OPINIÃO
28/03/2016 17:51 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:53 -02

'As Mil e Uma Noites' é um elogio à sobrevivência e resistência

A reunião de fábulas que compõem As Mil e Uma Noites tem algumas especificidades: não existe um livro original, ninguém sabe ao certo quem as escreveu e não existe um corpo específico de contos. Uma história que foi contada e recontada por tantos que é impossível dizer ao certo a sua origem.

A reunião de fábulas que compõem As Mil e Uma Noites tem algumas especificidades: não existe um livro original, ninguém sabe ao certo quem as escreveu e não existe um corpo específico de contos. Uma história que foi contada e recontada por tantos que é impossível dizer ao certo a sua origem.

O livro é mais de uma vez tema na obra de Jorge Luis Borges, seja em seus escritos ficcionais, seja em suas conferências. De acordo com o escritor argentino, o que hoje conhecemos pelo nome de As Mil e Uma Noites é o recolhimento das histórias contadas por confabuladores noturnos: contadores de histórias que entretinham viajantes no oriente próximo, com histórias extraordinárias e fantásticas, muitas oriundas da Índia, da Pérsia ou mesmo do oriente.

A trilogia homônima de Miguel Gomes interpela o discurso frio e racionalista acerca da austeridade em Portugal com uma narrativa fantástica e fantasiosa inspirada nas fábulas de Sherazade. O formato do filme mimetiza o do livro das Mil e Uma Noites, mas não se afirma como uma adaptação cinematográfica da obra.

As Mil e Uma Noites é sim uma inspiração na estrutura do filme, transpondo os episódios narrados por Sherazade para uma Portugal contemporânea que digladia contra a crise, a austeridade, e as imposições da Troika (palavra russa que designa um comitê de três membros com poderes equânimes) - no caso da Europa da década de 2010, o termo se refere especificamente à comissão formada por membros do Banco Central Europeu, Fundo Monetário Internacional e Comissão Européia para negociação da dívida e de créditos de países como Grécia, Portugal e Espanha.

É preciso prestar atenção à fala de Miguel Gomes quando ele diz não estar fazendo uma adaptação do livro. Trata-se, antes de tudo, de uma tradução, talvez a mais recente delas, e que se inscreve na história das traduções de As Mil e Uma Noites, e sua recepção no Ocidente (o primeiro manuscrito do livro que se teve acesso data do século IX).

Em 1704, o orientalista francês Antoine Galland realiza uma tradução para o seu idioma, tornando-a um clássico da literatura mundial. A versão em que Galland se inspira para sua tradução terminava na noite 282, e não apresentava desfecho. Assim, Galland resolve engrossar o caldo e recolhe textos de outros manuscritos árabes alheios às Mil e uma Noites. Alguns dos capítulos mais conhecidos da obra foram, na verdade, coletados pelo tradutor em sua viagem a Alepo, a partir de histórias que lhe foram contadas por um maronita chamado Hanna Diab - entre essas histórias, figuram Ali Baba e os Quarenta Ladrões e Aladim e a Lâmpada Mágica. A importância da obra de Galland é tanta que os capítulos adicionais são adicionados nas sucessivas edições árabes.

Richard Francis Burton, por sua vez, é o segundo tradutor de As Mil e Uma Noites para o inglês. Burton resolve não censurar os episódios eróticos, o que torna a obra um escândalo na Inglaterra vitoriana. Pier Paolo Pasolini fez na Trilogia da Vida outra adaptação cinematográfica das histórias contadas por Sherazade. Esse filme se insere no universo de releituras, traduções e adaptações de obras do passado histórico ou do distante geográfico como potencial de crítica ao estabelecido, daquilo já naturalizado. Trata-se, em Pasolini, de uma releitura da sexualidade popular de outras épocas como crítica à moral burguesa que determina o estabelecimento de corpos hábeis apenas ao trabalho.

Portugal diante da austeridade

Qual seria, então, a estrutura que amarra, que dá coesão às narrativas que constituem o livro? São todas histórias dentro de histórias, contadas por Sherazade, esposa do Rei Shariar, para escapar do terrível hábito de seu marido, o de degolar suas esposas logo após deflorá-las. E é justamente essa estrutura que Miguel Gomes atualiza substituindo, de modo epopeico, Sherazade pelo povo português, digladiando-se para sobreviver, não aos ímpetos sanguinários do Rei Shariar, mas à implacabilidade racionalista da austeridade imposta pela Troika.

Por que fazer um filme em Portugal hoje? É a partir de tal indagação que Miguel Gomes reitera a necessidade de se falar da crise. A partir do caso de demissão de trabalhadores de um importante estaleiro, localizado no norte do país, que a narrativa se inicia. O próprio diretor se coloca então em cena, repensa sua postura, seu desejo de fazer cinema nessa situação, foge, torna-se ele próprio o bufão perseguido por sua equipe, enquanto se refugia no hotel em que estão todos hospedados.

A abordagem escolhida para abordar a racionalidade dos discursos sobre a crise é a fantástica, por meio de uma leitura anacrônica, confundindo tempo e espaço de modo único. Há imagens fundidas de Marselha e Lisboa em uma narrativa em que também surge imagens de uma Bagdá agora às margens do Meditarrâneo. As Mil e Uma Noites de Gomes explora esse anacronismo como crítica política misturando fantasia, humor e contos populares - algo burlesco e bufão.

Estamos, assim, diante da presença de um procedimento imemorial, de uma tradição popular de se contrapor a projetos hegemônicos dentro do próprio continente europeu. Tradição cujas origens remontam à Roma, à Grécia, ao Egito, à Pérsia e à Índia, enredados a hábitos bárbaros, misturam crítica política, riso e irreverência: da magia dos druidas e das bruxas às reencenações escatológicas que inundavam as praças públicas contra o poder da igreja ao cotidiano das blasfêmias.

Aqui, o encontro da Troika europeia - o termo é significativo, uma vez que a mais famosa das Troikas fora o Triunvirato em Roma - é sabotado por um mago africano. Falando francês, ele ministra uma poção a todos os membros da comissão e do governo português que ficam sexualmente excitados e, assim, incapazes de negociar.

Como nas Mil e uma noites, o povo português se debate para sobreviver à força de um poder soberano. Agora, não mais o Rei Shariar, mas mecanismos econômico-políticos abstratos, impessoais; o sistema. Assim, um dos méritos do filme é trazer relatos de portugueses que, verídicos ou não - pouco importa! - dão carne a essa epopéia contemporânea. O animismo, traço já marcante em outros filmes de Pedro Gomes, reaparece no filme, assim como pequenos carinhos, gostos, desejos, e preferências cotidianas: traços subjetivos que ganham força diante da impessoalidade dos processos macros (macropolíticos, macroeconômicos).

Nesse sentido, um dos momentos mais bem elaborados ocorre no segundo filme da trilogia, na cena em que uma juíza coordena um tribunal com a população de uma cidade, com representantes reais em carne e osso. Repleta de alegorias, bufões e carnavalescos - seguindo a trilha da cultura popular medieval com a qual o filme dialoga - a política ganha novamente concretude, em personagens cujos conflitos pessoais, muitas vezes absurdos e espalhafatosos, trazem em si uma reflexão sobre a atual conjuntura do país.

Ver esse filme no Brasil torna impossível não pensarmos no jogo de espelhos entre estes dois territórios - inclusive diante de referências imagéticas e musicais que o filme tece.

Hoje, Portugal e Brasil, países modernos, ex-metrópole e ex-colônia, encontram-se, de modos muito distintos mas não por isso incomparáveis.

Após vivenciarem com toda a euforia que lhes cabia um momento de desenvolvimento raramente antes visto em suas histórias, debatem-se com a severidade da decadência e do pessimismo que acompanham o julgamento: ''novamente não demos certo''.

As Mil e Uma Noites são, enfim, um elogio às irreverentes estratégias de sobrevivência e resistência diante do inflexível poder soberano.

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