OPINIÃO
11/08/2014 00:17 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:46 -02

As sanções e o xadrez russo

As sanções comerciais da Rússia contra o Ocidente são mais um movimento no xadrez que Putin joga com o mundo, em sua estratégia de promover a "Grande Rússia" - tem funcionado.

GEORGES GOBET via Getty Images
Russian Prime Minister Vladimir Putin makes a face during a joint press conference with European Commission President Jose Manuel Barroso (not pictured) following talks between the Russian government and the European Union executive at the EU headquarters in Brussels on Febuary 24, 2011. Vladimir Putin and Jose Manuel Barroso clashed over plans that hamper Russian gas giant Gazprom's control over its supplies to Europe. At the heart of their squabble is a change in European Union law to unbundle gas supplies from transportation networks, meaning companies in essence can no longer own both the gas and the pipeline through which it is transmitted. AFP PHOTO / GEORGES GOBET (Photo credit should read GEORGES GOBET/AFP/Getty Images)

O surrealismo bateu à porta das relações internacionais. O governo Putin, pressionado e criticado por ter incitado a crise política na Ucrânia, anunciou sanções comerciais da Rússia contra o Ocidente, levantando barreiras à importação de alimentos de Estados Unidos, Canadá, Austrália e Europa.

A resposta russa, que faz parecer que o rabo balança o cachorro, é mais um movimento no xadrez que Putin joga com o mundo, em sua estratégia de promover a "Grande Rússia" e recuperar o moral internacional de seu país depois da implosão da União Soviética -tem funcionado.

Aos olhos ocidentais a medida pode parecer algo completamente deslocada da realidade, ou como de acordo com o Ministro da Agricultura alemão, uma "pressão política inapropriada". No entanto, as linhas mestras de Putin são coerentes e, até então, dão folgada margem de manobra para a política realista que decidiu para seu país. Quando evoca sanções comerciais o presidente russo desvia a atenção da crise Ucraniana, e das ações mais ásperas no plano regional imediato, aliviando a pressão internacional sobre seu governo.

Do ponto de vista estratégico, as medidas russas são puramente retórica. Uma cortina de fumaça. O perfil da balança comercial do país, de acordo com o Observatório de Complexidade Econômica mantido pelo MIT aponta que em 2012 os dez itens mais importados pela Rússia foram: carros, medicamentos, partes automotivas, computadores, caminhões leves, equipamentos de radiodifusão, veículos pesados para construção, telefones, tratores e aeronaves (helicópteros, aviões). O primeiro item do grupo "alimentos" aparece apenas na 16ª posição (carnes bovinas congeladas). Mais, dos principais vendedores à Rússia, apenas a Alemanha tem proeminência (14% das importações russas), atrás da China, com 15% -os EUA aparecem em 6º lugar, com 4,1%.

Apesar do estardalhaço feito por analistas do New York Times e da Forbes, as sanções russas afetarão pouco ambos os mercados. Também, é oportunista (jornalística e politicamente) dizer que avançar de maneira acelerada nas negociações com os países latino-americano sobre os acordos para o fornecimento de alimentos é conjuntural. Tratativas deste tipo, envolvendo normas fitossanitárias demandam tempo, são detalhistas, não caberiam num arroubo da Chancelaria russa. Em verdade, são parte do movimento de ampliação do espectro de parceiros comerciais do país e, portanto, são estruturais.

A Rússia reafirma sua imagem de potência no século XXI quando sela com a China acordos energéticos de grande envergadura. Não só, o faz também ao sair em busca de novos fornecedores de alimentos e matérias-primas em outros pontos do mundo -e em alguma medida, contrabalança a presença chinesa na América Latina e, possivelmente mais tarde, na África. Mostra ao Ocidente (EUA + Europa) e à China que não está encurralada na Eurásia, pressionada pelo muro de contenção estabelecido pela Aliança do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) e pelo gigante oriental.

Isto é, levantar barreiras contra o Ocidente só foi possível porque, do ponto de vista da política externa russa, se enxergou que já existiam garantias suficientes de que: i) os setores afetados pelas sanções ao Ocidente não são essenciais e poderiam receber suprimentos de outras fontes; ii) as negociações com os latino-americanos -fruto da cúpula dos BRICS- já estavam avançadas a ponto de suportarem promover mudanças efetivas no fornecimento de alimentos, e iii) era reduzido risco de se abrir uma nova frente de ação diplomático-militar, provocando um embate com a OTAN.

No meio de todo o emaranhado político, é interessante -quase divertido- notar que os movimentos russos conseguiram dar novo fôlego a uma OTAN já vazia do sentido de existir. Criada como escudo militar ocidental, até a crise ucraniana, a Aliança não tinha mais utilidade, sob a ótica da contenção -sua inspiração original. Anos de pesquisa tentando apreender o novo sentido de sua existência foram "resolvidos" por Putin.

O Ocidente acusa Putin de mentir sobre suas intenções e ações. John J. Mearsheimer, professor da Universidade de Chicago, escreveu há poucos anos um livro que tem como principal categoria de análise a mentira dos líderes políticos (Por que os líderes mentem, 2012). Talvez já distante no tempo, algum historiador resolva estudar por que Putin disse a verdade durante sua jornada em direção a uma "Rússia Grande"... uma resposta poderia ser: para atender aos interesses russos é válido desestabilizar todo o sistema -ainda mais se ele foi criado pelos Estados Unidos sob as ruínas da União Soviética. Tempos interessantes.

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