OPINIÃO
14/07/2014 15:37 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:36 -02

Laerte Mundi

As surpresas que presenciei na Câmara Municipal de São Paulo durante minha passagem por lá.

As desventuras de um lunático num dos lugares mais insanos de São Paulo.

Não sei porque diabos, mas "Marquito" foi o nome que mais martelou na minha cabeça quando disseram que eu tinha passado na entrevista e que iria trabalhar na Câmara Municipal de São Paulo. Ficou me perturbando, assim, chamando minha atenção, como uma placa de neon, dessas que a gente vê na rua e fica olhando até tropeçar.

Talvez seja pelo fato de que eu havia assistido, dias antes, a uma entrevista dele em algum site por aí. Primeiro suplente nas eleições para vereador de 2012, Marquito acabara de assumir a vaga deixada por um eleito que ganharia um troco a mais assumindo uma secretaria. Feliz da vida, ele começava a decorar o gabinete que usaria para legislar por você, exigente cidadão paulistano, durante quatro anos (no mínimo). Os 22.198 votos que recebera haviam valido a pena. Para ele.

Marquito é a síntese do que a gente pode chamar de assistente de palco eficiente. Há uma penca de anos, ele ajuda o apresentador Ratinho a enxotar do estúdio homens que não querem assumir paternidades, além de cantar, dançar, imitar bem e ainda apanhar de cassetete na TV. Durante quase toda minha infância, ri muito mais dele do que de todos os desenhos que tentavam ser engraçados com praticamente a mesma tática.

Marquito só caiu mesmo no meu conceito quando nos encontramos na fila do banco que tem dentro da Câmara. Era pra ser um encontro memorável entre fã e ídolo, mas não. Cheio de boletos nas mãos, eu esperava, já sem paciência, ser atendido por um senhorzinho oriental que fazia tudo com uma serenidade de dar inveja. E raiva.

De repente, meu agora ex-ídolo chegou abrindo uma carteira repleta de cartões, de todos os bancos possíveis. "Tô atrasado pra sessão plenária", gritou, justificando o crime que já tinha cometido pelas minhas costas: cortar a fila na cara larga.

Mesmo injuriado, eu não sabia, contudo, que Marquito seria a menor das minhas surpresas na Câmara durante minha passagem por lá.

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O tradicionalíssimo Legislativo paulistano é um imenso quadrado que fica numa das pontas do Vale do Anhangabaú, no centrão da cidade. Bem ao lado, o hoje amarelo e apático Edifício Joelma intriga quem já viu os vídeos tenebrosos do incêndio que matou quase 200 empregados de lá na década de 70. Alguns corpos, inclusive, foram levados para o prédio da Câmara pelos Bombeiros na hora do aperto. Há quem diga avistar assombrações remanescentes da tragédia passando pelas portas dos gabinetes durante a noite.

Bem menos sensitiva parece ser o resto dos 2.000 funcionários de lá. Meio parados no tempo, eles são, na maioria, assessores de cabelos grisalhos que insistem em vestir aquelas camisas azuis bem claras, deixando nítidas as pizzas de mussarela que se formam embaixo dos braços nos dias de calor. E tome barriga. Fatalmente você vai participar de um rala-bucho involuntário se precisar usar um dos elevadores. E não vai ser nada legal.

Dezenas de departamentos especializados com baias e divisórias meio amareladas se espalham por pelo menos dois dos treze andares, amontoando papéis e pastas nas mesas à moda antiga. Adolescentes provavelmente egressos de programas de aprendizado tratam de fazer esses papeis circularem por onde é necessário, levando-os de gabinete em gabinete. Para fugir um pouco da chatice do trabalho e agitar o rolê, eles deixam um fone de ouvido pendurado tocando as novas tendências da música teen.

Do lado de fora, na pequena passarela que liga a saída do prédio ao Terminal Bandeira, assalto é de lei. Quase sempre se ouve a notícia de que alguém perdeu a bolsa, o celular ou a alegria de viver para adolescentes que perambulam por ali, aparentemente sem casa. Todos os policiais do perímetro parecem estar concentrados dentro da Câmara. Pelos corredores, os quase impotentes Guardas Civis e a parcela mais plus size da Polícia Militar passeiam sem fazer lá muita coisa a não ser cumprimentar a galera e comentar besteiras entre si. Mas é preciso estar ali para defender o patrimônio e... ah, sim, os vereadores.

São 55 deles na Casa. E é olhando pra cada um que você vê a tal da representatividade realmente funcionar. Tem vereador pra todos os gostos: militares, pastores da Universal, despachante, cartola de futebol, donos de empresas de ônibus, defensores dos animais, chatos (por profissão) e o Netinho de Paula.

Gente tão pra frente e sabida que consegue fazer coisas como acabar com o rodízio de carros de uma cidade como São Paulo numa votação de menos de um minuto ou elaborar um projeto de lei pra emplacar toda e qualquer bicicleta que circule por aí. Às terças, quartas e quintas, eles ainda se reúnem na arena plenária, digladiando-se pra tentar provar se PT é menos ruim que PSDB ou vice-versa. Às vezes rola uma treta.

E é por isso e para proteger os parlamentares de possíveis invasões (sim, elas também rolam) que tem tanto policial lá dentro. O esforço é até eficiente, mas não me pareceu tão atento quando percebi que, do alto das galerias, alguém fustigava o plenário com um olhar ameaçador. Uma espécie de fantasma da ópera ficava ali todos os dias, sentado com as pernas cruzadas e a mão no queixo, sozinho. Era Laerte Brasil.

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Embaixo da placa que há na fachada da Câmara, insistindo em chamar o prédio de palácio, sempre haverá um sujeito parado com um dos pés encostados na mureta. De calça jeans velha, sapato social velho e camisa rosê velha, ele vai ter duas ou três canetas penduradas no bolso. Se estiver frio, pode ter certeza que uma jaqueta azul-piscina (velha) fará parte do figurino.

Esse cara vai ter os cabelos grisalhos armados, esticados e intangíveis à mais violenta das ventanias. A barba por fazer sempre estará por fazer. Ao lado, ele vai deixar uma bolsa-carteiro, bem como um plastiquinho estuprado por incontáveis folhas de papel. Os braços estarão cruzados e os olhos, em meio a uma dezena de rugas, quase fechados. Periodicamente, ele vai mexer a cabeça pro lado, observando a rua.

Esse é Laerte Brasil. Um cara praticamente invisível, não fossem as situações que consegue protagonizar.

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Você provavelmente já deve ter visto, numa palestra qualquer, que existem caras especializados em levantar da cadeira, pegar o microfone e fazer comentários. Não se sinta mal se pra você isso for um hobby. Esses sujeitos têm um modus operandi que você (espero) não deve seguir: eles agradecem a oportunidade, começam comentando a conjuntura que envolve o debate ali realizado, passam para uma pauta mais ampla que geralmente envolve política e, no fim, fazem perguntas que eles mesmos já responderam. Tudo isso pra arrancar do palestrante um broxante "é isso mesmo" ou um mequetrefe "concordo com você".

Basicamente, é isso que Laerte faz. Mas não só. Ele tinha de tudo para ser mais um desses comentaristas de palestra. Mas resolveu ir além. E foi isso que o tornou conhecido.

Primeiro, é preciso atentar: não importa qual seja o debate, audiência pública, palestra, colóquio, simpósio, curso ou roda de conversa. Ele sempre estará lá para participar. E mais do que isso: sempre irá representando alguma entidade global ou nacional interessada no tema.

Cargos como "Presidente Mundial da União Global das Nações do Trabalho e Empreendedorismo Sustentável das Cidades", "Presidente da Federação dos Empreendedores e Moradores da Central Sé, órgão oficial da União Global do Trabalho", "Confederação Nacional dos Ciclistas Corredores, Velocistas em Vias Públicas do Brasil" são todos dele. Até o início do próximo discurso.

Antes de propor qualquer coisa, Laerte sempre faz questão de demonstrar sua expertise no assunto com um pinguinho de arrogância. "Vou só falar um pouquinho do meu currículo. Pratiquei triatlo, pedalava quase 60km por dia, nadava cerca de 15, fui maratonista e corria cerca de 40km diariamente. Morei seis anos em Lisboa, onde fiz escola de circo e saí diplomado no globo da morte, em ciclismo e motociclismo", chegou a dizer, modestamente, numa das audiências públicas que participou.

Ele ainda costuma avisar, antes de iniciar a fala: "vou aqui citar uma frase de minha autoria". Tudo pra não confundir demais o ouvinte com teorias alheias.

Ninguém sabe de onde Laerte vem, nem pra onde vai. Boatos que circulam na Câmara dizem que ele é um mendigo lunático, morador de algum albergue do centro da cidade que vive o dia zanzando por órgãos públicos à procura de assunto. Ele diz que não é bem assim. Afirma morar num hotel chamado Salomon, no Centro da cidade.

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Certo dia, precisei passar um tempo na biblioteca da Câmara. Sentei numa das mesas. À minha frente, uma porrada de livros empilhados, canetas espalhadas e folhas de sulfite rabiscadas sugeriam que alguém estava recebendo entidades literárias por ali. Me concentrei nas minhas coisas. De repente, Laerte sentou na cadeira oposta. Não olhou para mim.

À la Chico Xavier, ele começou a escrever, com uma das mãos na testa. Um sorrisinho nos lábios ilustrava a satisfação que só poderia mesmo vir dos céus. As folhas de sulfite que ele usava estavam unidas por um pequeno pedaço de fita adesiva. Parece que o objetivo era criar uma espécie de rolo. Quando ele levantou a folha, vi que havia vários filetes de papel colados nela, um embaixo do outro. Eram divididas por pequenos quadrados, formando um formulário artesanal.

"Essa aqui é a ficha de inscrição pra maratona que eu tô organizando na cidade. Vários corredores vão participar", ele me confessou. A conversa foi ficando mais quente e ele, mais empolgado. "Mas a intenção é maior. A gente vai distribuir vários tablets pra eles e, no meio da prova, vamos hackear o governo. Vamos injetar nitroglicerina na gestão da Dilma".

A biblioteca é um dos paraísos de Laerte na Câmara. Lá, ele se informa com os jornais do dia, aprende (mais) sobre lei com os exemplares da Constituição e do Vade Mecum, transcreve suas ideias mirabolantes para o papel e desenvolve seus insights mais ousados. Conhecimento que será usado no próximo debate em que ele for autorizado a se inscrever e a falar.

Laerte parece ter um desejo não declarado de ser político. E se engana quem pensa que ele não consegue. Já começou a arregaçar as mangas pra garantir sua boquinha lá em cima. Numa eleição para formar um fórum por sustentabilidade, ele se enfiou entre os candidatos e, com 9 votos, conseguiu uma vaguinha na suplência. Na foto oficial, entre engenheiros, arquitetos e ativistas da causa, lá está Laerte, todo desengonçado com seus cabelos ao ar e a velha jaqueta azul.

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Se você quer fugir do marasmo do seu emprego que, toda manhã, te obriga a pegar metrô pra encontrar as mesmas pessoas, nos mesmos lugares e fazendo as mesmas coisas, a Câmara é um lugar ideal. Todos os dias vai ter uma surpresa te esperando bem na porta que, com certeza, vai mudar sua rotina de trabalho.

Dia desses, um cara passou pelos guardas de lá, vestido de padre carmelita. Subiu até o segundo andar e entrou no banheiro. Enquanto uma ajudante o esperava do lado de fora com uma cadeirinha de rapel, ele trocava de roupa e se transformava em ninguém menos que o Batman. No uniforme, a barriga avantajada esticava as linhas desenhadas pra servirem de abdômen malhado. Uma nada discreta bandeira do estado de São Paulo se destacava no braço esquerdo. Minutos depois, ele estava pendurado nas janelas para protestar contra o caos na saúde, responsabilidade de uma tal classe política.

Lá na rua, outro cara com uma capa preta cheia de rebarbas pontiagudas vermelhas segurava um microfone conectado a uma pequena caixa de som portátil. Nos olhos, lentes também vermelhas tentavam dar um ar maléfico ao "Vampiro Caçador de Safados", como ele se autodenomina. Olhando pra cima, o protótipo de Drácula desafiava os vereadores a prestarem contas de seus atos e ameaçava, sem medo: "Seus nomes vão estar na Internet!". Um Jack Sparrow mal vestido completava a trupe, com uma placa de protesto no meio da avenida.

Nunca nessa vida que você vai ver um troço assim se continuar trabalhando no prédio da IBM ou em algum escritório da Berrini.

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Passei todo o meu período lá na Câmara observando Laerte pra tentar entender como funcionava a mente daquele ser e o que realmente ele queria. Mas só resolvi mesmo escrever um perfil quando já estava para sair de lá. O pior é que isso aconteceu bem numa das fases mais difíceis da vida dele.

Laerte estava pisando em ovos. Dizia estar sofrendo uma perseguição. Das grandes. Qualquer um que se aproximasse seria suspeito. Toda vez que eu tentava arrancar alguma informação, ele se esquivava. Calado, olhava pro lado e dizia, irritado: "não tenho nada a declarar, campeão". Fiquei triste. O texto iria melar.

Mas foi aí que a sorte bateu na minha porta. Literalmente. No meio de uma tarde sem esperança, em que eu me despedia da vida lavando as louças do almoço, eis que o próprio Laerte Brasil me aparece com um documento bombástico na recepção.

Era a prova cabal de todas as suspeitas que ele estava investigando há algum tempo. Começava com letras garrafais: "OPERAÇÃO TRUCULENTA PRATICADO (sic) NA BIBLIOTECA DA C MARA MUNICIPAL DE SÃO PAULO CONTRA VIDA DE LAERTE BRASIL SANTOS DE OLIVEIRA".

Duas folhas de sulfite grampeadas denunciavam o forte esquema armado pelas mais altas cúpulas do Legislativo Paulistano. "O presidente da Câmara José Américo, junto com o vereador Coronel Telhada e a vereadora Marta Costa ordenaram uma operação criminosa militar de estado financiado com dinheiro roubado do metrô e agrediram-me fisicamente, inclusive com armas de fogo. No momento da agressão arbitrária, roubaram-me a importância de R$ 5.450,00", denunciava o texto. A grana pra financiar o atentado? Meros R$ 628 milhões, entregues por Geraldo Alckmin e Gilberto Kassab diretamente à Mesa Diretora da Casa e divididos entre os servidores.

Laerte estava entregando a denúncia em todos os gabinetes. Quando me viu, pareceu não gostar. Mas não escondeu seu plano. "Vou denunciar esse complô. As revistas já estão na gráfica. Além disso, vou ao Ministério Público e ao Supremo Tribunal Federal. Isso não pode acontecer". O crime havia sido registrado na Ouvidoria da Casa. Lá, procurei pelo funcionário que havia feito o documento. Sem revelar muita coisa, uma das funcionárias me disse, em tom oficialesco, que suspeitava do mal funcionamento dos neurônios de Laerte. Mas preferia não arriscar.

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No meu último dia na Câmara, desci até a entrada do prédio pra me despedir de uma amiga. Já não via Laerte há alguns dias. De repente, ao longe, avistei aquela figura fantasmagórica passando na calçada, entre as sombras que se formavam das lâmpadas alaranjadas do Centro da cidade. O andar era lento e espaçado. Uma das mãos segurava a bolsa-carteiro e a cabeça estava baixa. Parecia não ter intenção de chegar a lugar algum. Era minha última chance de falar com ele.

Eu estava tenso. Achava que iria ser ignorado, como vinha acontecendo. Mas não. Laerte falou sobre o assalto, disse estar encaminhando os processos contra a Câmara e até pareceu surpreso quando soube que eu iria embora. Mas não perdeu a oportunidade pra tirar um proveito. "Já que nós somos amigos, será que você não teria uns dez reais aí pra me emprestar? Preciso ir lá no Embu". Tirei da minha carteira parcas moedas que não completariam a quantia, mas que já eram um começo.

Tentei fazer dos meus últimos minutos ao lado dele uma conversa um pouco mais intimista. Perguntei sobre a família, que ele diz estar espalhada por aí; casa, que ele voltou a dizer ser um hotel; e telefone, que ele disse não ter um na hora, mas que na terça-feira seguinte estaria com três. Quando o papo começou a engrenar, ele pegou sua bolsa-carteiro, juntou seus papeis e apontou, do outro lado da rua: "meu amigo ali está me chamando. A gente se vê, campeão".

Fiquei parado, olhando para onde ele ia e me perguntando o quanto ele era esperto o suficiente pra me enganar daquela forma. Mas percebi que a questão não era essa. Laerte só não queria ter seu mundo invadido. Definitivamente ele me mostrou que tudo o que acontecia em sua mente era só dele. Não precisava de ninguém pra entender ou questionar. Que rissem. Ele não tá nem aí pra chacota.

Vai continuar seguindo seu caminho lento com a mesma filosofia contida numa história que me contou, dias antes de nos despedirmos. "O gato tava perseguindo o rato por todos os cantos, até que o rato entrou num buraco. Ficou lá. O gato, então, muito esperto, fez uma coisa inteligente. Latiu. O rato, se sentido protegido por achar que tinha um cachorro ali pra lhe salvar, saiu do buraco. Foi capturado imediatamente, nem deu pra pestanejar. Injustiçado, ele perguntou pro gato: 'Ué, o que você fez?'. De bate-pronto, o gato respondeu: 'Hoje em dia ninguém se dá bem sem falar mais de uma língua'".

Satisfeito com o ensinamento que me passara, ele sorria, deixando à mostra sua arcada dentária totalmente despadronizada. E completava: "meu objetivo agora é fazer idiomas. Vou começar com francês ou alemão".

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