OPINIÃO
10/02/2014 16:55 -02 | Atualizado 26/01/2017 20:51 -02

Mentiras

Trecho extraído de Mentiras, romance inédito de Felipe Franco Munhoz:

(O romance Mentiras -- inspirado na obra de Philip Roth -- é escrito inteiramente em diálogos entre três personagens: Philip, Felipe e Thaís, amante de Felipe. Enquanto Felipe e Philip sabem que um livro está acontecendo, Thaís acredita ser uma pessoa real. Nesse campo de diálogos metaficcionais, são discutidos temas como amor, religião e literatura. No trecho a seguir, o personagem Felipe conversa com o personagem Philip.)

- Passei a manhã inteira elaborando essa última cena. Desde o café; solitário.

- Outro pequeno esboço de felicidade?

- Sem felicidade, desta vez.

- Essas cenas não eram transcritas de situações reais? Para treinar diálogos?

- Mais ou menos. [risos] Transcrição, transcrição, nunca é. A ficção e o homem.

- Uma coisa só.

- Você entende perfeitamente. Vamos lá? Anotei aqui, no guardanapo.

ELA

Como está o livro?

ELE

Bem. Acabei a primeira versão, fechei todos os diálogos. Vamos brindar.

ELA

Primeira versão?

ELE

Não parei de vez com o trabalho.

ELA

Escrevendo bastante?

ELE

O tempo todo.

ELA

O tempo todo? (Rindo) Você não dorme, não?

ELE

[risos] Não.

ELA

Quando vai me mostrar?

ELE

Logo.

ELA

Logo quando?

ELE

Não sei, amor. Não está pronto. Ainda preciso revisar e revisar.

ELA

Você nunca me mostra. É sobre judaísmo, não é? Quem sabe eu possa ajudar.

ELE

Já ajudou bastante.

ELA

Como assim?

ELE

Marina é personagem também.

ELA

Personagem? Como assim?

ELE

Eu gosto tanto de você, tanto.

ELA

Não! (O ponto de exclamação) Que história é essa?

ELE

Esta? Mentiras.

ELA

Você disse Marina é personagem.

ELE

Escrevi um pouco sobre o que estamos vivendo.

ELA

Mas Marina? Meu nome está no livro?

ELE

Sim, por quê?

ELA

Nome e sobrenome? Sim? Eu quero que você tire! (não se assemelha a um

ameaçador dedo em riste?)

ELE

Tirar? Por quê?

ELA

Não quero meu nome em um livro. Não acho isso legal, não acho legal, quero que

você tire. Ei, escute. Você vai?

ELE

Não esperava isso.

ELA

Escute. Estou falando sério.

ELE

Bom. Tudo bem, eu troco. Bergman, Berman, Coleman, Freudman. Basta ter as

mesas sílabas, o mesmo final. Glassman, Goldman. Viu? Shatman, Shitman,

Fuckman, Youman é só um nome. Eu simplesmente troco na última revisão.

Basta o mesmo número de sílabas e man no final. Tanto faz, é só um nome.

ELA

Até com isso você se preocupa? Que exagero. Calma, não precisa ficar bravo. Se

quiser eu ajudo você. Escolho um nome bem judaico. Pode ser? Um nome bem

judaico.

Eles terminam o jantar caro, escolhido a dedo, em silêncio. Ele havia passado o dia selecionando músicas para a ocasião, arrumando a mesa, colocando garrafas de vinho na geladeira. Comemoravam a primeira versão concluída do livro Mentiras, ainda sem saber sobre as próximas infinitas minutas. Ela diz que precisa ir, logo que termina a última garfada Tenho um aniversário. Ele, desolado, ainda espera um convite para acompanhá-la. Nem mesmo isso. Nem mesmo o convite. Neste momento não é Mahler que chora na vitrola, nem mesmo é uma vitrola, é o reprodutor de arquivos no computador. E da música, completamente envolvida pela situação, nada se pode escutar. Sobre a mesa: a única garrafa de vinho que foi aberta, Mogen David, pela metade; os talheres mortos sobre pratos vazios, amarelos do molho. Ela se levanta e vai embora.