OPINIÃO
23/04/2014 13:27 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:24 -02

Gabriel García Márquez: Crônica de uma vida anunciada

Um amigo que mora na Cidade do México me contou o que realmente aconteceu. Seu nome é Manuelito Arcadia e ele nasceu em Aracataca, Colômbia, mesma cidade onde Gabo nasceu há 87 anos. Sei que pode parecer difícil de acreditar...

.

Quem acredita que Gabriel García Márquez morreu na última quinta-feira certamente nunca leu um livro do escritor colombiano. Nós, seus fiéis leitores, sabemos que algo tão real, tão comum quanto a morte, nunca poderia acontecer a Gabo.

Agora que sua 'morte' foi divulgada, posso finalmente fazer algumas revelações.

Um amigo que mora na Cidade do México me contou o que realmente aconteceu. Seu nome é Manuelito Arcadia e ele nasceu em Aracataca, Colômbia, mesma cidade onde Gabo nasceu há 87 anos. Sei que pode parecer difícil de acreditar, mas, segundo o senhor Arcadia, Gabo mantinha uma passagem subterrânea em sua biblioteca que o levava diretamente a um pequeno vilarejo chamado Macondo. Para abrir a passagem, bastava apenas que o escritor tocasse levemente a capa de um velho dicionário de espanhol.

Arcadia me contou ainda que uma noite Gabo o convidou para entrar na passagem secreta e fazer uma visita rápida a Macondo. O velho conterrâneo resistiu, mas acabou aceitando. Chegando lá, Arcadia jura que viu dois galos brigando por uma mulher. Florentino e Juvenal - Arcadia contou que eram esses os nomes dos galos - brigavam por uma mulher de cabelos negros e olhos verdes, a bela e sensual Fermina. Disse ainda que quem separou a briga foi o próprio Gabo.

Segundo Arcadia, o povoado de Macondo tem poucas casas e seus moradores costumam usar apenas roupas brancas. Ele me disse ainda que o lugar é tão seco que as pessoas se vestem com suas melhores roupas para brincar na lama quando chove. Gabo e Arcadia, no entanto, tiveram que deixar Macondo rapidamente: um coronel invocou com a presença dos estranhos e puxou uma arma de oito canos, todos eles de ouro. Era um homem seco, de ossos sólidos e articulados como parafuso e porca. Meu amigo disse que o coronel só não puxou a arma porque foi impedido por duas mulheres, uma tal de Cândida Erendira e outra mulher velhinha, parece que era avó dela.

Foi a primeira e última vez que Arcadia teve coragem de entrar na passagem secreta. Mas ele contou que Gabo o avisou que faria isso novamente na última quarta-feira, véspera do dia em que a imprensa mundial anunciou sua 'morte'.

Sei que isso vai chocar muita gente, mas tenho que relatar o que Arcadia me contou. Ele me disse que na quarta-feira Gabo ligou e disse que ia visitar Macondo. Arcadia o alertou novamente sobre os perigos do coronel invocado, mas Gabo foi enfático: tinha que visitar Macondo pelo menos mais uma vez. Disse que era uma promessa que havia feito a um certo Aureliano Buendía, amigo de longa data.

Logo após Gabo pronunciar o sobrenome 'Buendía' ao telefone, no entanto, Arcadia disse que ouviu um baque seco, como se um corpo tivesse caído no chão, e em seguida uma série de latidos muito fortes. Em seguida, a mulher de Gabo, Mercedes, veio ao telefone com uma voz assustada de quem tinha acabado de ver um fantasma. Perguntou quem era, Arcadia se identificou. E ela disse, com uma voz nervosa de quem não sabe o que está acontecendo, que Gabo havia simplesmente desaparecido no ar, e em seu lugar havia apenas um cão. Mas não um cão qualquer, e sim um cão inteirinho azul, de olhos vívidos como os de um homem.

Arcadia pediu que ela explicasse direito, mas Mercedes simplesmente desligou o telefone. Arcadia correu, então, para a casa do amigo, os dois moravam a apenas um quarteirão de distância. Chegou lá e deu com a porta aberta, nem sinal do velho amigo. Mercedes estava nervosa, não dizia coisa com coisa. Arcadia entrou e foi direto para a biblioteca, queria verificar se a passagem subterrânea estava aberta. Não encontrou nada. Tentou tocar levemente na capa do velho dicionário de espanhol, mas nada aconteceu. E o cão azul? Também não havia rastros.

Quando Arcadia me contou essa história, confesso que achei difícil acreditar. Mas vendo as imagens da casa de Gabo e Mercedes na TV, agora que a imprensa mundial anunciou sua 'morte', levei um susto. No canto de uma das imagens - acho que foi na BBC ou na CNN, não lembro bem - vi um cão azul passando ao longe, rapidamente. Foi uma cena rápida, apenas uma imagem fugaz. Mas tenho certeza de que vi o tal cão azul mencionado por Mercedes no telefonema.

Arcadia não arrisca dizer o que aconteceu, mas tem certeza de que Gabo está vivo. Não sabe se ele virou mesmo um cão azul, como Mercedes disse. Talvez tenha se tornado um galo ou um coronel, nunca saberemos. Ou talvez tenha fugido mesmo para Macondo, para fazer uma última visita ao velho Buendía ou para evitar o assédio da imprensa que insiste em anunciar sua 'morte'. Ou talvez tenha virado um pássaro com pés de lagarto, um peixe com escamas brancas como a neve ou ainda um gato com alma de mulher. Ou quem sabe uma pedra, um navio fantasma, uma árvore...

Gabriel García Márquez não morreu porque isso só acontece a nós, humanos. Os homens fantásticos, seres maiores que o tempo, não estão submetidos às leis naturais da vida e da morte. Estão acima de tudo isso: das nuvens, das estrelas, de tudo que existe. Só não estão acima de suas próprias palavras. Afinal, como costumam dizer os moradores de Macondo,... os livros não morrem.

*Post originalmente publicado em Felipe Machado | Palavra de Homem