OPINIÃO
19/03/2014 11:04 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:12 -02

Ocupado no Natal

Davi equilibra seu pião na palma da mão com uma maestria que me faz lembrar meus tempos de infância com certa vergonha. Com 11 anos, ele faz o que eu, durante toda minha experiência com o brinquedo, nunca consegui. "Sabia que meu nome é bíblico?", ele me pergunta, sentado no palco do pátio central do prédio onde vive.

Às vésperas do Natal, ele não está com roupa nova nem empolgado para uma possível ceia. Parece não querer alimentar esperanças, diferente das outras crianças que estão por perto, afoitas pelos presentes que ganharão à tarde, na festa comunitária.

Não há playground por perto. Sem as gangorras, escorregadores e balanços que normalmente existem nos condomínios, o jeito é soltar pião, jogar bola ou se enfiar num cone de trânsito e rolar por uma placa de madeira escorada na parede e amortecida por pneus velhos.

O espaço de lazer das crianças que vivem ali tem por volta de cento e cinquenta metros quadrados de cimento puro. Pedaços velhos de madeira e barras de ferro compõem o cenário. Chinelos nem sempre são usados, principalmente nas partidas de futebol improvisadas pelos meninos. Nestas circunstâncias, a única condição para se proteger os pés é quando as mães gritam a ordem do alto das janelas. Aí não tem conversa.

Coincidentemente, Davi divide o espaço com outro garoto de 11 anos que tem, no nome, a mesma origem. Na Bíblia, Jessé é o pai do famoso personagem que mata um gigante com uma pedra atirada por uma funda. Embora a ligação me venha à mente quase sem querer, o Jessé que encontro ali no pátio sequer tem consciência do motivo pelo qual seus pais escolheram chamá-lo assim, apesar de a genealogia do Cristo do qual ele irá comemorar o nascimento citar seu nome com certo louvor.

Ele prefere sonhar com um país bem distante de onde é contada a gênese do povo judeu: o México. Fã da banda adolescente Rebelde, sucesso do país latino importado para o Brasil, o menino magro e negro prevê que, no futuro, viajará para lá só para conhecer seus ídolos.

ocupação mauá

Jessé me convida para sair dali. Queria me mostrar alguma coisa. No caminho, atravessamos o pátio onde as crianças brincavam e subimos dois dos seis andares que compõem o prédio da Ocupação Mauá, no bairro da Luz, centro de São Paulo. O imóvel não tem a elegância da estação de trem do outro lado da rua, inspirada no parlamento inglês. Tampouco atrai turistas como no seu apogeu, quando era chamado de "Hotel Santos Dumont - o orgulho do centenário". Mas tem lá seu charme particular.

Erguida em 1954, a edificação aproveitou a movimentação turística dos 400 anos de São Paulo para hospedar a elite paulistana que frequentava e valorizava a região da Luz. O declínio do bairro nas décadas seguintes, no entanto, afastou visitantes e forçou os donos a alugarem algumas das salas para fins comerciais. O que restou de atividade hoteleira continuou até o fim dos anos 90. Aos poucos, as áreas vazias acumularam sujeira e lixo no interior do prédio. Impostos também deixaram de ser recolhidos. Acumulada desde 1974, a dívida de IPTU do imóvel chega a mais R$ 2 milhões.

ocupação mauá

No segundo andar, uma adolescente que aparenta ter por volta de 16 anos cruza nosso caminho. Grávida, ela fala com Jessé, lhe dá algumas moedas e uma ordem para que ele faça compras na mercearia do local. O pequeno mercado, mantido por uma das moradoras da ocupação, possui algumas prateleiras com alimentos, produtos de limpeza e o item que parece ser o preferido do garoto: fichas de fliperama.

Do lado de fora do armazém, três velhas máquinas de jogos ainda fazem a diversão da maioria das crianças dali. Jessé me leva até elas e me pede, sem um pingo de vergonha, cinquenta centavos para comprar seus minutos de alegria. Sem lembrar de qualquer princípio de distanciamento jornalístico que devo ter visto na faculdade, entrego ao garoto os resquícios de meu salário de estagiário que sobreviveram na carteira. Não serviram para comprar mais de duas fichas, mas deram tempo suficiente para que ele mostrasse suas habilidades com o clássico de luta The King of Fighters, outra de minhas frustrações da infância.

ocupação mauá

O menino que se aventura no arcade é mais uma dentre as crianças das 237 famílias que moram na ocupação. Grande parte delas divide um ou dois cômodos com dois ou mais irmãos. É o caso de Leandro, de cinco anos, um dos primeiros que encontro quando chego ao prédio. Pequeno, de cabelo claro e magro, o garoto tinha um olhar triste. Estava com dor. Possuía um pequeno furúnculo no pescoço que minava pus. Ele apertava o ferimento com expressão de choro. Sua angústia só parecia diminuir quando ele brincava com seus irmãos na torneira do pátio. O apartamento onde mora é divido entre ele e os outros cinco filhos de seus pais.

A maioria dos moradores que encontro estava presente na noite de 25 de março de 2007, quando as palavras de ordem de Ivaneti Araújo ecoaram de cima de um palanque improvisado. A conselheira tutelar de 40 anos liderou a entrada no prédio, direcionando as famílias que vinham de todos os cantos da cidade, carregando malas e carrinhos repletos de bagagens.

ocupação mauá

A fala de "Neti", como é conhecida a coordenadora geral da ocupação, é lenta e extremamente baixa. Mas se engana quem pensa que está diante de uma mulher abúlica. Enérgicos, seus pronunciamentos dão uma pista do motivo pelo qual ela está à frente do MSTC (Movimento dos Sem-Teto do Centro) e integra o Conselho Municipal de Habitação da cidade. Ativista por obrigação, ela já morou debaixo de um viaduto com sua família, até se aproximar de movimentos de moradia que a levaram a ocupar o antigo hospital Matarazzo, a primeira de suas ocupações. A partir de então, passou a se destacar e fazer parte da linha de frente da organização.

Até as crianças da Mauá já aprenderam a respeitar a líder. Na entrega dos presentes, a algazarra natural dos pequenos tem uma pausa quando Neti pega o microfone. Em um coro uníssono de vozes marcadas pelo tom agudo da infância, elas respondem à provocação da coordenadora. "Quem não luta...", propunha ela. "Tá morto", completavam, com a frase símbolo do movimento, provavelmente decorada nas assembleias que participam com os pais.

ocupação mauá

O MSTC coordena 11 ocupações no centro de São Paulo. Além da Mauá, prédios nas avenidas Rio Branco, Quintino Bocaiúva e em outros pontos integram a rede de famílias ocupadas. Há também os chamados grupos de base, pessoas que aguardam a apropriação de mais imóveis pelo movimento para conseguir um apartamento.

São necessárias mais de 200 mil novas casas para zerar o déficit habitacional de São Paulo. O plano de metas lançado em 2013 pelo prefeito Fernando Haddad (PT) prevê que, até 2016, um quarto disso será entregue.

No momento em que o MSTC adentrou ao prédio, o proprietário Leon Szifer registrou um boletim de ocorrência e não se manifestou mais. Em 2012, no entanto, cinco dias antes de os moradores conquistarem o direito ao imóvel pela lei de usocapião, ele entrou com uma liminar na justiça pedindo uma reintegração de posse.

ocupação mauá

O processo continuou até julho de 2013, quando a Prefeitura declarou a área como zona de interesse social. Na prática, o prédio ainda não se tornou habitação definitiva. Os moradores estão negociando verbas junto à Caixa Econômica Federal e à CDHU para financiar os apartamentos, o que já foi feito em outros imóveis.

É 24 de dezembro e as famílias da Mauá organizam suas ceias de Natal, cada uma à sua maneira. Com seu pião na mão, agora enrolado pelo barbante, Davi não sabe se irá ganhar presente. Pergunto o que ele gostaria de receber. "Qualquer coisa", me responde, olhando para o céu. O silêncio toma conta da conversa.

Percebo, no entanto, que certamente um lugar para chamar de seu não esteja entre os desejos do garoto. Talvez, com sua pequena consciência, ele já tenha transferido o item para a lista de direitos que deve ter ouvido existir numa tal de Constituição, outro livro quase tão sagrado quanto o que inspirou seu nome.

ocupação mauá

Davi. Onze anos e equilibrista.

Nota do editor

O autor publicou o texto acima no jornal universitário Focas no Foco, como exercício da prática de reportagem. Reproduzimos aqui mesmo sem o 'gancho' do Natal porque acreditamos que esta natureza de conteúdo precisa circular e ganhar visibilidade, independentemente da relação temporal com o fato relatado. Haverá outros natais.

Lucas Pretti