OPINIÃO
27/02/2014 15:12 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:04 -02

5 segredos gays que todo hétero deveria conhecer

O caro não vive sem o barato e o hétero não vive sem o gay. Nossa cultura precisa de opostos para conseguir definir as coisas e para hierarquizar conceitos. Então lá vão 5 ~segredos~.

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O caro não vive sem o barato e o hétero não vive sem o gay. Nossa cultura precisa de opostos para conseguir definir as coisas -- já que definições são uma obsessão humana -- e para hierarquizar conceitos, o que é outra das nossas (lamentáveis) manias. Evidentemente que isso gera muitos problemas, mas tanta catalogação também nos divide em subgrupos com culturas próprias, o que pode ser enriquecedor ou só divertido mesmo. O que filatelistas podem aprender com oceanógrafos? Velhinhas chinesas do Tai chi chuan podem contribuir com o Bonde das Maravilhas? Seguindo essa lógica, apresento os "5 segredos gays que todo hétero deveria conhecer". Enjoy!

1. Fazemos mais sexo do que vocês!

Essa é óbvia. É claro que uma das grandes lutas da comunidade gay é para mostrar que podemos ter relacionamentos convencionais e temos o direito de validá-los com contratos de casamento, mas o "status desviante" da homossexualidade nos liberta para que tenhamos um número maior e mais diverso de experiências. Acredito piamente que uma parte do ódio aos gays seja puro recalque de um estereótipo de libertinagem, mas no fim das contas é tudo culpa do machismo. O patriarcado regula a sexualidade feminina e ao mesmo tempo estimula uma postura predatória no homem. Como resultado, mulheres heterossexuais pensam duas vezes antes de realizar algum desejo sexual e colocarem a reputação em risco, ao passo que alguns homens gays já "passaram na cara" o vizinho casado, o padre enrustido, o melhor amigo e o priminho mais novo! Não seria melhor liberar geral e deixar todo mundo ser feliz?

2. Somos homofóbicos também.

Outra consequência horrível do machismo. Sabe aquele fenômeno do negro racista? É a mesma coisa. A ideia de inferioridade é martelada na nossa cabeça de maneira tão absoluta que fica difícil nos livrarmos completamente dela, e às vezes acabamos por reproduzir o discurso higienista que procura controlar corpos e comportamentos. Não faz o menor sentido que homossexuais menosprezem "pintosas" e travestis, como se a feminilidade fosse algum pecado. Em que ano estamos? 1914?

3. Somos mesmo mais estilosos, e por isso suas mulheres nos amam!

Estereótipos só são considerados um problema quando são negativos. Como "onde há fumaça, há fogo", é evidente que algumas ideias gerais sobre gays -- e sobre héteros -- se justificam, mas isso vale para as coisas positivas também. O ideal de consumo sobre gays diz que somos bonitos, malhados, bem vestidos, cultos e talentosos, o que é uma bobagem muito da chata, já que qualquer pessoa pode ser assim. De qualquer forma, talvez para compensar a inferioridade que nos é imputada, nós gays procuramos estar sempre no nosso melhor.

E com o estereótipo hétero de que homem macho anda sempre largado, não tem nem disputa!

4. Somos versáteis!

Sim, ainda estamos presos ao binarismo ativo/passivo para definir nossas preferências sexuais. É outra idiotice do machismo, pois usamos os conceitos para recriar estruturas de poder e controle, mas na prática as coisas são menos severas. Ninguém morre por mudar de posição e todo mundo experimenta tudo pelo menos uma vez, até quando mente que não. Sabe aquela pergunta ridícula que alguns héteros fazem, sobre "quem é o homem e quem é a mulher", como se fosse apropriado questionar alguém sobre isso? Então, não importa. A construção de identidade não é abalada pelo poder mágico do pênis, esteja você em qual ponta dele estiver. Aliás, é por isso que gays não precisam redefinir a vida inteira caso fiquem com alguma amiga na balada...

5. "Estamos infiltrados!"

De RuPaul à Judy Garland, temos a nossa própria cultura. Entre ídolos, gírias e manifestações artísticas, criamos um legado que é muito presente na história recente da humanidade e que só cresce. Resistir é inútil! É lógico que os delírios alarmistas de uma "dominação mundial gay" ou do temível "fim da família" são apenas -- tcharam! -- delírios, mas mesmo que conquistemos a utopia de uma sociedade igualitária e livre de rótulos, deixaremos nossa marca.

Para encerrar, vamos falar sério. Nada disso importa. Experiências sexuais e identidades culturais diversas são interessantes e fazem parte do milagre que é a existência humana, mas no fim das contas somos todos iguais. Héteros e homos só terão aprendido alguma coisa uns com os outros quando não existirem mais essas distinções e as pessoas se sentirem livres para respeitar e apreciar seus desejos sem medo de julgamentos. Nesse dia, quem quiser fazer, simplesmente fará. Quem não quiser, vai ficar na sua. Não será muito mais divertido?

Sem diferenças, não há segredos.