OPINIÃO
12/12/2014 12:53 -02 | Atualizado 26/01/2017 22:02 -02

Cresci em Guantánamo: agora que você conhece minha história, não pode me dar as costas

Fahd Ghazy

Para começar, me desculpe por não dizer as coisas certas ou não ter os argumentos certos. Entre nós existem culturas e experiências diferentes.

Me machuca não ter o privilégio de me expressar. Quero ter a honra de falar com minha própria voz e atingi-lo diretamente - você, pessoa pensante. Quero agradecer por se importar comigo. Você está disposto a me enxergar como um ser humano, e isso é muito precioso para mim.

Fui exposto ao mundo por causa de Guantánamo. Tinha apenas 17 anos quando me mandaram para cá. Na época, eu quase nunca tinha visto TV ou ouvido rádio. Todos os eventos significativos da minha vida, de funerais ao meu próprio casamento e ao nascimento da minha amada filha, Hafsa, aconteceram no Diwan da minha casa. Agora tenho quase 31 anos de idade.

2014-12-09-fahd2.jpg

Isso significa que cresci em Guantánamo. Cresci neste sistema. Cresci com medo. Espero que isso te ajude a me entender.

Espero ser ouvido.

Aqui em Guantánamo nunca sou ouvido. Sou só ignorado. Em 13 anos preso sem acusações formais, nunca pude contar para ninguém quem realmente sou.

Não sou ISN 026. Este é o número do governo.

Meu nome é Fahd Abdullar Ahmed Ghazy. Sou um ser humano - um homem - que é amado e que ama.

Gostaria de ter a capacidade de descrever a passagem dos últimos 13 anos em Guantánamo. Minha cabeça para de funcionar quando tento pensar no assunto. Não tenho palavras para te fazer entender de verdade.

Nesse tempo, perdi tanto - aqui dentro como lá fora.

Sinto falta de casa - demais. Mas a verdade é que, seu voltasse para o meu vilarejo amanhã, seria um estranho, mesmo entre as pessoas que mais me amam.

Alguns dias atrás, Omar me trouxe dezenas de fotografias do meu vilarejo, tiradas durante as filmagens de Waiting for Fahd (Esperando Fahd, em tradução livre). Levei-as para a minha cela e guardei-as como um tesouro. Olhei para cada rosto, cada construção, cada montanha. Fiquei acordado até a hora da reza do Fajr, ao amanhecer, estudando as imagens, uma por uma. Minha cabeça e meu coração palpitavam. Queria poder reconhecer cada detalhes nas fotos, para me lembrar da minha vida antes de Guantánamo. Mas era quase impossível.

Não reconheci nem mesmo o rosto dos meus melhores amigos.

Meu irmão mais novo, Abdur-Raheem, de quem eu costumava cuidar, não me conhece. Ele só sabe da minha existência.

As crianças do vilarejo eram bebês quando eu parti. Sou somente um nome para elas. Tem até mesmo outro Fahd Ghazy no vilarejo agora, meu sobrinho. Ele já é adolescente, tem quase a idade que eu tinha quando vi minha casa pela última vez.

2014-12-09-image0021.jpg

E a geração dos mais velhos? Quase todos se foram, um por um, enquanto eu espero.

A perda mais trágica que enfrentei em Guantánamo foi a morte súbita do meu tio. Quando meu pai morreu, ele passou a ser um pai para mim. Ele também era meu professor e meu mentor. Eu dependia dele, e ele cuidava de mim.

Ele não aguentou a dor de saber que fui preso no lugar dele. Quando podia ligar para minha família, ele não participava. Não se permitia me ver aqui nem falar comigo. Ele não aguentava nem mesmo me escrever.

Mas eu sentia muita falta. Era egoísta. Queria ver seu rosto, só para me lembrar dele, sentir conforto. Escrevia cartas. Pedia a ajuda dos familiares. Implorava para que ele aceitasse uma videochamada. Finalmente ele concordou.

Eram 8h no Camp Echo, uma quarta-feira. A Crescente Vermelha chamava os nomes da família em Sanaa que iriam participar da videochamada. Chorei ao ouvir o nome do meu tio. Eu estava tomado pela emoção, mas ele manteve a compostura.

"Nós te amamos", ele disse. "Estamos te esperando. Vamos continuar te esperando."

E aí, diante dos meus olhos, ele morreu. Parou de falar. Sua cabeça caiu para trás. Minha família correu para acudir, e a ligação foi cortada. Fiquei sentado em silêncio, acorrentado à cadeira, sem ter o que fazer.

Quando a linha foi reconectada, não havia mais imagem. Ouvi apenas a voz de Mohammed, meu irmão. "Ele se foi", disse Mohammed. "Foi demais para ele."

Naquele momento entendi de verdade o que é Guantánamo e quanto poder ela tem sobre quem está dentro e quem está fora.

O tempo me abandonou em Guantánamo. Tenho de aceitar esse fato, mas sinto muita solidão e isolamento. Posso parecer bem por fora, mas estou sendo destruído por dentro.

Não existe culpa nem inocência aqui em Guantánamo. Essas ideias são vazias. É apenas um jogo sendo jogado.

Mas sempre existe certo e errado. Isso nunca vai mudar.

Até mesmo aqueles que me enjaularam sabem o que é certo. Certo é me libertar. Fui inocentado. Isso significa muito aqui em Guantánamo, exceto se você for do Iêmen. Estou pronto para ser liberado desde 2007, mas ainda espero a liberdade.

Estou esperando há uma vida para recomeçar minha vida.

A primeira vez que encontrei Omar depois de ele voltar do Iêmen, fiquei muito feliz só por ver alguém que estivera cara-a-cara com minha filha e minha família. Ele tinha tocado naquelas pessoas. Aqui, diante de mim, estava uma pessoa que entrou na minha casa e comeu a comida que eu costumava comer. Ele ouviu a voz da minha mãe. Vivenciou tudo o que eu tive no passado e o que quer ter de novo. Era quase palpável. Por um instante, me reconectei.

2014-12-09-image003.jpg

O que você vê em Waiting for Fahd é meu sonho. Mas não quero que seja somente um sonho. Quero que vire realidade. Você pode me ajudar a torná-lo realidade. Você pode me ajudar.

Crianças, peço que pensem em minha filha, Hafsa.

Aos jovens, peço que lembrem dos 17 anos. Pensem como me privaram de tudo de que um homem precisa para amadurecer: emprego, educação, experiências de vida.

Esposas, pensem em minha mulher, que passou a primavera da vida - a juventude - esperando por mim, cuidando sozinha de Hafsa.

Mães, pensem em mim quando pensarem em seus filhos. Pensem em minha mãe ansiando pelo filho dela.

Pais, pensem em mim tentando alcançar minha filha de dentro desse lugar.

Perdi todos os melhores momentos que um pai pode viver: os primeiros passos, levá-la para a escola, acompanhar seus sucessos, ajudá-la quando ela tropeça. Aguardo ansiosamente o dia em que não vá mais sentir saudades dela. Vamos estar juntos, e não vou perder nem mais um minuto sequer.

Tenho fome desses momentos, quando ela olha para mim e sorri ou diz palavras doces.

Esse é meu desejo da parte mais profunda da minha alma.

Agora que você ouviu minha história e viu meus sonhos, não pode me dar as costas. A única desculpa é a ignorância. Mas agora você já sabe, e não pode virar as costas.

Eu te peço: seja a voz daqueles sem voz - por um ser humano que está sofrendo.

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.

Acompanhe mais artigos do Brasil Post na nossa página no Facebook.


Para saber mais rápido ainda, clique aqui.