OPINIÃO
28/04/2014 13:03 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:28 -02

Mercosul: o debate passa, necessariamente, pela realidade

Implodir o acordo regional do Mercosul e cerrar fileiras em direção a acordos preferenciais de comércio é o mesmo que negar às economias da região novas opções, é míope.

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Venezuela's Interior and Justice Minister Miguel Rodríguez Torres (L) speaks with Argentinan security minister Arturo Puricelli (R) during the closing ceremony of the XXXIV Ministers of interior and Security and XL Ministers of Justicia meeting in Margarita Island, Venezuela, November 9, 2013. AFP PHOTO/STR (Photo credit should read STR/AFP/Getty Images)

Em recente análise sobre a extinção do Mercosul (Folha de S. Paulo, 23/04/2014), aludindo às manifestações do senador Aécio Neves (PSDB-MG), Monica Hirst acertou uma no cravo e outra na ferradura. Se por um lado a proposta do político mineiro de dar cabo ao bloco sul-americano não encontra respaldo na realidade - cravo -, por outro os argumentos utilizados pela professora para defender o bloco são retóricos, providos de fraca substância - ferradura.

De fato, há muito os erros de constituição do bloco são conhecidos, no entanto é preciso enxergar com alguma honestidade que aqueles são fruto de um política de baixa voltagem dos Estados-Parte para temas como infraestrutura, integração de cadeias produtivas e os temas de fronteiras (polícias, aduanas, políticas públicas etc.). Ao olharmos para outros arranjos regionais (União Europeia, Nafta, ASEAN), o traço marcante no sucesso destes é que todos possuem cadeias produtivas transnacionais e interconexões de infraestrutura densas.

Portanto, implodir o acordo regional e cerrar fileiras em direção a acordos preferenciais de comércio, prescindindo as negociações interblocos, é o mesmo que negar às economias da região novas opções, é míope. Faz retroceder os parcos avanços e retomar a escalada de divulgação de retrocessos. Mais, mostra irresponsabilidade ante a uma tão difundida liderança do Brasil na região e no mundo.

Do ponto de vista da consolidação da democracia e a paz, ambas se fortalecerão na região com mais transparência, menos corrupção e mais participação. De modo breve, melhores instituições e não apenas gestos e retórica. A crise paraguaia e a recente turbulência política na Venezuela mostram que o Mercosul, apesar de se mostrar um foro de discussão e articulação política, ainda não tem capacidade de dar suporte às oscilações que enfrentam as democracias da região, seja por voluntarismo, seja por maturidade. Tampouco pode-se condicionar àquelas a existência do bloco.

Num momento em que as cúpulas regionais se perguntam como aprofundar os arranjos já existentes, por que não ousarmos no Cone Sul? Ousar não significa flexibilizar ao ponto de inutilizá-lo.

É certo que ao longo dos últimos 25 anos o Brasil tornou-se um importante ator global, e tem na América do Sul sua base de projeção natural. A solidariedade tácita empreendida por Lula, a partir dos eixos de infraestrutura e econômicos fundadas por FHC, deram garantias de continuidade e suporte às relações do país com seus vizinhos.

O aprofundamento, precedido de uma motivação para seguir em frente, pode ser um indicativo de mudanças no atual estado da integração no Cone Sul. Uma nova visão política regional, voltadas aos interesses da América do Sul e despida de monocromia, pode ser mais inclusiva, do ponto de vista da discussão sobre o papel do Brasil na região e do protagonismo do Mercosul no mundo.

Passar a régua e partir para outra não é a melhor solução. Existe um patamar de institucionalização importante que o Mercosul apresenta, sem contar com o histórico avançado de negociações comerciais e o transbordamento para agendas que são ricas para todos os seus membros. Significaria, por exemplo, isolar ainda mais uma Argentina com um cenário interno política e economicamente conturbado.

A convicção poderá sim, inflamar os discursos e o palanque, mas a responsabilidade em propor uma alternativa clara e sustentável para a consolidação do protagonismo internacional brasileiro e para o resgate do processo de integração - que um dia venceu a desconfiança regional e inaugurou uma política de cooperação e crescimento - é o que se espera nestas eleições de todos os candidatos ao Planalto.

Sabemos que o objetivo primeiro de uma campanha eleitoral é vencer, contudo o estadista prescinde o militante.