ponto e sem reuniões inúteis. Comprando os produtos em docerias por atacado ou em paraísos chineses de produtos eletrônicos, a margem de lucro costuma compensar.

Um trampo até interessante, se não fosse simplesmente ilegal. Entre os 68 artigos do decreto federal que regulamenta o serviço de transporte ferroviário, está o que proíbe a prática de comércio dentro das composições, bem como a realização de jogos de azar ou outras atividades que perturbem os passageiros. "Não é todo mundo que gosta de ser incomodado por vendedores ou pedintes no trem", diz Mário Agusto, coordenador de segurança da linha 12-Safira, operada pela CPTM.

De sua pequena sala localizada nas proximidades da estação Brás, por onde passam cerca de 100 mil pessoas por dia, ele chefia a equipe de vigias que cuidam desse tipo de ocorrência. Alega não poder revelar dados sobre o número de mensagens de texto que a companhia recebe todos os dias denunciando os vendedores. Também diz que a CPTM não espiona ninguém. "Até temos um serviço de inteligência para cuidar disso, mas preferimos autuar o camelô em flagrante", argumenta.

Segundo ele, os agentes das estações são treinados para agir com equilíbrio. Mas existem os poréns. "Por mais que eles sejam bem preparados, estão sujeitos a cometer excessos, caso haja exaltação da outra parte", diz.

Se a argumentação da segurança lembra as justificativas usadas por uma certa Polícia Militar, a rotina dos vigilantes não foge muito ao cotidiano de uma das coorporações mais criticadas dos últimos anos no Brasil. Às vezes eles precisam se meter em verdadeiras caçadas para pegar os infratores.

Katiani da Silveira sabe muito bem disso. Aos 27 anos, ela precisou abrir seu "negócio" no abstrato Shopping Trem, como os ambulantes costumam denominar a atividade. Precisava manter os três filhos, sem marido. Só não contava com a necessidade de se meter em verdadeiras aventuras para tanto. "A vida aqui é louca. Teve um dia em que eu estava com seis caixas de Suflair, que são caras. Cada uma sai a R$28. Pulei em Calmon Viana e fui andando até Suzano na linha do trem com um colega meu. Os caras todos atrás da gente. É perder ou correr ".

Entre a ilegalidade e a necessidade, os marreteiros continuam a vender seus produtos nos trens, mesmo com a intensificação das operações da CPTM contra o comércio ambulante.

Muito provavelmente eles não saibam, mas o mesmo decreto que proíbe sua ação é o que autoriza a concessão para a operação do serviço ferroviário por empresas privadas no país. Esse mesmo que resultou na formação de um cartel gigantesco envolvendo agentes do estado, multinacionais e, obviamente, muita grana pública.

Talvez, nesse caso, o que tenha faltado na avaliação dos contratos foi a mesma perspicácia e rigor de uma senhora que viu seu filho comprar uma máquina de cortar cabelo "na mão" do comerciante Francisco Ivaldo, dentro do vagão, por R$5. "Vou usar pra fazer barba, nem precisa de gilete", avaliava o rapaz. Com certo estranhamento ao mexer na bugiganga, ela desconfiava. "Tem que ver se é bom mesmo, né?"

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