OPINIÃO
08/07/2014 14:10 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:36 -02

Pacheco, racista e irracional

Árbitros e regras são o elemento pacificador fundamental. Tudo muito correto, honesto, o ideal do fair play! Doce utopia.

A domesticação da guerra por meio do esporte, sobretudo o futebol, é história antiga e conhecida. As torcidas entoam seus gritos de guerra e suportam os soldados no campo de batalha. Árbitros e regras são o elemento pacificador fundamental. Tudo muito correto, honesto, o ideal do fair play! Doce utopia.

As paixões dos homens, dizem alguns, não se subjugam às regras, aos juízes, às linhas brancas pintadas no campo. Seu desprezo pela razão é fatal quando a paixão se casa com a competição. Nasce a irracionalidade, que desce ao mundo sob a forma das mais variadas manifestações de ódio -e confesso que a cada dia estão mais sofisticadas.

Quando chegam à vida comum, geralmente se vestem do famoso pacheco, o torcedor fanático que incorpora a guerra em sua maneira de torcer: tudo e todos são inimigos figadais no projeto esportivo-bélico de se chegar à glória. Numa época em que as redes sociais produzem mais informação do que nunca, os pachecos virtuais se multiplicam, e no Brasil de 2014, atingiram um ponto que ultrapassa o insuportável.

O fanatismo pseudo-patriótico deu suas primeiras mostras tão logo a seleção brasileira se classificou para as semifinais do torneio. Camilo Zuñiga (o jogador colombiano que acertou uma joelhada em Neymar) e sua família receberam insultos, ameaças de morte e linchamento, mas o ápice da boçalidade se deu quando sugeriram via rede social um estupro coletivo da mulher e da filha do jogador (!?). Talvez seja necessário lembrar que essa mesma irracionalidade fanática -é necessária a redundância- produziu uma profunda cicatriz no futebol da Colômbia, atendendo pelo nome de Andrés Escobar, jogador brutalmente assassinado com 12 tiros. O motivo? Marcar um gol contra na Copa de 1994.

Que solidariedade latino-americana é esta, que opôs ilusoriamente times europeus a latino-americanos, e promoveu ameaças e ofensas racistas ao jogador colombiano? Seletiva e xenófoba certamente, dado que inferioriza, menospreza.

Os meios digitais são confortáveis aos que protestam sem sair da frente do computador e aos que têm prazer em marcar posições que chegam ao bizarro. Tão logo a Alemanha se definiu como próximo adversário, e sem o menor pudor ou preocupação para com o delicado sentimento alemão acerca do escuro passado provocado pelo nazismo e, por tabela, com a dor de milhões de judeus, brasileiros fizeram pulular memes com a imagem de Scolari e Hitler em situações de humor severamente duvidoso. Soa como jornalistas que pinçaram alguns poucos tweets de cunho racista escritos por torcedores espanhóis e, num exercício limitado de generalização -simples de ser feito e pernicioso no conteúdo- estamparam nas manchetes que "espanhóis dirigem mensagens racistas contra brasileiros".

As conexões estereotipadas, espanhol-racista, alemão-nazista, colombiano(latino-americano)-inferior, argentino-arrogante são rasas e alimentam um sentimento de ódio não domesticado pela bola em campo. Ferem, demonstram um nacionalismo-ufanismo muitíssimo tardio -e para não me estender muito, Eric Hobsbawm (Nações e Nacionalismo desde 1780), Guy Hermet (História das Nações e do Nacionalismo na Europa) e Gopal Balakrishnan (Um mapa da questão nacional) são ótimas referencias.

É estarrecedor ter ouvido ao telefone hoje que cidadãos alemães receberam ameaças nas ruas do Rio de Janeiro e ter lido colombianos sendo execrados pelas redes sociais. Por antecipação, estou profundamente consternado pelos (amigos) argentinos em solo brasileiro, caso avancemos à final. Contra-senso ao estereótipo do brasileiro cordial, mito criado para explicar os comportamentos sociais não racionais e ascéticos dos brasileiros.

Ronaldo sentiu vergonha, num mea-culpa, da desorganização pré-Copa. Sinto vergonha de meus compatriotas pela falta de sentimento de humanidade que manifestam. A cordialidade, isto é, o ato de "pensar com o coração" seria ferramenta de análise interessante desse fenômeno se o comportamento racista demonstrado nos últimos dias não estivesse plantado numa ausência completa de razão.

Liberdade de expressão é necessária à qualquer agrupamento humano. A garantia de que sejam produzidas opiniões discordantes termina quando opinar atinge o exato ponto de uma apologia à violência, se transforma em ameaça à segurança daqueles que são e pensam diferente.

Boçal é um tipo que existe em todo lugar. No Brasil mascara-se pelo discurso de que o brasileiro é tolerante, pacífico. Não. Nossos idiotas não são nada melhores que os idiotas europeus, norte-americanos, asiáticos ou africanos. Babaca é babaca.

Torcer "como um demente" pode ser matéria-prima para o canal de humor na internet, mas tem o mesmo apelo e falta de graça que as críticas ácidas (e totalmente deslocadas da realidade) que Ann Coulter fez ao futebol valorizando uma "cultura pura do que é ser Americano". O preconceito pacheco expressados pelas duas visões é o que alimenta o fanatismo que atira vasos sanitários de uma altura de vinte metros e o racismo que lança bananas em campo.

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