OPINIÃO
30/06/2014 12:23 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:46 -02

O beijo número cinco mil?

Essas cenas ainda são um vitória e precisam ser celebradas justamente porque são tão raras. Mas o caminho para deixar esse debate menos tenso é justamente naturalizar a questão.

Reprodução

Doze anos depois do beijinho casto trocado entre as meninas Clara (Alinne Moraes) e Rafaela (Paula Picarelli) na peça de escola de "Mulheres Apaixonadas", outra Clara criada por Manoel Carlos encontra o amor nos braços de uma mulher.

O casal lésbico da novela "Em Família", vivido por Giovanna Antonelli e Tainá Muller, finalmente vai trocar um beijo na boca, depois de uma sucessão de abraços, beijos no rosto e tapinhas nas costas que tentavam naturalizar o afeto entre iguais no folhetim do Leblon. Ajuda o fato de que as duas mulheres seguem os padrões de beleza e feminilidade que ainda são cobrados para que essas cenas não sejam, de todo, consideradas "agressivas". Eu pergunto, que beijo é esse?

Passada a euforia com o beijo entre Félix (Mateus Solano) e Niko (Thiago Fragoso) em "Amor à Vida", ficou o debate sobre o "estímulo" da homossexualidade provocado por essas cenas e sobre a própria necessidade delas, uma vez que essa realidade é incontestável. Mas se o amor gay é tão natural, porque só vemos o beijo número cinco mil?

Tá, não sabemos o número exato. O caso é que em todas as novelas, o único beijo sobre o qual existe alguma expectativa é o primeiro, que vem sempre como a coroação da paixão surgida entre dois personagens. Na própria novela Em Família, toda a tensão gerada acerca do primeiro beijo entre o casal Luísa (Bruna Marquezine) e Laerte (Gabriel Braga Nunes) foi preparada durante semanas, para culminar no dito beijo. Agora, ninguém nem nota se eles trocam algum selinho quando se encontram por acaso. Por que será, então, que gays tem seu primeiro beijo roubado?

Tanto nas cenas de "Amor à Vida" quanto de "Em Família", o que vemos é o beijo cinco ou sete mil desses casais, entre tantos outros que supõe-se que eles troquem diariamente. Sabe aquele beijo corrido, antes de sair para o trabalho?

Essas cenas ainda são um vitória e precisam ser celebradas justamente porque são tão raras. Mas o caminho para deixar esse debate menos tenso é justamente naturalizar a questão. Que venham os primeiros beijos, como acontece com todos os casais. Uma cena de "beijo gay" ainda é motivo de destaque no nosso país, mas em ambos os casos os personagens já estavam namorando há séculos!

Quando vamos crescer?

Texto publicado originalmente no blog Os Entendidos.

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