OPINIÃO
01/01/2015 13:19 -02 | Atualizado 26/01/2017 21:36 -02

O espelho de Dilma

A imagem que a presidente vê é a de um final de mandato de ponta cabeça, que ao invés de entregar tudo aquilo que prometeu, se desdobra para poder, ao menos, não produzir mais fragilidades para os próximos quatro anos que terá à frente do gabinete.

ANDRÉ DUSEK/ESTADÃO CONTEÚDO

Richard Morse, historiador norte-americano em seu Espelho de Próspero coloca a América Ibérica e a América Anglo-saxônica frente a frente, com imagens invertidas uma da outra. A metáfora do espelho é interessante para o 2014 de Dilma Rousseff e seu relacionamento com o mundo.

A imagem que a presidente vê é a de um final de mandato de ponta cabeça, que ao invés de entregar tudo aquilo que prometeu, se desdobra para poder, ao menos, não produzir mais fragilidades para os próximos quatro anos que terá à frente do gabinete. Enganam-se os que pensam que o retrospecto de crises a afeta apenas na política nacional. Rousseff é a imagem invertida de Lula: declinante e introspectiva.

Em julho, com algum estardalhaço os Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul (os BRICS) anunciaram a criação de um banco de desenvolvimento que serviria de braço financeiro do acrônimo político aos projetos de infraestrutura naqueles países e, possivelmente, em outros países em desenvolvimento. O argumento é de que as instituições de fomento internacionais são dominadas pelos países ricos e, por isso, capitalizar um novo banco originado nos BRICS seria um caminho autônomo para o desenvolvimento. Até o momento que fecho esta coluna, nada além de retórica foi produzido.

Um pouco mais adiante no tempo, Israel chamou o Brasil de "anão diplomático". Talvez o agressivo comentário da Chancelaria de Benjamin Netanyahu tivesse timing perfeito poucos meses mais tarde, quando estouraram as crises dos servidores do Itamaraty, dos diplomatas do chamado "baixo clero" e da publicização dos cortes profundos no orçamento do serviço exterior brasileiro -desde atrasos no auxílio moradia até para elementos básicos do funcionamento do dia-a-dia das embaixadas.

2014 potencializou o sabido menosprezo de Dilma pela agenda internacional. Com um governo coalhado de crises, a atenção à área internacional que já era pouca, minguou ainda mais. Dos poucos acertos que teve, foi a defesa inteligente dos investimentos feitos no porto cubano de Mariel -a retomada das relações entre Estados Unidos e Cuba foi a pá de cal às críticas sobre o tema.

Ao final do ano, o que se vê é um Brasil menos megalomaníaco, que entendeu que não pode "redesenhar a geopolítica e a economia do mundo" como Lula e Celso Amorim pretendiam, movidos à ego e um apetite voraz da China.

Havia um excesso ao projetar a imagem do Brasil no mundo, as crenças alimentadas eram as de que tudo havia mudado radicalmente para melhor, os problemas relacionados às fracas instituições e deficiências estruturais da economia estavam corrigidos. Quanto mais cresciam as expectativas, maior eram as esperanças nacionais de que autodenominada pujança brasileira fosse seguir indefinidamente. Não foi assim.

A Copa do Mundo foi um sucesso e passou. Foi só, nada mudou com relação ao comportamento do país no mundo. A imagem de um grande e importante país, que foi vendida, passou a ser de um país grande (territorialmente). E só. Se serve de consolo, o ano que termina serviu para encaminhar uma autocrítica, ou pelo menos mostrar que ainda há muito a ser feito, sem revoluções por minuto ou discursos inflamados no palanque.

Quando perguntar ao espelho o que foi seu 2014, Dilma receberá como resposta o silêncio.

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