OPINIÃO
25/11/2014 23:08 -02 | Atualizado 26/01/2017 21:52 -02

O esparramador de livros

São Pedro às vezes sacaneia Seu Ademar. É só começar a distribuir a mercadoria pelo chão que a chuva começa a cair. Em segundos, ele pode perder tudo o que demorou horas para deixar apresentável ao seu público seleto. E o papel é um inimigo mortal da água. Pingou, inchou.

São Pedro às vezes sacaneia Seu Ademar. É só começar a distribuir a mercadoria pelo chão que a chuva começa a cair. Às vezes, a prestações. Gotas grandes, outras menos ousadas e algumas um tanto quanto safadas, pelo baixíssimo ritmo e a mesquinha intensidade, deixam o velho agitado. Em segundos, ele pode perder tudo o que demorou horas para deixar apresentável ao seu público seleto. E o papel é um inimigo mortal da água. Pingou, inchou.

Seu Ademar Rodrigues , 50 anos, é um sujeito que cumprimenta com os ásperos dedos da mão direita estirados, sem completar o aperto. "Ô, garoto. Tudo bem?". Relativamente baixo, com os cabelos grisalhos penteados para trás, ele chama atenção pelos olhos azuis que já devem ter feito sucesso na juventude.

Hoje, os shorts de sarja surrados e a camisa pólo de gola esparramada que veste, muito provavelmente as opções mais rápidas do guarda-roupa, não parecem atrair muitos olhares.

Pudera: mais do que ter o aspecto desajustado, Seu Ademar está rodeado de quinquilharias que mais parecem ter saído de uma tumba egípcia. Ao longe, o amarelo da imensidão de papeis (ou papiros) que o rodeiam faz pensar que por ali passou algo como uma tempestade de areia. Interesse nele, partindo do gênero feminino, só mesmo de traças ou baratas.

Mas Seu Ademar não liga para o que acham de seu sex appeal. Sua satisfação é remexer e remexer as centenas de publicações que se esparramam por sua banca e pela calçada. A todo momento ele está tirando uma revista ou livro de um lugar para empilhar em outro, quase como em um transe.

Seu negócio é esse: vender publicações que já estiveram há muito tempo nas bancas e que hoje quase ninguém dá valor. Quase, porque ainda há clientes para quem quer vender passado. "O movimento é relativo, né? Mas dá pra ir levando", argumenta. A curva do salário de Seu Ademar também não é lá das mais estáveis. Nos meses mais prósperos, a renda obtida com os livros chega aos R$2000. Mas pode cair consideravelmente.

Enquanto conversávamos sobre o negócio, um sujeito sujo parou ao lado da banca. Conhecido de Seu Ademar, ele comia algumas bolachas e tomava refrigerante na boca da garrafa. Após o lanche, ele tirou um exemplar do montante de revistas pornográficas, deu a volta nos livros que estavam pelo chão e foi para trás da venda. Como um judeu no Muro das Lamentações, abriu sua "torá" com a cara na parede e fez ali uma espécie de oração dos tarados. Devolveu a publicação ao lugar de origem.

Pare na banca por alguns minutos e você verá que Silas Malafaia, Turma da Mônica, Stephenie Meyer, Adriane Galisteu (na capa de uma Playboy, não na autoria de um livro) e Agatha Christie podem conviver ao lado de relógios velhos, DVD's piratas, chinelos, teclados de computador, uma TV e até um carrinho de bebê com uma harmonia incomparável.

Seu Ademar conta ainda com a sorte de poder exibir seu mostruário para milhares de pessoas, todos os dias: qualquer um que esteja dentro dos vários ônibus que passam pela banca, localizada em uma das principais avenidas de Guaianazes, na Zona Leste de São Paulo, pode passar alguns segundos vendo as capas enquanto espera o sinal abrir.

O sebo travestido de banca é uma verdadeira peça rara da arqueologia. Com as portas fechadas, exibe o desenho de três caubóis armados em pose heroica que alguém em alguma época desenhou. A lataria, extremamente corroída, sugere ter sido de Deus a última mão de tinta a ter passado por ali, muito provavelmente no momento da criação do mundo.

O vendedor, no entanto, não é dono de seu local de trabalho. Tem de pagar cerca de R$400 ao proprietário da banca, um sujeito calmo e lento que atende pela alcunha de "Coquinho". Nosso encontro ocorreu por acaso, em uma tentativa de salvar minha pauta depois que Seu Ademar deu para trás na entrevista em vídeo que me daria. "Ô rapaz, não é por nada não, mas vai lá na banca dele. Eu não sou muito bom. Ele fala melhor".

Seu Coquinho tem histórias para contar. Mas só as que estão em sua memória, porque ele não tem muito o hábito de ler as centenas de livros e revistas antigas que estão ao seu redor.

Hoje, estuda o 2° ano do programa EJA (Educação de Jovens e Adultos), onde aprendeu a ler e agora se forma. Desde 1988, ele mantém a banca no bairro. À época, trabalhava com o tio. "Eu vendia jornal só com a segunda série. Nunca vi problema".

Hoje, jornal não entra mais na banca de Seu Coquinho. "Só se for de emprego e ainda por consignação: se vender, vendeu. Se não vender eu devolvo". Sem precisar de teorias de marketing, ele explica do seu jeito o porquê da queda nas vendas dos periódicos. "É fraco. Todo mundo lê no celular. Não precisa mais comprar na banca".

Muito mais ajeitada do que o ponto de venda de Seu Ademar, a banca de Coquinho custou-lhe pesados 37 mil reais, pagos em prestações que ele diz sanar só com a venda de seus livros e revistas. Vale o sacrifício. "É um investimento no bairro", diz ele, que, junto com o trabalho, acumulas as presidências de uma associação social e do Guaianazes F. C., o time de futebol local. "Governo não quer ver ninguém inteligente, não".

A maior parte do acervo é composta pelos "romances de paixão", como ele diz. São pequenos livrinhos quase eróticos que geralmente têm na capa um homem com muitos músculos e pouca roupa, por vezes dominando sua amada em poses mais do que bregas.

Os títulos vão de "Promessas do Arco-Íris", passando por "Desejo Sem Fim", "Amor nas nuvens" até "Prisioneira de um guerreiro". Seu Coquinho avalia as obras sem medo de ser politicamente incorreto. "A maioria é sobre o sonho das mulheres, né? Casar, ter filhos, carro, essas coisas".

Inspirada, a enfermeira Euliudes dos Santos, de 37 anos, saiu de lá levando "O Poder da Sedução" e "A Arte da Sedução". "Compro três por mês, em média. Baratinho, né? Vou lendo no trem". Ela ainda incluiria no pacote uma revista com o horóscopo de 2012 que Seu Coquinho sugerira, não fosse o atraso das previsões. "Leva, mulher. Tem nada a ver não".

O businessman dos livros antigos desenvolveu sua própria lógica de lucro. Consegue, com intermediadores, gibis que encalharam nas editoras e que ainda podem ser revendidos. Tudo com preços abaixo do mercado. "Se você pagar bem pelo livro, vai ter de comer ele. Os poucos jovens que ainda vêm aqui só compram pelo valor baixo. Mesmo a liquidação não funciona. Não é atrativa no nosso bairro ".

Seu Coquinho complementa as vendas com balas, pirulitos, figurinhas, cards, paçocas e recarga de celular. Só não cobra por informação de ruas e pontos de referência, como outros jornaleiros espertinhos. Ainda.

São cinco as taxas que ele precisa desembolsar para manter o ponto, bem próximo à estação de Guaianazes. Além de pagar um contador, ele arca com os impostos pedidos pela prefeitura para se montar uma banca. O principal deles é o Termo de Permissão de Uso (TPU), que regulariza o formato, os produtos e a disposição da banca.

É a taxa que coloca na ilegalidade bancas espalhafatosas como a de Seu Ademar, que ultrapassam a área limite determinada para dispor as publicações.

Mas Seu Ademar não está nem aí. Quem for reclamar, que respeite antes seus mais de 8 anos ali e sua extensa história no ramo, que começou numa carriola repleta de gibis, passou para uma banca lá no Brás e foi transmitida à próxima geração -- um de seus filhos tem uma banca no Ipiranga, nos mesmos moldes do negócio do pai.

Mesmo sem muito trabalho para fazer durante o expediente, Seu Ademar não oficializa o carpe diem para aproveitar sua biblioteca e dar uma paradinha para a leitura. Muito provavelmente devido ao comichão que tem por não deixar os livros parados um segundo sequer. "Eu lia muito quando era da sua idade. Filosofia, os pensadores clássicos. Parei drasticamente. Correria, né?".

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