OPINIÃO
24/07/2014 10:19 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:43 -02

Admirável Mundo Velho

NELSON ALMEIDA via Getty Images
(L to R) Russian President Vladimir Putin, India's PM Narendra Modi, Brazilian President Dilma Rousseff, China's President Xi Jinping and South Africa's Jacob Zuma gesture during the 6th BRICS Summit in Fortaleza, Brazil, on July 15, 2014. Leaders of the BRICS (Brazil, Russia, India, China and South Africa) group of emerging powers gathered in Brazil on Tuesday to launch a new development bank and a reserve fund seen as counterweights to Western-led financial institutions. AFP PHOTO / NELSON ALMEIDA (Photo credit should read NELSON ALMEIDA/AFP/Getty Images)

Quando a União Soviética (URSS) ruiu sobre o próprio peso, o Ocidente sob liderança dos Estados Unidos convocou o mundo a construir uma "nova ordem mundial". Sob esta ótica, a Rússia estava sepultada enquanto potência internacional, e a China comunista (prenhe das reformas realizadas em sua longa marcha em direção à modernização, é verdade) passava a ser aceita e integrada ao sistema internacional liberal criado pelos EUA. Das fraturas da Guerra Fria, Japão e Alemanha (e mais adiante a União Europeia) passaram a tomar parte no conjunto de países que governam o ritmo da economia e da política mundial. É esse fenômeno que os analistas costumam chamar de multipolaridade - os diversos polos de atração e influência que alguns países representam.

Já na década dos 2000, Jim O'Neill, economista do banco Goldman Sachs, criou o termo BRICS, num mundo cujo desenho não era mais o duro conflito entre capitalistas e comunistas, a aposta de então era a de que as economias emergentes de Brasil, Rússia, Índia e China seriam o grande motor do mundo nos anos vindouros - a África do Sul foi adicionada ao acrônimo anos depois. Matias Spektor mostra que a criação não foi lá tão original.

De acordo com os entusiastas dessa nova divisão de poder, os BRICS promoveriam uma revisão das instituições criadas no pós-Guerra e permitiriam um melhor balanceamento das oportunidades e responsabilidades, proporcionando um melhor convívio entre os países no globo. Estaria configurada a multipolaridade definitiva. Pura bobagem!

Em 2009, ainda na ressaca da última crise financeira internacional, os sócios da junção de letras inauguraram uma série de encontros anuais. O resultado concreto de todas elas são declarações protocolares, fotos para a imprensa e nada. Cada um continua levando seus interesses e estratégias de maneira independente.

Este ano o encontro aconteceu em Fortaleza, e um estardalhaço tem sido feito por conta da criação do Banco dos BRICS. A instituição nasce com um leque de objetivos interessantes, que vai de financiar projetos de desenvolvimentos nos países parceiros e em outros mais pobres, passa por uma oposição frontal à lentidão das mudanças no FMI e chega à uma cesta de moedas para trocas comerciais diretas.

A hierarquia entre os países que compõem os BRICS é alta, a distância entre as realidades de cada um deles no jogo global é imensa e os interesses de cada um são bastante diferentes. Por isso, antes de comemorar entusiasticamente o revisionismo emergente, ou "mais um passo em direção ao fortalecimento do Sul Global", reviso duas posições que apontam na direção contrária. Os sócios mais poderosos, Rússia e China, merecem atenção.

Primeiro, o Ocidente (os EUA e a Europa Ocidental) decretou o fim da Rússia enquanto potência. Duas questões vêm a reboque: algum dia a Rússia perdeu protagonismo? Mais, em algum momento os russos se interessaram em reformar instituições internacionais - falo das que efetivamente detêm o controle sobre as decisões do mundo? Não, nunca.

A resposta às duas perguntas pode ser encontrada na anexação da Criméia. Putin ao retomar estratégia de uma "Rússia Grande", usando a tática geopolítica de recuperar a importância do país ante o "estrangeiro próximo", vingou os anos de humilhação internacional à Rússia e encomendou uma cova rasa à tão cara ordem liberal acalentada pelos ocidentais.

Moscou aquece os lares e move os carros da Europa Ocidental via Ucrânia. É importante e forte demais para sofrer sanções efetivas dos europeus (como aconteceu com o Iraque, completamente isolado por anos) - mesmo com as ações deliberadamente belicosas que Putin tomou sobre a crise ucraniana. O arsenal nuclear russo garante dissuasão contra qualquer tentativa de agressão militar. Numa lógica realista e simples, a Rússia não é emergente e não pretende revisar o atual estado de coisas do mundo, ao contrário, pretende ampliar seu espaço e manter as coisas exatamente como estão.

O mesmo tratamento é dispensado à China. Tendo saído de uma pobreza que corresponde ao seu tamanho, o país saltou de uma economia agrícola atrasada para a geração de tecnologia de ponta num átimo, não mais que sessenta anos. Pois bem, é de se presumir que com tamanha força queira mudar o eixo do mundo a seu favor, revisar as regras do jogo. Não é bem assim.

Os chineses são os maiores credores da dívida pública dos Estados Unidos, inundaram o mundo com seus produtos, são os maiores consumidores de matérias-primas e alimentos do globo, produzem tecnologia autonomamente, têm uma presença marcante no continente africano e um assento permanente no Conselho de Segurança das Nações Unidas. Com gestos assertivos e sem beligerância, moldam à sua vontade os rumos já estabelecidos e não assumem uma postura de superpotência - o que seguramente já são. Ao invés da polícia do mundo, são os provedores e financiadores do mundo contemporâneo, e que, para o bem dos negócios, deve continuar como está.

Pensar os BRICS como uma nova solução multipolar é nada mais que do que a ilusão de um admirável mundo velho.

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